quarta-feira, 4 de abril de 2018


WC na casa dos outros

Antes que algum leitor mais atento me acuse de autoplágio, entrego: escrevi essa crônica em dezembro de 2011, após passar um apuro não me lembro onde. Repito-a por ter visto no Facebook aquela piadinha: quem já foi ao banheiro na casa dos outros e fez rapidinho, fingindo que era só xixi, é ninja.
Pois bem, quem já não precisou visitar o banheiro em casa alheia? Por mais que o ato de satisfazer as necessidades pessoais seja algo supercomum, todo mundo sente vergonha quando é visita. Na casa da namorada, então, o acanhamento parece ser gigantesco. Logo ao chegar, você sente um leve borbulhar no estômago. Tua futura sogra te recebe, oferece assento e avisa que “ela já vem, tá se arrumando”. Como demoooora... E chegam outros parentes, o irmão mais novo da tua gata está a postos para pentelhar, o mais velho vem com esposa e filhos, vovô e vovó...
O borbulhar, felizmente, passou. Alarme falso. Ah, é? Espere o jantar.
Depois de uma eternidade, aperitivos – amendoim não, por favor! –, papo furado etc. vem o jantar. Claro que o cardápio tem todos os ingredientes que vão te dar o maior apuro. À medida que vai comendo, você começa a jorrar suor de todos os poros. Precisa segurar alguns avisos que, em circunstâncias normais, seriam extremamente ruidosos e fedorentos, daqueles bons de soltar no meio da roda de amigos no bar, fazendo cara de inocente. Mas aqui, na casa da namorada? Ô, seus intestinos traidores, depois conversamos.
Você conseguiu passar o jantar, ainda que com câimbras no abdome. Na sobremesa, dá-lhe musse. De mamão, meu Deus! Você torce pra alguém ir ao banheiro – que, claro, fica ali, colado à sala de jantar – para avaliar as condições sonoras e olfativas. O peste do futuro cunhado vai, você não ouve nada, não sente nada. Ótimo, acho que dá pra passar pela provação.
Em determinado momento, você não suporta mais e cochicha ao ouvido da gata tua intenção de visitar o water closed. Com a barulheira à mesa, ela não ouve. Você repete e neste instante, como por milagre, cessam todos os sons no ambiente. Só se ouve tua frase, dita em alto e bom som: “Preciso ir ao banheiro”. Meia dúzia de mãos apontam para a porta ao lado. Pronto, foi-se o elemento surpresa. Lá dentro, você ainda tenta uma última saída: ficar só um minuto e sair, fingindo que era coisa rápida. Mas não dá, o número 2 está prestes a pinicar tua cueca. Bem, vamos lá. Disfarçar o barulho tossindo. Mas é barulho demais, vão achar que você tá com tuberculose. Dar a descarga ajuda. Mas quantas vezes? Cerca de dez minutos depois você sai, suando, vermelhaço pelo esforço. Ao sentar-se, percebe as pessoas disfarçando, com guardanapos no nariz. O maldito cunhadinho – que um dia há de pagar – nem disfarça: “Pô, meu, comeu carniça?”. Aí você se toca: deu tantas descargas pra disfarçar o barulho, que acabou se esquecendo da última. Ficou um bom monte de provas pra trás.
Na próxima visita, não esquecer de fazer lavagem estomacal antes.

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