Reflexões natalinas
Fecho este ano escrevendo não uma crônica, mas compilando e
editando algumas escritas ao longo dos últimos dez anos nos jornais Notícias do
Dia, de Joinville, e Perfil, de Rio Negrinho.
A primeira foi perpetrada uns dias após entrevistar uma
joinvilense bem tradicionalista, e se intitulava...
Gosto de bolacha de melado
Há uns dias, conversando com a “senhora Natal” Edith
Schroeder, passamos a trocar reminiscências da época de criança. Próximos na
idade cinquentona, encontramos muitos aspectos em comum nos rituais natalinos
de outrora. As diferenças ficam mais por conta de nossas cidades. Minha pequena
Rio Negrinho tinha algumas características próprias, assim como a Joinville de
Edith.
As semelhanças são maioria. Como aquela expectativa que
afetava todas as famílias, semanas antes do Natal. Já em novembro notavam-se os
primeiros sinais. Uns aromáticos, como o perfume do jasmim; outros visuais, a
exemplo dos papais noéis de chocolate da Buschle enfeitando prateleiras; os
sonoros, com as músicas natalinas saindo do rádio ou das vitrolas (aquele disco
com clássicos natalinos interpretados pelo paraguaio Luís Bordon com sua harpa
toca até hoje); o gosto de Natal vinha das bolachas de melado e dos chocolates
comidos por antecipação; os cinco sentidos quase se completavam com o tato.
Sim, quase, pois os dedinhos da criançada só conseguiam tocar o vidro que os
separava do paraíso de brinquedos dentro da loja. Lá estavam os cobiçados
carrinhos de madeira, especialmente os enormes caminhões com suas carrocerias
gigantescas; as bolas, a maioria de plástico, as de capotão número 5 acessíveis
a poucos; revólveres, pistolas e metralhadoras que municiariam as intermináveis
brincadeiras de “camóin”; os mais esperançosos suspiravam com os jipes e lambretas
movidos a pedal.
Na vitrine ao lado, as roupas da moda. Mas aquela só
interessava aos pais. Fecha parágrafo.
No sábado que antecedia o domingo de Advento, era hora de
mutirão para fabricar bolachas de Natal. A família se reunia no rancho, todos
ajudavam, o forno a lenha comia solto. Latas e mais latas de manteiga ou óleo
Samrig, daquelas de 20 litros, eram enchidas até a boca. Lá pelo Dia de Reis,
não havia nem farelo. Também era hora de encher as barricas de barro com pepino
na salmoura com folhas de parreira. A primeira barrica já seria esvaziada no
almoço de Natal.
O sábado seguinte era reservado para abater e carnear o
porco zelosamente cevado durante o ano. Mais um mutirão familiar, diversão
garantida para a piazada.
A sala dos mistérios
Parece título de filme de suspense, ou livro de Agatha
Christie. Mas essa crônica, longe de ser uma crítica de cinema ou literatura, é
mais um capítulo das reminiscências de uma época feliz: o Natal da infância. A
tal “sala dos mistérios” nada mais é do que a sala de visitas da casa onde eu
morava, em Rio Negrinho.
A sala, por sinal, era a parte da casa menos utilizada,
tanto que a porta principal vivia travando por falta de uso. Era costume,
naqueles tempos e naquela pequena cidade, entrar pelos fundos, direto na cozinha.
Só quando a família comprava o primeiro televisor é que a sala passava a ter
alguma utilidade.
Mas no dia 24 de dezembro... Ah, essa passava a ser a
dependência mais importante de toda a casa. Logo depois do almoço, a sala era
vetada às crianças. Ficava mais inexpugnável que a Cidade Proibida dos
chineses. O rigor dos nossos pais, avós e tios era de fazer inveja à segurança
da Casa Branca.
Éramos três piás em casa, eu e dois primos. Minha avó, a
“babushka”, e minha tia começavam os preparativos logo depois de deixar a
cozinha em ordem – auxiliados com todo o fervor pelas crianças, que nunca
enxugavam e guardavam a louça com tanta prestimosidade. Meu avô, meu pai e os
tios iam tirar uma sesta após o almoço, e só depois se juntavam às mulheres.
Para as crianças, a ordem era: “Fora de casa!”.
Lá íamos nós para o campinho, juntar a ansiedade ao resto da
turma. Até castigávamos mais a bola, já meio arrebentada. Alguém ganharia uma
nova, com certeza. Lá do campinho dava pra vislumbrar algum movimento nas salas
de todas as casas da rua. Pelas 4 da tarde, quando as cortinas se fechavam, já
sabíamos: banho.
Limpinhos e perfumados, só víamos a expectativa aumentar.
Ainda bem que naquela época não se falava em estresse infantil. Nem adiantava
querer espiar por alguma fresta, era tudo muito bem fechado, só faltava
costurar as cortinas. Os coraçõezinhos pareciam prestes a saltar peito afora,
num ritmo de batucada de escola de samba.
Em torno das 6 da tarde, ouvíamos o inconfundível “tlec” de
uma tramela. Era a porta que separava a sala da cozinha. A porta da esperança.
Acesso liberado...
Tlec!
Esse era o barulho que fazia a tramela de madeira, na porta
que separava a cozinha da sala de visitas (que só recebia a visita do Papai
Noel). A porta não tinha fechadura, maçaneta ou trinco. Só a tramela, com seu
inconfundível “tlec!”. No final da tarde do dia 24 de dezembro, aquele som era
a senha para que a porta do paraíso de escancarasse e as crianças pudessem
entrar na sala. Um último empecilho era a cortina – bordada pela minha
madrinha.
Na sala, espalhados pelo amplo sofá (Móveis Cimo, claro),
pelas poltronas e sobre a mesa, os presentes espalhavam seu cheirinho de coisa
nova. Minha tia já havia montado o presépio de papelão e enfeitado a árvore
artificial, que brilhava com suas luzinhas piscando, em contraste com as velas
apagadas. Aqui vale um parêntese. A árvore artificial e as velas apagadas eram
a lembrança de um episódio ocorrido anos antes, quando um grande pinheirinho
natural quase acabou com um Natal da família. Na hora do jantar, todo mundo na
cozinha, ninguém tomara a providência de apagar as velas. Não deu outra:
labaredas consumiram a árvore, quando a chama de uma vela decidiu lamber o
algodão-neve. Foi o último pinheirinho natural e adeus velas acesas.
Pois bem, fechados os parênteses, voltemos à nossa sala das
maravilhas. A ampla mesa não interessava à piazada (eu e dois primos), pois ali
ficavam os presentes dos adultos, só roupa. Lá por meados de janeiro eu
descobria que meu pai ganhara uma bela camisa Volta do Mundo, que tia Maria
estava indo trabalhar com uma blusa Banlon, que minha babushka desfilava pelas
ruas de Rio Negrinho com seus sapatos tipo maria-mole novinhos. Etc. etc. etc.
Que fiquem os adultos com suas roupas.
Nós também ganhávamos roupas, claro. Era a única ocasião no
ano – além do aniversário – em que crianças tinham direito a roupa nova. Mas as
roupas só interessavam se fosse uma camisa do Palmeiras, um calção novo ou
meiões verde-amarelos. O interessante eram os brinquedos. Um dos piás ganhava
uma bola de capotão número 5, daquelas mais leves, adequadas aos chutes
infantis. Eu tinha uma bela coleção de gaitas de boca, pois todo ano meu pai me
dava uma (nunca aprendi a tocar este belo instrumento). Os embrulhos eram
abertos com cuidado, pois aquele papel bonito servia para empacotar presentes
de aniversário e forrar as cestas de Páscoa.
Em tempos que ninguém sabia o que era “politicamente
incorreto”, ganhávamos belos revólveres de espoleta, espadas, arco-e-flecha...
Um verdadeiro arsenal para equipar as brincadeiras de “camóin”. Carrinhos e
caminhões de madeira eram importantíssimos. Às vezes, dependendo do orçamento
da família, surgia um brinquedo a pilha, um luxo para aquele tempo. E quilos de
chocolate Buschle na forma de papais noéis, que duravam até a Páscoa (sempre
vinham também duas barras de Urso Branco da Sönksen, um luxo permitido só no
Natal).
Depois da janta, ainda tinha a visita à casa da madrinha. No
dia seguinte, os avós maternos... Eita, Natal bom aquele!
O Papai Noel é você
Você pode desencalhar um capote velho lá do fundo do baú;
pode mandar fazer um traje completo; pode sair à paisana mesmo. Não importa o
que você vai usar, é hora de ser Papai Noel. Tenha 10 anos de idade, 20, 40 ou
80, não importa. Se tiver 10, agradeça com sinceridade cada presente que
ganhar. Aproveite para ser uma criança Noel e separe alguns brinquedos e roupas
que não são mais utilizados, peça para o papai ou a mamãe te levar em algum
lugar que recolha donativos e proporcione um Natal mais feliz para quem não
pode ganhar presentes. Você vai ver como é gratificante ver o brilho nos
olhinhos de uma criança pobre que não tem acesso a brinquedos – não só no
Natal, mas quase nunca. Se você tem alguma religião, reze por essas pessoas; é
outro presente muito importante.
Com 20 anos, com certeza você já tem condições de comprar
algum presente também. Seu namorado vai ficar feliz hoje à noite, quando ganhar
aquele mimo carinhosamente comprado no shopping. Mas ele também pode ter uma
satisfação extra, se você o convidar a dar um pulo numa comunidade carente,
levando uma cesta básica para alguma família necessitada. Como vocês chegaram
há pouco tempo à fase adulta, ainda devem ter alguns brinquedos guardados, dos
velhos tempos. Quem sabe uma Barbie bem antiga, ou um He Man ainda em condições
de lutar.
Com 40, as responsabilidades são maiores. Tem a família toda
para presentear, precisa bancar as despesas com a ceia etc. etc. Mas deve
sobrar um tempinho para revirar o fundo do guarda-roupa e encontrar uma bermuda
que não vem sendo utilizada, talvez um boné do tempo em que o Michael Jordan
ainda jogava no Chicago Bulls. Você não usa mais, mas vá ver a alegria de um
garoto que vai poder usar um boné desses.
Aos 80, fique tranquilo. Você já deve ter doado muita coisa
na vida, principalmente trabalho. Se tiver disposição, pode proporcionar alguns
momentos de diversão para a netarada, vestindo-se de Papai Noel. Pode dar de
presente algumas boas histórias de sua vida. Relembrar os velhos Natais,
folhear álbuns de fotografias... Divirta-se e curta o momento.
Seja qual for sua idade, lembre-se do principal, que é o
motivo dessa festa toda. É tempo de render homenagens a um Aniversariante
especial. Uma oração, uma boa ação. São presentes que Ele vai gostar.
Feliz Natal para você e paz para o mundo.