segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Reflexões natalinas

Fecho este ano escrevendo não uma crônica, mas compilando e editando algumas escritas ao longo dos últimos dez anos nos jornais Notícias do Dia, de Joinville, e Perfil, de Rio Negrinho.
A primeira foi perpetrada uns dias após entrevistar uma joinvilense bem tradicionalista, e se intitulava...

Gosto de bolacha de melado

Há uns dias, conversando com a “senhora Natal” Edith Schroeder, passamos a trocar reminiscências da época de criança. Próximos na idade cinquentona, encontramos muitos aspectos em comum nos rituais natalinos de outrora. As diferenças ficam mais por conta de nossas cidades. Minha pequena Rio Negrinho tinha algumas características próprias, assim como a Joinville de Edith.
As semelhanças são maioria. Como aquela expectativa que afetava todas as famílias, semanas antes do Natal. Já em novembro notavam-se os primeiros sinais. Uns aromáticos, como o perfume do jasmim; outros visuais, a exemplo dos papais noéis de chocolate da Buschle enfeitando prateleiras; os sonoros, com as músicas natalinas saindo do rádio ou das vitrolas (aquele disco com clássicos natalinos interpretados pelo paraguaio Luís Bordon com sua harpa toca até hoje); o gosto de Natal vinha das bolachas de melado e dos chocolates comidos por antecipação; os cinco sentidos quase se completavam com o tato. Sim, quase, pois os dedinhos da criançada só conseguiam tocar o vidro que os separava do paraíso de brinquedos dentro da loja. Lá estavam os cobiçados carrinhos de madeira, especialmente os enormes caminhões com suas carrocerias gigantescas; as bolas, a maioria de plástico, as de capotão número 5 acessíveis a poucos; revólveres, pistolas e metralhadoras que municiariam as intermináveis brincadeiras de “camóin”; os mais esperançosos suspiravam com os jipes e lambretas movidos a pedal.
Na vitrine ao lado, as roupas da moda. Mas aquela só interessava aos pais. Fecha parágrafo.
No sábado que antecedia o domingo de Advento, era hora de mutirão para fabricar bolachas de Natal. A família se reunia no rancho, todos ajudavam, o forno a lenha comia solto. Latas e mais latas de manteiga ou óleo Samrig, daquelas de 20 litros, eram enchidas até a boca. Lá pelo Dia de Reis, não havia nem farelo. Também era hora de encher as barricas de barro com pepino na salmoura com folhas de parreira. A primeira barrica já seria esvaziada no almoço de Natal.
O sábado seguinte era reservado para abater e carnear o porco zelosamente cevado durante o ano. Mais um mutirão familiar, diversão garantida para a piazada.

A sala dos mistérios

Parece título de filme de suspense, ou livro de Agatha Christie. Mas essa crônica, longe de ser uma crítica de cinema ou literatura, é mais um capítulo das reminiscências de uma época feliz: o Natal da infância. A tal “sala dos mistérios” nada mais é do que a sala de visitas da casa onde eu morava, em Rio Negrinho.
A sala, por sinal, era a parte da casa menos utilizada, tanto que a porta principal vivia travando por falta de uso. Era costume, naqueles tempos e naquela pequena cidade, entrar pelos fundos, direto na cozinha. Só quando a família comprava o primeiro televisor é que a sala passava a ter alguma utilidade.
Mas no dia 24 de dezembro... Ah, essa passava a ser a dependência mais importante de toda a casa. Logo depois do almoço, a sala era vetada às crianças. Ficava mais inexpugnável que a Cidade Proibida dos chineses. O rigor dos nossos pais, avós e tios era de fazer inveja à segurança da Casa Branca.
Éramos três piás em casa, eu e dois primos. Minha avó, a “babushka”, e minha tia começavam os preparativos logo depois de deixar a cozinha em ordem – auxiliados com todo o fervor pelas crianças, que nunca enxugavam e guardavam a louça com tanta prestimosidade. Meu avô, meu pai e os tios iam tirar uma sesta após o almoço, e só depois se juntavam às mulheres. Para as crianças, a ordem era: “Fora de casa!”.
Lá íamos nós para o campinho, juntar a ansiedade ao resto da turma. Até castigávamos mais a bola, já meio arrebentada. Alguém ganharia uma nova, com certeza. Lá do campinho dava pra vislumbrar algum movimento nas salas de todas as casas da rua. Pelas 4 da tarde, quando as cortinas se fechavam, já sabíamos: banho.
Limpinhos e perfumados, só víamos a expectativa aumentar. Ainda bem que naquela época não se falava em estresse infantil. Nem adiantava querer espiar por alguma fresta, era tudo muito bem fechado, só faltava costurar as cortinas. Os coraçõezinhos pareciam prestes a saltar peito afora, num ritmo de batucada de escola de samba.
Em torno das 6 da tarde, ouvíamos o inconfundível “tlec” de uma tramela. Era a porta que separava a sala da cozinha. A porta da esperança. Acesso liberado...

Tlec!

Esse era o barulho que fazia a tramela de madeira, na porta que separava a cozinha da sala de visitas (que só recebia a visita do Papai Noel). A porta não tinha fechadura, maçaneta ou trinco. Só a tramela, com seu inconfundível “tlec!”. No final da tarde do dia 24 de dezembro, aquele som era a senha para que a porta do paraíso de escancarasse e as crianças pudessem entrar na sala. Um último empecilho era a cortina – bordada pela minha madrinha.
Na sala, espalhados pelo amplo sofá (Móveis Cimo, claro), pelas poltronas e sobre a mesa, os presentes espalhavam seu cheirinho de coisa nova. Minha tia já havia montado o presépio de papelão e enfeitado a árvore artificial, que brilhava com suas luzinhas piscando, em contraste com as velas apagadas. Aqui vale um parêntese. A árvore artificial e as velas apagadas eram a lembrança de um episódio ocorrido anos antes, quando um grande pinheirinho natural quase acabou com um Natal da família. Na hora do jantar, todo mundo na cozinha, ninguém tomara a providência de apagar as velas. Não deu outra: labaredas consumiram a árvore, quando a chama de uma vela decidiu lamber o algodão-neve. Foi o último pinheirinho natural e adeus velas acesas.
Pois bem, fechados os parênteses, voltemos à nossa sala das maravilhas. A ampla mesa não interessava à piazada (eu e dois primos), pois ali ficavam os presentes dos adultos, só roupa. Lá por meados de janeiro eu descobria que meu pai ganhara uma bela camisa Volta do Mundo, que tia Maria estava indo trabalhar com uma blusa Banlon, que minha babushka desfilava pelas ruas de Rio Negrinho com seus sapatos tipo maria-mole novinhos. Etc. etc. etc. Que fiquem os adultos com suas roupas.
Nós também ganhávamos roupas, claro. Era a única ocasião no ano – além do aniversário – em que crianças tinham direito a roupa nova. Mas as roupas só interessavam se fosse uma camisa do Palmeiras, um calção novo ou meiões verde-amarelos. O interessante eram os brinquedos. Um dos piás ganhava uma bola de capotão número 5, daquelas mais leves, adequadas aos chutes infantis. Eu tinha uma bela coleção de gaitas de boca, pois todo ano meu pai me dava uma (nunca aprendi a tocar este belo instrumento). Os embrulhos eram abertos com cuidado, pois aquele papel bonito servia para empacotar presentes de aniversário e forrar as cestas de Páscoa.
Em tempos que ninguém sabia o que era “politicamente incorreto”, ganhávamos belos revólveres de espoleta, espadas, arco-e-flecha... Um verdadeiro arsenal para equipar as brincadeiras de “camóin”. Carrinhos e caminhões de madeira eram importantíssimos. Às vezes, dependendo do orçamento da família, surgia um brinquedo a pilha, um luxo para aquele tempo. E quilos de chocolate Buschle na forma de papais noéis, que duravam até a Páscoa (sempre vinham também duas barras de Urso Branco da Sönksen, um luxo permitido só no Natal).
Depois da janta, ainda tinha a visita à casa da madrinha. No dia seguinte, os avós maternos... Eita, Natal bom aquele!

O Papai Noel é você

Você pode desencalhar um capote velho lá do fundo do baú; pode mandar fazer um traje completo; pode sair à paisana mesmo. Não importa o que você vai usar, é hora de ser Papai Noel. Tenha 10 anos de idade, 20, 40 ou 80, não importa. Se tiver 10, agradeça com sinceridade cada presente que ganhar. Aproveite para ser uma criança Noel e separe alguns brinquedos e roupas que não são mais utilizados, peça para o papai ou a mamãe te levar em algum lugar que recolha donativos e proporcione um Natal mais feliz para quem não pode ganhar presentes. Você vai ver como é gratificante ver o brilho nos olhinhos de uma criança pobre que não tem acesso a brinquedos – não só no Natal, mas quase nunca. Se você tem alguma religião, reze por essas pessoas; é outro presente muito importante.
Com 20 anos, com certeza você já tem condições de comprar algum presente também. Seu namorado vai ficar feliz hoje à noite, quando ganhar aquele mimo carinhosamente comprado no shopping. Mas ele também pode ter uma satisfação extra, se você o convidar a dar um pulo numa comunidade carente, levando uma cesta básica para alguma família necessitada. Como vocês chegaram há pouco tempo à fase adulta, ainda devem ter alguns brinquedos guardados, dos velhos tempos. Quem sabe uma Barbie bem antiga, ou um He Man ainda em condições de lutar.
Com 40, as responsabilidades são maiores. Tem a família toda para presentear, precisa bancar as despesas com a ceia etc. etc. Mas deve sobrar um tempinho para revirar o fundo do guarda-roupa e encontrar uma bermuda que não vem sendo utilizada, talvez um boné do tempo em que o Michael Jordan ainda jogava no Chicago Bulls. Você não usa mais, mas vá ver a alegria de um garoto que vai poder usar um boné desses.
Aos 80, fique tranquilo. Você já deve ter doado muita coisa na vida, principalmente trabalho. Se tiver disposição, pode proporcionar alguns momentos de diversão para a netarada, vestindo-se de Papai Noel. Pode dar de presente algumas boas histórias de sua vida. Relembrar os velhos Natais, folhear álbuns de fotografias... Divirta-se e curta o momento.
Seja qual for sua idade, lembre-se do principal, que é o motivo dessa festa toda. É tempo de render homenagens a um Aniversariante especial. Uma oração, uma boa ação. São presentes que Ele vai gostar.

Feliz Natal para você e paz para o mundo.