segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Reflexões natalinas

Fecho este ano escrevendo não uma crônica, mas compilando e editando algumas escritas ao longo dos últimos dez anos nos jornais Notícias do Dia, de Joinville, e Perfil, de Rio Negrinho.
A primeira foi perpetrada uns dias após entrevistar uma joinvilense bem tradicionalista, e se intitulava...

Gosto de bolacha de melado

Há uns dias, conversando com a “senhora Natal” Edith Schroeder, passamos a trocar reminiscências da época de criança. Próximos na idade cinquentona, encontramos muitos aspectos em comum nos rituais natalinos de outrora. As diferenças ficam mais por conta de nossas cidades. Minha pequena Rio Negrinho tinha algumas características próprias, assim como a Joinville de Edith.
As semelhanças são maioria. Como aquela expectativa que afetava todas as famílias, semanas antes do Natal. Já em novembro notavam-se os primeiros sinais. Uns aromáticos, como o perfume do jasmim; outros visuais, a exemplo dos papais noéis de chocolate da Buschle enfeitando prateleiras; os sonoros, com as músicas natalinas saindo do rádio ou das vitrolas (aquele disco com clássicos natalinos interpretados pelo paraguaio Luís Bordon com sua harpa toca até hoje); o gosto de Natal vinha das bolachas de melado e dos chocolates comidos por antecipação; os cinco sentidos quase se completavam com o tato. Sim, quase, pois os dedinhos da criançada só conseguiam tocar o vidro que os separava do paraíso de brinquedos dentro da loja. Lá estavam os cobiçados carrinhos de madeira, especialmente os enormes caminhões com suas carrocerias gigantescas; as bolas, a maioria de plástico, as de capotão número 5 acessíveis a poucos; revólveres, pistolas e metralhadoras que municiariam as intermináveis brincadeiras de “camóin”; os mais esperançosos suspiravam com os jipes e lambretas movidos a pedal.
Na vitrine ao lado, as roupas da moda. Mas aquela só interessava aos pais. Fecha parágrafo.
No sábado que antecedia o domingo de Advento, era hora de mutirão para fabricar bolachas de Natal. A família se reunia no rancho, todos ajudavam, o forno a lenha comia solto. Latas e mais latas de manteiga ou óleo Samrig, daquelas de 20 litros, eram enchidas até a boca. Lá pelo Dia de Reis, não havia nem farelo. Também era hora de encher as barricas de barro com pepino na salmoura com folhas de parreira. A primeira barrica já seria esvaziada no almoço de Natal.
O sábado seguinte era reservado para abater e carnear o porco zelosamente cevado durante o ano. Mais um mutirão familiar, diversão garantida para a piazada.

A sala dos mistérios

Parece título de filme de suspense, ou livro de Agatha Christie. Mas essa crônica, longe de ser uma crítica de cinema ou literatura, é mais um capítulo das reminiscências de uma época feliz: o Natal da infância. A tal “sala dos mistérios” nada mais é do que a sala de visitas da casa onde eu morava, em Rio Negrinho.
A sala, por sinal, era a parte da casa menos utilizada, tanto que a porta principal vivia travando por falta de uso. Era costume, naqueles tempos e naquela pequena cidade, entrar pelos fundos, direto na cozinha. Só quando a família comprava o primeiro televisor é que a sala passava a ter alguma utilidade.
Mas no dia 24 de dezembro... Ah, essa passava a ser a dependência mais importante de toda a casa. Logo depois do almoço, a sala era vetada às crianças. Ficava mais inexpugnável que a Cidade Proibida dos chineses. O rigor dos nossos pais, avós e tios era de fazer inveja à segurança da Casa Branca.
Éramos três piás em casa, eu e dois primos. Minha avó, a “babushka”, e minha tia começavam os preparativos logo depois de deixar a cozinha em ordem – auxiliados com todo o fervor pelas crianças, que nunca enxugavam e guardavam a louça com tanta prestimosidade. Meu avô, meu pai e os tios iam tirar uma sesta após o almoço, e só depois se juntavam às mulheres. Para as crianças, a ordem era: “Fora de casa!”.
Lá íamos nós para o campinho, juntar a ansiedade ao resto da turma. Até castigávamos mais a bola, já meio arrebentada. Alguém ganharia uma nova, com certeza. Lá do campinho dava pra vislumbrar algum movimento nas salas de todas as casas da rua. Pelas 4 da tarde, quando as cortinas se fechavam, já sabíamos: banho.
Limpinhos e perfumados, só víamos a expectativa aumentar. Ainda bem que naquela época não se falava em estresse infantil. Nem adiantava querer espiar por alguma fresta, era tudo muito bem fechado, só faltava costurar as cortinas. Os coraçõezinhos pareciam prestes a saltar peito afora, num ritmo de batucada de escola de samba.
Em torno das 6 da tarde, ouvíamos o inconfundível “tlec” de uma tramela. Era a porta que separava a sala da cozinha. A porta da esperança. Acesso liberado...

Tlec!

Esse era o barulho que fazia a tramela de madeira, na porta que separava a cozinha da sala de visitas (que só recebia a visita do Papai Noel). A porta não tinha fechadura, maçaneta ou trinco. Só a tramela, com seu inconfundível “tlec!”. No final da tarde do dia 24 de dezembro, aquele som era a senha para que a porta do paraíso de escancarasse e as crianças pudessem entrar na sala. Um último empecilho era a cortina – bordada pela minha madrinha.
Na sala, espalhados pelo amplo sofá (Móveis Cimo, claro), pelas poltronas e sobre a mesa, os presentes espalhavam seu cheirinho de coisa nova. Minha tia já havia montado o presépio de papelão e enfeitado a árvore artificial, que brilhava com suas luzinhas piscando, em contraste com as velas apagadas. Aqui vale um parêntese. A árvore artificial e as velas apagadas eram a lembrança de um episódio ocorrido anos antes, quando um grande pinheirinho natural quase acabou com um Natal da família. Na hora do jantar, todo mundo na cozinha, ninguém tomara a providência de apagar as velas. Não deu outra: labaredas consumiram a árvore, quando a chama de uma vela decidiu lamber o algodão-neve. Foi o último pinheirinho natural e adeus velas acesas.
Pois bem, fechados os parênteses, voltemos à nossa sala das maravilhas. A ampla mesa não interessava à piazada (eu e dois primos), pois ali ficavam os presentes dos adultos, só roupa. Lá por meados de janeiro eu descobria que meu pai ganhara uma bela camisa Volta do Mundo, que tia Maria estava indo trabalhar com uma blusa Banlon, que minha babushka desfilava pelas ruas de Rio Negrinho com seus sapatos tipo maria-mole novinhos. Etc. etc. etc. Que fiquem os adultos com suas roupas.
Nós também ganhávamos roupas, claro. Era a única ocasião no ano – além do aniversário – em que crianças tinham direito a roupa nova. Mas as roupas só interessavam se fosse uma camisa do Palmeiras, um calção novo ou meiões verde-amarelos. O interessante eram os brinquedos. Um dos piás ganhava uma bola de capotão número 5, daquelas mais leves, adequadas aos chutes infantis. Eu tinha uma bela coleção de gaitas de boca, pois todo ano meu pai me dava uma (nunca aprendi a tocar este belo instrumento). Os embrulhos eram abertos com cuidado, pois aquele papel bonito servia para empacotar presentes de aniversário e forrar as cestas de Páscoa.
Em tempos que ninguém sabia o que era “politicamente incorreto”, ganhávamos belos revólveres de espoleta, espadas, arco-e-flecha... Um verdadeiro arsenal para equipar as brincadeiras de “camóin”. Carrinhos e caminhões de madeira eram importantíssimos. Às vezes, dependendo do orçamento da família, surgia um brinquedo a pilha, um luxo para aquele tempo. E quilos de chocolate Buschle na forma de papais noéis, que duravam até a Páscoa (sempre vinham também duas barras de Urso Branco da Sönksen, um luxo permitido só no Natal).
Depois da janta, ainda tinha a visita à casa da madrinha. No dia seguinte, os avós maternos... Eita, Natal bom aquele!

O Papai Noel é você

Você pode desencalhar um capote velho lá do fundo do baú; pode mandar fazer um traje completo; pode sair à paisana mesmo. Não importa o que você vai usar, é hora de ser Papai Noel. Tenha 10 anos de idade, 20, 40 ou 80, não importa. Se tiver 10, agradeça com sinceridade cada presente que ganhar. Aproveite para ser uma criança Noel e separe alguns brinquedos e roupas que não são mais utilizados, peça para o papai ou a mamãe te levar em algum lugar que recolha donativos e proporcione um Natal mais feliz para quem não pode ganhar presentes. Você vai ver como é gratificante ver o brilho nos olhinhos de uma criança pobre que não tem acesso a brinquedos – não só no Natal, mas quase nunca. Se você tem alguma religião, reze por essas pessoas; é outro presente muito importante.
Com 20 anos, com certeza você já tem condições de comprar algum presente também. Seu namorado vai ficar feliz hoje à noite, quando ganhar aquele mimo carinhosamente comprado no shopping. Mas ele também pode ter uma satisfação extra, se você o convidar a dar um pulo numa comunidade carente, levando uma cesta básica para alguma família necessitada. Como vocês chegaram há pouco tempo à fase adulta, ainda devem ter alguns brinquedos guardados, dos velhos tempos. Quem sabe uma Barbie bem antiga, ou um He Man ainda em condições de lutar.
Com 40, as responsabilidades são maiores. Tem a família toda para presentear, precisa bancar as despesas com a ceia etc. etc. Mas deve sobrar um tempinho para revirar o fundo do guarda-roupa e encontrar uma bermuda que não vem sendo utilizada, talvez um boné do tempo em que o Michael Jordan ainda jogava no Chicago Bulls. Você não usa mais, mas vá ver a alegria de um garoto que vai poder usar um boné desses.
Aos 80, fique tranquilo. Você já deve ter doado muita coisa na vida, principalmente trabalho. Se tiver disposição, pode proporcionar alguns momentos de diversão para a netarada, vestindo-se de Papai Noel. Pode dar de presente algumas boas histórias de sua vida. Relembrar os velhos Natais, folhear álbuns de fotografias... Divirta-se e curta o momento.
Seja qual for sua idade, lembre-se do principal, que é o motivo dessa festa toda. É tempo de render homenagens a um Aniversariante especial. Uma oração, uma boa ação. São presentes que Ele vai gostar.

Feliz Natal para você e paz para o mundo.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O ocaso de uma história escrita
Publicado por  fazeraqui em  20/11/2017
Por Roberto Szabunia*

Jornal do Brasil encerra atividades.
Fechado o Jornal da Tarde.
Fim do Notícias Populares.
Gazeta Mercantil fecha as portas.
Gazeta do Povo idem
E Notícias do Dia.
Isso vem se repetindo neste século 21, cada vez mais amiúde.
No ano passado, ao menos 11 veículos de comunicação fecharam as portas ou deixaram de circular impressos. Entre eles, o Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, publicação dos Diários Associados, que encerrou uma história de 189 anos de circulação ininterrupta, tendo o posto de mais antigo da América Latina.
Veículos históricos deixaram o papel, para ocupar apenas a internet, enquanto outros, infelizmente, anunciaram o fechamento de suas redações de forma definitiva.
Por que acontece isso? Culpa da Cris, dizem. Qual Cris? A Crise, ué.
Certo, condições econômicas adversas provocam problemas, sabemos disso. Mas a questão vai além, e pega, infelizmente, o hábito cada vez mais raro da leitura. Não só entre nós, brasileiros. Jornal parando de imprimir ou fechando as portas é fenômeno comum no mundo todo.
Preguiça? Acesso a outras mídias? Queda na qualidade dos jornais?
Um pouco de cada ingrediente, creio. Há uns cinco anos, ainda repórter do – falecido – Notícias do Dia edição Joinville, estranhei certo dia a ausência da vendedora no ponto em que a encontrava todos os dias. Ao chegar à sede da RIC, fiquei sabendo que a venda em rua estava sendo suprimida, por falta de movimento.
Alguns dias depois, também não vi jornaleiros oferecendo A Notícia; mesmo motivo. Poucos meses após, também tradicionais pontos de venda, como mercearias e farmácias, começavam a cancelar as encomendas do ND. Sobravam bancas e assinaturas. Até dezembro de 2016, quando nem um nem outro canal tinham procura; com os anúncios também sumindo, a empresa fechou o jornal.
Semana passada circulou nas redes sociais mais uma bomba: A Notícia promovia um enxugamento na Redação. Mais jornalistas desempregados.
Assinante do Estadão, hoje leio a edição de domingo numa sentada; há seis anos, se tanto, cadernos de fim de semana garantiam leitura até terça ou quarta-feira. Havia o Sabático, ótimo caderno literário; o Aliás, caderno de cultura e artes, tinha doze páginas, passou pra dez, baixou pra seis e hoje tem quatro; caderno de esportes não existe mais, o noticiário foi agregado ao corpo do segundo caderno.
E por aí vai…
– Não tenho tempo pra ler jornal.
Ouço há anos essa desculpa. Conversa fiada… Falta é vontade mesmo.
– Ah, eu assisto ao Jornal Nacional.
Outra balela, pra justificar a preguiça de ler. Telejornal nenhum garante informação completa. E o telejornalismo brasileiro padrão Globo, com sua pirotecnia, tem muito show e pouco jornalismo. Acho ridículo apresentadores caminhando pelo estúdio e fingindo que conversam com o telão.
Jornais migram para a internet. Ok, mas ali tem que ser só aperitivo, canal de informação imediata, a notícia em cima da hora, esmiuçada na edição impressa do dia seguinte. Nesse ponto, minha opinião é que os veículos erram ao disponibilizar muita informação gratuita na internet.
Quem ainda gosta de ler, acaba se rendendo ao conformismo de acessar edições online; tá tudo lá, pra que comprar ou assinar jornal impresso? Responda aí, leitor ainda empenhado: quantos anúncios chamam tua atenção no monitor? Quantos te atraíram hoje? Outra vantagem do canal impresso: anunciantes são mais vistos.

Até os cachorros de apartamento sentem falta do jornal impresso…

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A máquina do tempo

Duvido! Duvi-de-ó-dó! Duvido que tenha alguém, em qualquer parte do mundo, que jamais tenha imaginado uma viagem no tempo. De preferência ao passado. “Pra mudar algumas coisinhas...” direis. Por exemplo: ter sido mais ousado (ou ousada) nas tentativas de conquistar aquela (ou aquele) colega do ginásio por quem você era apaixonado (a); agora, vendo o antigo amor feliz da vida na indissolúvel (tá... tá... nem tanto) união do matrimônio, bate o arrependimento. Então você fica se recordando das tardes gostosas na sala de aula, olhando, olhando... Já na época, a maquininha do tempo lá no fundo do cérebro funcionava, mostrando imagens do futuro: vocês dois de mãos dadas no cinema, se casando ante as lágrimas das mamães, criando os filhos...
- Acorde!
Puxa, o professor desligou a máquina.
Agora, cabecinha encostada no travesseiro, lá vai você ao passado, analisando o que fez de errado e planejando o que fará quando enfim puder fazer a viagem de volta.
Mas cuidado! Há coisas que é melhor não mudar.
Entremos no cinema.
“Questão de Tempo”, “Efeito Borboleta” (o primeiro, pois não vi o II e o III) e “O Som do Trovão” são filmes interessantes e bons sobre o tema.
Produção britânica de 2013, dirigida por Richard Curtis, “About Time” é uma comédia romântica com a seguinte sinopse: ao completar 21 anos, Tim (Domhnall Gleeson) é surpreendido com a notícia dada por seu pai (Bill Nighy) de que pertence a uma linhagem de viajantes no tempo. Ou seja, todos os homens da família conseguem viajar para o passado, bastando apenas ir para um local escuro e pensar na época e no local para onde desejam ir. Cético a princípio, Tim logo se empolga com o dom ao ver que seu pai não está mentindo. Sua primeira decisão é usar esta capacidade para conseguir uma namorada, mas logo ele percebe que viajar no tempo e alterar o que já aconteceu pode provocar consequências inesperadas. Entre elas... (tranquilo, não vou meter spoiler aqui, veja o filme).
“The Buterfly Efect” já se tornou um clássico moderno, ainda que tenha meros treze anos. Com direção de Eric Bress e J. Mackie Gruber, tem Ashton Kutcher interpretando um jovem que luta para esquecer fatos de sua infância. Para tanto ele volta ao passado. Porém, ao tentar consertar seus antigos problemas ele termina por criar novos, já que toda mudança que realiza gera consequências em seu futuro.
No terreno da ficção científica temos “O Som do Trovão”, de 2005, dirigido por Peter Hyams. Baseado em conto do grande escritor Ray Bradbury, gerou um bom filme. Também li uma versão em quadrinhos no saudoso gibi Kripta. Esse já é mais fantasioso, com tecnologia a favor da viagem no tempo, safári pré-histórico e suspense. Os “viajantes” precisam respeitar uma regra de ouro: só apreciar, sem interagir de maneira alguma com o ambiente do passado; até que alguém pisoteia um inseto...

Os três filmes citados têm em comum a mesma mensagem: mudar o passado pode provocar consequências inesperadas (geralmente negativas) no presente. Melhor seguir à risca o regulamento do organizador de passeios de “O Som do Trovão”: não mexa em nada, só olhe.
A revolta dos chocólatras

Meu Facebook anda bombando nesses dias, com uma doce polêmica iniciada pelo ilustre Milton Wendel sobre a qualidade dos chocolates nacionais. Wendel resume sua opinião com uma onomatopeia: blaaargh! Pra ele, nossa indústria chocolateira está simplificando sua produção num majoritário item: gordura vegetal hidrogenada. Jackson Borges acrescenta que “... a civilização ocidental é viciada em açúcar há mais de meio milênio. Em gordura vegetal há quase oitenta anos”. E por aí vai o debate, quase unânime na condenação do chocolate brasileiro ao fogo do inferno.
De minha parte, só posso concordar. Chocólatra de carteirinha, era voraz consumidor na infância. E, como os primeiros dezessete anos de vida eu passei em Rio Negrinho, tive o prazer de ter os produtos Buschle sempre à disposição, vindos ali da vizinha São Bento. A empresa não era nenhuma gigante nacional da indústria chocolateira, nem sequer despertava a cobiça das multinacionais Lacta e Nestlé. Mas fazia delícias que até hoje me enchem a boca de saliva só de lembrar.
Tinha o bombom recheado com licor, uma coisa do outro mundo. Chocolate crocante, um sabor bem característico. E o licor... Muita gente se lambuzava ao morder o pequeno bombom bem na metade, derramando o precioso recheio. A piazada conhecia o segredinho: morder só uma pontinha, entornar o líquido e arrematar com o chocolatinho inteiro. Comer um só? Nem pensar!
A Buschle também fazia o Beijo Baiano, que muito mais tarde descobri ser conhecido no Brasil como pão-de-mel. Mas o de São Bento era diferente, único, o tal pão era durinho, delicioso misturado com o chocolate que o recobria.
Havia o Pingue-Pongue, o tradicional amendoim recoberto com chocolate. Hoje, paga-se quase 5 pilas por um pacotinho minúsculo. Tem um da marca Dori que até é gostoso. Mas naquele tempo comprávamos o Pingue-Pongue da Buschle a granel, na venda do bairro. Ele ficava no baleiro, e era acondicionado num cone de papel que o dono da mercearia fazia na hora. Uma conchinha por 100 cruzeiros, duas por 180... Ou algo assim.
Por essa época do ano, mal passava o Dia das Crianças e as casas comerciais começavam a ser invadidas por hordas de papais noéis de chocolate da Buschle. Nos idos do século XX, o chocolate era tão tradicional no Natal quanto na Páscoa. Nos dois meses anteriores ao Natal, compravam-se papais noéis pequenos, só pra aguçar a gula. No dia 24 de dezembro, enfim, entre os presentes vinham mais chocolates, mas aí era a vez dos grandões, alguns duplamente embalados, com papel e plástico. A Garoto, ainda uma indústria do Espírito Santo, oferecia um noel enorme, finamente embalado em papel laminado, reprodução exata do Santa Claus que personificava São Nicolau. Era supimpa!.
No Natal, também, era a segunda ocasião no ano em que ganhávamos a delícia das delícias, o néctar dos deuses em forma de barra de chocolate: Urso Branco. Era uma barra-família de chocolate branco, de sabor inigualável, fabricada pela paulista Sönksen. A empresa foi fundada em São Paulo, em 1888, como uma pequena loja de doces, La Bombonière, por Alfredo Richter. Na virada para o século XX, Richter casou-se com Alwine Sophia Sönksen, mulher de forte visão empreendedora que desde o primeiro momento da união passou a colaborar ativamente com o marido na expansão da pequena empresa em uma grande casa comercial e industrial. Surgiu então a Sönksen. Entre ascensão, reinado e queda, a história da marca durou até 1983, ano da falência. Hoje, quem guardou uma das famosas latas de balas, tem um tesouro. (Leia mais sobre a Sönksen no site saopauloantiga.com.br, minha fonte aqui.)
Ah, uma barra de Urso Branco também era ganha na Páscoa, acompanhada da irmã Urso Marrom. Detalhe: esses eram presentes para toda a família, divididos entre os habitantes da casa. Na Páscoa, por sinal, prova de resistência era ainda ter algum chocolate natalino. E campeão era o piá que tinha um coelho da Buschle ainda escondido até o Natal. De marrom-chocolate, àquela altura já era branco-mofo; mas merecia ser devorado assim mesmo, e o irmão mais novo – ou primo, no meu caso – contentava-se com as orelhas.

Bons e doces tempos...

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Matinê com Jerry Lewis

“Neste domingo, na matinê, às 15 horas, ‘O Rei do Laço’, com Jerry Lewis e Dean Martin.”
Com o anúncio que abre essa crônica, faço duas homenagens. A óbvia, ao grande comediante Jerry Lewis, falecido neste 20 de agosto de 2017. Outra é à Rádio Rio Negrinho, que nessa sexta, dia 25, completa 69 anos de atividades; era nas ondas da velha e boa ZYR4 que o Cine Rio Negrinho anunciava suas atrações do fim de semana, há meio século.
Hoje em dia, lamento não encontrar na internet o sinal da rádio, ainda ausente dessa plataforma. Só a ouço, esporadicamente, quando visito minha terra. Não sei se alguém assumiu a Alvorada Sertaneja e o Ranchinho do Coroné, outrora apresentados por Severiano César, ou simplesmente o “Coroné César”, de saudosa memória. Era ele que, junto com os galos lá de casa e da vizinhança, tirava o povo da cama ao som da boa e original música caipira, antes de nascer o sol. Retornava no fim da tarde com seu Ranchinho, interrompido às 18 horas para a Ave-Maria. Despedia-se já com os primeiros acordes de “O Guarani”, anunciando a “Voz do Brasil”. Aos sábados podia ser encontrado com os amigos, batendo uma sinuca no Gibaco. Domingo à tarde, assistia aos jogos de futebol no Ipiranga, no Continental, no Vila Nova ou no Oméri.
Por falar em futebol, se não fosse possível ir ao jogo, bastava ligar o rádio e ouvir a inconfundível voz aguda de Sérgio Ferreira. Eu ainda não tinha o hábito de levar o radinho aos jogos, mas em algumas ocasiões o “Sebinho” permitia que eu subisse à única cabine do estádio Luiz Bernardo Olsen, de onde assistia à partida e ainda via seu trabalho. Se não houvesse jogo na cidade, a R4 entrava na Cadeia Verde-Amarela da Bandeirantes, transmitindo o principal prélio paulista. Saudade de Fiori Gigliotti: “Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo!”.
Nossas noites de antanho, sem televisão, eram preenchidas com leitura e a “Hora da Seresta” tocando belas páginas musicais. Pelas 23 horas a emissora saía do ar, retornando às 6 da manhã seguinte, com o Coroné. Sábado, ao meio-dia, “As Campeãs da Semana”, com as músicas mais pedidas pelos ouvintes durante os cinco dias anteriores – sempre por carta. O campeão, invariavelmente, o mesmo: Roberto Carlos do tempo da Jovem Guarda. Na programação musical, aliás, não havia música ruim. Tudo era bom e só as preferências variavam. Hoje… Não, melhor deixa; muita sofrência analisar o cenário musical brasileiro.
Cinema, três sessões: sábado e domingo à noite, logo após a missa (o horário oficial era 20h15, mas o Nono atrasava o filme se o padre se empolgasse na homilia); e domingo, a matinê (nunca matinal, claro, apesar do nome). Foi nas matinês que conheci Jerry Lewis, o cara que provocou alguns constrangimentos em crianças que não conseguiam segurar o xixi de tanto rir. Confesso: faltou pouco pra me molhar na cena da mangueira em “Bancando a Ama Seca”; nunca ri tanto na vida.
Ainda sem as aulas de inglês que só viriam na segunda série do ginásio, pronunciávamos “jérri lévis”. E seu parceiro era o “dean martím”. Nos filmes da dupla, o público só se impacientava quando o galã cantava; puxa, até hoje peço desculpas ao espírito de Dean Martin, uma das mais belas vozes do cenário artístico mundial. Agora, quando revejo algum filme da dupla, o olhar já não é simplesmente o da criança buscando diversão. Sempre que possível, desativo a legendagem, concentrando-me nas gagues de Lewis e nas canções românticas de Martin.
O melhor filme de Jerry Lewis? Há cinquenta anos eu responderia “O Rei do Laço”. Hoje, acompanho a crítica especializada e vou de “O Professor Aloprado”.
E por falar em comediante que deixa saudade, acrescento aqui uma sentida homenagem a um velho companheiro que nos deixou nesta quinta, dia 24: Stélio Ricardo Rosenstock. Uma tarde na redação de A Notícia, com Stélio diagramando, era garantia de criatividade e boas risadas.
Vayan con Diós, amigos.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ligue um livro!

Tenho visto nas redes sociais e escutado em conversas ao vivo uma reclamação constante sobre a falta de qualidade da televisão, de um modo geral. Um dia, é um velho amigo de infância que brada contra o besteirol de um tal de Faustão. Até pergunta se tem algum mecanismo pra tirar o som daquele berreiro. Outro estrila contra a baixa qualidade de um certo Zorra, que ataca sem dó os dogmas religiosos. E há os que vivem postando no WhatsApp as falsas notícias, seguidas do inevitável “…isso a Globo não dá…”. Affff… diria o Painho, inesquecível personagem de Chico City. Claro que a Globo não vai dar, assim como nenhuma emissora ou qualquer veículo de imprensa. Afinal, não há qualquer projeto de lei no Congresso prevendo a suspensão da CNH trinta dias após o vencimento. E outras “notícias bombásticas” do gênero.
Bem, faço aqui uma sugestão a todos que reclamam. Se você está nesse grupo, anote.
Primeiro, pegue aí no teu lado, no sofá ou na mesinha de centro, um aparelhinho eletrônico. Ele costuma ser retangular, mede uns 15 x 5 cm, geralmente é preto e tem um monte de botõezinhos coloridos. No canto superior, às vezes no direito, outras no esquerdo, há um botão vermelho. Sobre ele, acima ou abaixo – depende da marca do aparelho – há uma inscrição que varia do inglês POWER ao português LIGA/DESLIGA; também pode estar escrito ON/OFF ou simplesmente L/D. Aponte o aparelho para o outro, grandão, na estante ou no rack, onde há algo desagradável. Aperte o botão vermelho, com suavidade, pois é eletrônico, e… pufff! … lá se foi. O aparelho grandão se apaga, somem imagem e sons desagradáveis. Aquilo só volta se você apertar novamente o botãozinho vermelho.
Então, não se esqueça: enquanto o botão vermelho não for pressionado, você fica livre da aporrinhação.
Agora, o segundo passo. Vamos ligar outro equipamento. Antes, vejamos se esse você tem em casa. Dê uma campeada nas estantes, nos armários, baús e outros lugares onde você costuma colocar algo que não pretende mais usar. É um objeto também retangular, mas maior, tamanho médio de 21 x 14 cm. Em vez do preto pontilhado de botões multicores, esse quase sempre é colorido, e costuma ter ilustrações na tampa, indicando seu conteúdo. Os antigos o batizaram de LIVRO.
Se, por acaso, você não encontrar nenhum em casa, ainda há solução. Esse aparelho pode ser encontrado em locais chamados LIVRARIAS. Também há modelos compráveis em outros tipos de estabelecimentos comerciais. Eles custam bem menos que o aparelho grandão da tua sala. Há livrarias especializadas em equipamentos usados, são chamadas SEBOS. Ali são mais baratos que os novos, e a utilização é a mesmíssima.
Bueno, está com o aparelho em mãos? Vamos aprender a utilizá-lo. Não precisa cabo de energia, pilha nem qualquer fonte. No máximo, é só acender a luz se for usá-lo à noite. Para ligar, basta levantar a tampa e ir virando as folhas. Se não terminar todas as etapas de uma vez, utilize um pedaço de papel, uma foto, um santinho, uma fita ou qualquer outra coisa como marcador, para retomar a tarefa na próxima vez. Eu uso há alguns anos uma nota de 1 real; mas aceito se alguém me der uma de 100 dólares pra substituí-la.
Caso você não possa dispor agora do valor necessário para adquirir uns aparelhos desses, encontra quase de graça em outro lugar, chamado BIBLIOTECA. A diferença é que, nesse caso, você devolve após usar. Também tenho um monte deles aqui, posso te emprestar.
As vantagens do livro sobre a TV: você escolhe o que vai ver; adquire conhecimentos; viaja pelo Universo sem sair de casa; não se expõe à destruição dos neurônios; pode levá-lo pra onde quiser (já tentou carregar um televisor de 40 polegadas pra praia?). E tudo isso em silêncio...
Imagens da Max

Recém-chegado em Joinville, no já distante janeiro de 1979, nada conhecia da cidade. Das raras ocasiões anteriores que por aqui andara, pouco me restava na memória. Sabia que os Kursancew residiam perto da casa do bispo, pois por ali estivera duas vezes na infância, em temporadas de veraneio na casa da família na Enseada. E só!
Então, naquele longínquo janeiro, quente e úmido como só o verão de Joinville sabe ser, fiquei alguns dias hospedado com primos, enquanto aguardávamos a liberação da casa que ocuparíamos. Moravam Suely e Rogério com os filhos na rua Marquês de Olinda, lateral da Max Colin. Era uma via estreita, sem pavimentação, que começava na 15, ao lado do Bar Glória, e terminava justamente na residência dos primos, na subida de um morrote. Soube então que havia projeto de abrir a rua, cortando o morro, ligando-a à Benjamin Constant, uma centena de metros além.
Certa manhã, peguei carona até o Centro, disposto a dar uma zanzada. Afinal, a partir de então seria a “minha cidade”. Caminhei pela rua do Príncipe e imediações, quase sempre tendo dois pontos de referência: as palmeiras da alameda Brüstlein e o edifício Manchester, ambos se destacando na paisagem livre de altos prédios.
Perto do meio-dia, após tomar um mercedinho num bar chamado Interlagos – só pra matar a saudade de Sampa –, decidi voltar a pé. Minha referência era a rua Max Colin; então, ao encontrá-la, na confluência com a Orestes Guimarães, iniciei a caminhada. Bah! Achei que a Marquês de Olinda fosse logo ali.
A primeira quadra da Max tinha só algumas casas, a maioria antigas, bonitas e bem cuidadas. Dali em diante, uma característica sempre percebida: jardins, hortas e pomares cuidados com capricho. Hoje, o trecho inicial ainda mantém algumas casas, além de um prédio residencial de três andares. Por ali agora fica a Casa das Revistas que tanto frequentei quando era na 9 de Março.
A segunda quadra foi a que mais mudou nestes 38 anos e meio. Naquele tempo quase não havia edificações, só terrenos vazios e um boteco/lanchonete na esquina. Agora tem farmácia, lanchonete, igreja, lojas e a entrada lateral da Milium.
A quadra seguinte era mais movimentada, a da Prefeitura. Acho que o posto da esquina já existia. No mais, terrenos vazios servindo de estacionamento grátis. Ali ainda está o prédio que tanto frequentei nos anos que se seguiram, como repórter de “A Notícia”, entrevistando LHS, Freitag e Lula ou simplesmente batendo papo com os profissionais da assessoria de imprensa – diversos deles colegas também no jornal. Agora o prédio parece um fantasma a observar a cidade crescendo, lá dentro só vultos de tempos saudosos. No outro lado da rua tem Toten’s e pizza deliciosa. E um enorme edifício em construção. Uma antiga casa na esquina com a Blumenau foi reformada e virou um belo pub – será que dá pra entrar e tomar um mercedinho?
Naquele distante janeiro de 1979, levei cerca de meia hora pra percorrer as quadras seguintes, da Blumenau até a Marquês. Nenhum prédio, só casas antigas e seus belos jardins e um ou outro estabelecimento comercial. Entre eles o Mercado Boehm, com entrada pela rua Jaraguá. Parei ali e comprei um litro de caninha de Pirabeiraba e um saquinho de butiás pra curtir. Hoje, a edificação azul está à venda, resta a lembrança do primeiro supermercado a abrir aos domingos em Joinville. A viúva do Getúlio continua morando lá.
Ao chegar em frente ao Ginásio Ivan Rodrigues, perguntei a um passante se a Marquês de Olinda ainda estava longe. “Capaz! É loguinho ali na frente.” Ufa!
Nosso velho ginásio de esportes permanece, outro fantasma aguardando… O quê? Restauração? Demolição? No outro lado da rua, não verei mais a fileira de ipês amarelos que coloria a fachada da Impressora Ipiranga. A revenda de carros precisou de espaço. Pena, eu curtia a caminhada, em setembro, sob e sobre a camada de flores (Joinville ainda te agradece de coração, Eli Francisco).
Hoje há prédios ao longo da Max, uma grande padaria/confeitaria/cafeteria, as quadras de tênis do Hoppe, lotérica, parque etílico-gastronômico, as ambulâncias do Samu… Algumas coisas permanecem desde aquele verão de 79, como a residência onde a dona recheia a pitangueira com outras frutas, atraindo a passarada. O já citado ginásio de esportes. E a subestação da Celesc.
Aleluia! Cheguei na Marquês. Lá em 79, ao lado da Celesc não havia construções. No lado direito, algumas casas que ainda resistem: os Jahn já não estão mais; frau Schramm continua. Seu Freitag abriu e asfaltou a Marquês. A Akros virou Amanco e construiu o depósito/expedição, a casa dos meus primos não existe mais, tem pet shop/veterinária e dois grandes terrenos vazios, que enxergo da janela. Pois é, há vinte anos moro aqui, bem no trevo da Benjamin com a Marquês.
Às vezes ainda consigo retirar das gavetas da memória algumas imagens da velha Max Colin. São belas fotos…

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Dumont vai à Lua

É certo que o mineiro Alberto Santos Dumont voou alto e longe, mas nada além da torre Eiffel. Só traço o paralelo com nosso satélite natural devida a uma coincidência de datas: Dumont nasceu, na então localidade de Palmira (rebatizada com o nome do inventor), no dia 20 de julho de 1873; exatos 96 anos depois, no 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Buzz Aldrin chegavam ao ponto mais distante alcançado pelo ser humano, a Lua.
Aliás, dizqui os norte-americanos emputeceram-se ao saber da coincidência, alardeada por uns mineirinhos que viviam em Houston na época. Os ianques, claro, prefeririam ter agendado a primeira alunissagem para os dias 16 de abril ou 30 de maio, aniversários, respectivamente, dos manos Wilbur e Orville Wright, considerados – por eles – os verdadeiros inventores do avião. Só que descer na Lua não é só uma questão de agenda; há toda uma logística e milhares de cálculos envolvidos na tarefa.
Bem, aforante os dizqui-dizqui, o fato é que pra nós, brazucas, ficou fácil memorizar as efemérides. Quem desconhece a data de nascimento de Santos Dumont, associa à conquista da lua; e vice-versa.
Ah, mais uma informação relevante: Dumont morreu três dias após comemorar 59 anos de idade. Estava internado num hospital no Guarujá, litoral paulista, com a saúde bem débil.
Conheci Santos Dumont de duas formas. Primeiro, nas aulas de História nos primeiros anos do primário, no Educandário Santa Teresinha, em Rio Negrinho. As irmãs-professoras nem citavam os irmãos Wright, pois nosso conterrâneo era o inventor do avião, o pai da aviação, e ponto final. Só no ginásio o professor Kormann nos informou da polêmica. Segundo, na nota de 10.000 cruzeiros. Ter um “dumont” nos idos anos 60 era sinal de riqueza, quase como ter uma “garoupa” nos atuais dias de real. Eu acho que nunca fui dono de uma dessas, que só via no dia 10 de cada mês, quando meu pai, meu avô e meus tios recebiam o pagamento na Móveis Cimo; o salário vinha em grana viva, dentro do envelope hoje chamado holerite. Eu ganhava às vezes um “cabral”, que a nota de 100 cruzeiros estampava. Quando a inflação começou a corroer o dinheiro, as novas notas e as reformas monetárias gastaram quase toda a galeria de heróis da História do Brasil. No dia do meu casamento, um primo deu um “barão” por um pedaço da minha gravata. Grana preta! (depois me contaram que ele pegou troco, o unha-de-fome)
Na noite de 20 de julho de 1969 estávamos vidrados na imagem preto-e-branco, cheia de interferência, da transmissão ao vivo da missão Apolo XI. Pai e tios preferiram ir ver com os amigos, no boteco, entre uma tacada e outra. Meu diadek e eu éramos os mais atentos. Acho que esperávamos assistir a algo parecido com as aventuras da família Robinson a bordo da Júpiter II, no seriado Perdidos no Espaço. Era, então, meio frustrante ver aquela imagem desfocada e muito repetida, com as vozes dos astronautas e do pessoal de Houston ao fundo. De qualquer forma, foi emocionante ver enfim as sapatas do módulo lunar afofando o solo.

Até hoje há quem duvide da veracidade das missões à Lua. De minha parte, sempre acreditei piamente, e tinha a expectativa de um dia participar de uma delas, como cronista (mas pô! Só levavam cientistas e astronautas profissionais, nunca foi um jornalista, que eu saiba). Se pudesse ter ido, arranjaria uma nota de 10.000 cruzeiros com um colecionador e deixaria lá na Lua. Só pra mostrar quem é o pai da aviação!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

No ar, Ademir Ramiro!

Há mais de 50 anos, um ex-quebrador de pedras, ajudante de tintureiro e plantador de banana trocava instrumentos rudes por um mais sofisticado: o microfone de uma emissora de rádio. Assim começava a carreira de Ademir Ramiro, pseudônimo artístico de Ramiro Gregório da Silva, um dos principais nomes da radiodifusão em Santa Catarina.


“Muita gente acha que nasci em Jaraguá, mas meu local de nascimento, há 75 anos, foi Pomerode, quando a localidade pertencia ao município de Blumenau”, conta Ramiro, admitindo hoje ser um joinvilense de coração.
Criado na roça, teve pouca oportunidade de estudo: “Se hoje Pomerode ainda é uma cidade pequena, imagine em 1935. Um dia chegou lá em casa uma professora, pedindo um cantinho para morar. Meus pais cederam um aposento, e ela começou a me alfabetizar. Foi ali que aprendi o básico, a juntar letras, fazer contas”.
Mas nem deu tempo de seguir o processo de alfabetização, pois a família se mudou para Massaranduba quando Ramiro tinha apenas 7 anos. “Meu pai foi trabalhar na colheita de arroz, mas aquilo também não dava o suficiente para sustentar a família, mesmo eu sendo filho único.”
A solução foi mudar-se novamente, agora para Jaraguá do Sul. “Ali ficamos muitos anos, tanto que hoje há quem pense que eu nasci em Jaraguá”, diz Ramiro, que acabou conseguindo vaga num dos melhores colégios da cidade, graças à fibra dos pais. “Meus pais foram contratados pelo colégio dos maristas, o São Luís, para trabalhar como zeladores. Em troca, ganharam um cantinho para morar e eu consegui um lugar na sala de aula, lá no fundo, sem uniforme. Como minha mãe trabalhava na horta do colégio, eu podia comer no refeitório dos semi-internos, mas só depois que todos os outros terminassem.”
Sempre atento e esforçado, Ramiro logo começou a se destacar e concluiu o primário (as quatro primeiras séries do atual ensino fundamental).
Aos 14 anos, era hora de procurar trabalho para ajudar no orçamento doméstico. Depois de ser quebrador de pedra para fazer paralelepípedos, jornaleiro, vendedor de peixe, auxiliar de tintureiro (o pai abrira uma tinturaria) e plantador de banana, Ramiro tirou a “carteira de menor”, um documento que permitia a menores de idade trabalhar com registro. “Fui trabalhar na Farmácia Schulz, como auxiliar, aprendi a manipular remédios, depois ajudei na construção do novo prédio do Colégio São Luís e consegui um emprego na fábrica de calçados Gosh, uma das maiores do estado na época.” Na Gosh, Ramiro começou montando chinelos e, sempre curioso e interessado, aprendeu a montar sapatos.

Fora de casa

Por conta de um namoro não aceito pela família, Ramiro foi morar em Curitiba, com uma irmã mais velha, do primeiro casamento do pai. E surgiu o rádio na vida do jovem. “Fui trabalhar no escritório de uma fábrica de cimento e numa importadora. Nos finais de semana, a diversão era assistir aos programas de auditório das rádios Guairacá e Clube Paranaense, a B2.”
De tanto ir aos programas, Ramiro encasquetou que iria ser cantor. As tentativas foram um desastre total. Mas renderam uma nova carreira: “Num dos fracassos, um profissional da Guairacá sugeriu que eu tentasse a carreira de locutor, pois tinha uma boa voz”. A partir dali, os empregos formais ganharam a companhia de outro, de fim de semana, como locutor de comerciais nos intervalos dos programas de auditório. Pela primeira vez, a voz de Ramiro ia ao ar.
Corria o ano de 1952, e Ramiro tinha certeza que encontrara seu caminho. O desafio, agora, era voltar a Jaraguá do Sul, pois a capital paranaense não o atraía. “Só me chamavam de ‘catarina’ por lá. Encheu o saco!”
Decidido, Ramiro escreveu para a Rádio Jaraguá, teve resposta afirmativa e voltou para casa. Foi recebido como celebridade, pois era ‘aquele locutor que vem de Curitiba’. Até admitir que sua experiência era mínima e de celebridade não tinha nada. “No início, pastei muito, pois o diretor da rádio só me largava os pepinos. Afinal, eu era só o ‘filho do Zé Gregório’.” Novamente, o esforço rendeu frutos. Ramiro começou a cobrir as ausências dos colegas entretidos em conversas no boteco, organizou a discoteca, se interessou em aprender os macetes técnicos da rádio e ganhou o mais necessário: respeito. Junto, a apresentação de um programa de dedicatórias musicais (que na época eram pagas).

Para o Vale do Itajaí

Na estação ferroviária de Jaraguá, enquanto se juntava a tanta gente que ia ver a chegada do trem, Ramiro acabou recebendo mais um convite. “Um radialista que eu conhecia disse que estavam em busca de alguém para tocar uma nova rádio em Indaial.” Convencido, lá foi Ramiro para o Vale do Itajaí. Entrou numa fria, pois o tal radialista já deixara uma fama de picareta por aquelas bandas.
Mesmo assim, Ramiro ficou, trabalhou duro na instalação da Rádio Clube de Indaial, depois foi para a sede da emissora em Blumenau, levantou a Rádio Sentinela do Vale de Gaspar e trabalhou na Araguaia de Brusque, todas da Coligadas, que também tinha uma televisão em Blumenau.
Ali, nas cidades do Vale, Ramiro Gregório da Silva começou a inscrever seu nome na história da radiodifusão catarinense. A boa voz, a comunicação fácil e bom texto se aliaram aos conhecimentos técnicos, que lhe permitiam projetar e comprar os melhores equipamentos. “Só não levantei antenas, mas aprendi a fazer isoladores muito bons”, garante.

A vez de Joinville

A fama de Ramiro Gregório da Silva, ou “Ademir Ramiro”, nome artístico que adotara ainda em Jaraguá, para não ser chamado de “filho do Zé Gregório”, começava a se espalhar. Por isso, certo dia apareceu no estúdio da Araguaia, em Brusque, o radialista joinvilense Jota Gonçalves, diretor da Rádio Difusora, que fora cobrir um jogo. “O Jota me lançou um desafio respeitável: montar uma nova rádio em Joinville. Mas deveria ser uma emissora diferente, a começar pelo nome, Cultura.”
Mais uma vez, o “filho do Zé Gregório” topou a parada. A essa altura já casado com Lola, uma guaramirense que conheceu em Jaraguá, Ramiro foi morar nos fundos de onde seria a Rádio Cultura, na rua Itajaí. Neste momento da entrevista, a própria Lola, sempre por perto, enriquece o relato: “Bem no começo, quando o Ramiro estava na locução, eu ajudava na operação. E vice-versa”.
Resumindo, Ramiro tirou a Rádio Cultura de um projeto no papel, transformando-a numa das mais importantes emissoras do estado. “Utilizamos muitos equipamentos doados pela Difusora, algumas lojas também ajudavam. Mas conseguimos colocar a rádio no ar.” O resultado já é conhecido do público de Joinville e cidades da região.

Chega de rádio!

Qual o motivo desse intertítulo aí em cima? “Em 1961, aceitei um convite da Fundição Tupy para trabalhar como vendedor em São Paulo. Decidi largar o rádio e me dedicar à nova carreira.” Foram três anos morando em São Paulo e vendendo as conexões da Tupy.
Mas...
Na capital paulista, Ramiro associou-se a um clube formado por catarinenses, e ficou encarregado da divulgação das atividades da entidade. Uma das tarefas era distribuir notícias, nos finais de semana, nos jornais e rádios da cidade. A história se repete. “Rapaz, você tem voz boa para rádio. Não quer fazer um teste?” Isso foi na Rádio Nacional. E lá foi Ramiro de volta para o ninho, trabalhando durante o dia na Tupy e à noite na rádio. Lá também aprendeu a redigir documentários para a televisão e o cinema. “Como eu tinha nome e pseudônimo, ganhava cachê duplo”, conta, entre risos.

Meu negócio é rádio

Em 1964, a Tupy perdia um vendedor esforçado, mas o rádio catarinense ganhava um dos seus grandes nomes. Ramiro Gregório da Silva deixava de lado o “Ademir Ramiro” e retornava a Joinville, para assumir a direção e cotas de sócio na Rádio Cultura. “Ali fiquei 21 anos, os melhores de minha vida. Consegui trazer muitos profissionais gabaritados, descobrimos talentos locais, fizemos uma rádio de qualidade.”
Da época da Cultura, Ramiro começa a lembrar nomes destes talentos. Mas logo pede para não citar na reportagem, receoso de esquecer algum. E tem motivo para não desafiar a memória: “Há alguns anos, nossa casa em Barra Velha foi assaltada por dois homens, provavelmente drogados. Eles nos agrediram, foram muito violentos, aquilo foi traumático. O episódio deixou falhas na memória”. Hoje, Ramiro não tem mais a casa na praia, ocupa um confortável apartamento no centro da cidade e curte a aposentadoria.
Antes de chegar a esse estágio, porém, teve anos profícuos de trabalho, seja em rádios, como Difusora, Colon, Floresta Negra (hoje Mais FM), Udesc e Aquarela de Barra Velha, seja como dono de uma agência de propaganda ou como mestre de cerimônias da Acij (onde ficou trinta anos). Também atuou na vida pública, como secretário de Turismo de Joinville e de Barra Velha, e como vereador. Atuante na profissão, também foi um defensor dos interesses da classe, tendo ocupado a presidência da Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão – Acaert – no período 1983-84. Hoje, ainda acompanha a evolução da radiodifusão, como conselheiro da entidade. Outra de suas paixões, o turismo, o levou a ser associado e conselheiro da Associação Brasileira de Jornalistas Especializados em Turismo, a Abrajet, pela qual viajou pelo país inteiro. Organizador de feiras, montou a Famosc, Feira de Amostras de Santa Catarina, que se transformou na Expoville, e trabalhou na Alemanha e no Chile montando eventos.
No apartamento que ocupa com Lola e a filha Marlise, Ramiro tem uma ampla vista da cidade, inclusive para o Centreventos Cau Hansen, onde trabalhou até o fim da gestão Tebaldi, na assessoria de imprensa da Fundação Cultural. A outra filha, Lucienne, deu ao casal os netos João Guilherme e João Gabriel.
A mesa de centro na sala é pequena para acomodar tantos troféus, medalhas, placas e diplomas ganhos por Ramiro durante sua carreira. Da Ordem da Machadinha dos bombeiros de Joinville até a comenda concedida pela Sociedade Nacional do Mérito Cívico, que diz, no diploma: “...pelos dotes de civismo, mérito de honra e dignidade e alto espírito filantrópico, que adornam a sua personalidade”.



(box)

Jingle vira hino

O amor de Ramiro Gregório da Silva por Joinville transparece em seu modo de ser e de olhar para a cidade. Uma das provas desta devoção está no próprio hino, composto pelo músico Cláudio Alvim “Zininho” Barbosa, de Florianópolis. “Na época, início dos anos 70, precisávamos de uma música para a Festa das Flores. Aí, junto com o Ildo Campelo, contratamos o Zininho. Eu fiz o esboço da letra, Zininho fez as devidas adaptações para que coubesse em sua melodia, e surgiu a música. Mas ela foi tão tocada nos anos seguintes, que se tornou um hino informal, já que a cidade não tinha um oficial.”
Como logo em seguida surgiu o JEC, a torcida também adotou o tal jingle. Em 1977, enfim, o então prefeito Luiz Henrique da Silveira decretou que aquele seria o hino oficial de Joinville. Ramiro lembra que o mesmo se deu em Florianópolis: “Zininho compôs o ‘Rancho de Amor à Ilha’ como uma homenagem. Virou hino oficial da capital”.



Com a palavra

“Conheci Ramiro há mais de trinta anos, quando ele comandava a Rádio Cultura. Na época, como presidente da Boa Vista Seguros, lançamos um programa que marcou época, dedicado a evidenciar os líderes de Joinville e região. Ramiro é um profissional entusiasta, sério e competente, com credenciais fortes em favor da comunidade joinvilense, conhecedor de tudo a respeito da região. Convivi com ele e testemunhei seus conhecimentos e seu entusiasmo pela radiodifusão. É um grande comunicador e líder de classe. Cidadãos como Ramiro engrandecem a radiodifusão catarinense. Joinville está de parabéns por contar com um gentleman como Ramiro.”
Mário Petrelli, diretor presidente da RIC Record Santa Catarina

“Ramiro sempre foi entusiasmado por tudo que envolva o rádio. Ele foi o responsável pela qualidade do som da Rádio Cultura, e muitas coisas que ele instalou ainda utilizamos.”
João Samuel de Oliveira, o Samuca, operador e apresentador na Cultura

“Nasci radialista, estava no sangue, mas meu pai não queria que eu seguisse a profissão. Só depois que ele conheceu o Ramiro, permitiu que eu continuasse, pois ele viu neste profissional, assim como todos que o conhecem, um exemplo de caráter e competência.”
Osman Lincoln, radialista e produtor

“Ramiro é uma raridade, admirável pela sua dedicação à radiofonia e às amizades, como a minha, de mais de cinquenta anos.”
Carlos Adauto Vieira, advogado, escritor e jornalista


(Matéria publicada em maio/2010 no jornal Notícias do Dia)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O quente julho frio

Julho chega sábado da semana que vem. Não é o primo Júlio. Esse é com lh. É a marca do segundo semestre, segunda metade do ano. O mês sete do calendário sempre traz uma simbologia interessante. À medida que o tempo passa, os símbolos aumentam. Quando eu era criança, julho era época de férias escolares, um mês inteiro (hoje são apenas duas semanas) para brincar à vontade, ficar mais tempo na cama e se preparar para o segundo semestre.
O frio é sempre uma marca deste mês, em qualquer época e lugar (no hemisfério Sul, bem entendido). Era bem mais frio na minha infância; afinal, eu morava em Rio Negrinho. Até neve peguei por lá. E julho sempre foi o mês mais rigoroso. Sábia natureza: castigava mais com o frio bem na época em que não precisávamos levantar cedo para ir à aula. Mesmo assim, com aquele sol –raramente chovia em julho – quem iria ficar na cama? Correr pro campinho era a melhor opção. O dia só não terminava com o banho de rio por motivos óbvios. Era em casa, na bacia, banho tipo feijoada: só orelhas, pés e rabo.
Há alguns anos, julho significava férias apenas para os filhos em idade escolar. Eles já se formaram, estão trabalhando. Tive minha regressão quando fiz a faculdade. Entrei no curso de Jornalismo do Ielusc já além dos quarenta. E confesso: eu aguardava julho com mais ansiedade do que na infância. A criança, afinal, só tem responsabilidade com o colégio; o adulto vai para a aula depois de um dia dedicado ao trabalho. O cansaço pega.
Em Santa Catarina, julho tem outro símbolo especial, especialmente para quem mora em Joinville. É o Festival de Dança. Há 34 anos o mês mais rigoroso do inverno é também o mais colorido na cidade. Dentro de uns trinta dias a movimentação vai aumentar, a expectativa vai crescer, os passos alegres e nervosos vão tomar as ruas.
Não há frio que diminua o ânimo de quem participa do Festival. O calor corre por dentro daqueles jovens que enfrentam a baixa temperatura com o coração aquecido. Lembro de outros festivais em que os mais pesados agasalhos ainda eram pouco para encarar o frio congelante de julho. Mesmo assim, no palco, os bailarinos encaravam tudo com figurinos ousados, trajes curtíssimos, às vezes apenas um short ou uma sainha. Para eles, o frio não assusta. O calor vem de várias fontes: das luzes, do público, da vontade de mostrar o máximo. Especialmente desta última fonte: de dentro, lá do fundo da alma.

Uma parte de julho já está por aí. O frio veio, mesmo que ainda não com a mesma intensidade de outras épocas. As férias escolares chegam dentro de uns vinte dias. E já na sequência as ruas são tomadas pelos bailarinos e visitantes que vêm assistir ao Festival. Este julho promete!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Basília, a volúvel

No princípio, a índia morena era Jaci ou Yacy. Lua, traduziu seu primeiro admirador, Pedro, que a conheceu no apagar das luzes do século XV. Namorado, pra valer, sem contar os pretendentes da tribo, foi João, seguido dos herdeiros, mais dois Pedros. Trataram-na bem, era amada, cuidada, paparicada. Ao atravessar o oceano, João quis levá-la; o filho Pedro, porém, já enamorado, rompeu com o pai e a manteve por perto. Já a chamava Basília.
Bebedora da água da fonte da juventude, Basília parecia não envelhecer. Os admiradores, por seu turno, definhavam e morriam. Lá pelo final do século XIX um deles, Deodoro, decidiu com ela se casar, de modo oficial. Nem lhe perguntou se era seu desejo; tão somente desembainhou a espada e oficializou a união. Basília, amargurada, viu-se separada da coroa que Pedro lhe dera alguns anos antes, e pela qual se afeiçoara. Aliás, cumpre acrescentar: Pedro fora o primeiro, montado em seu cavalo, a sacar a espada e brandi-la para o alto, jurando amor eterno a Basília.
Eterna, porém, só Yacy. Seus homens passavam. Tinham-na como volúvel, apaixonava-se e desapaixonava-se rapidamente. A beleza ímpar nunca a deixava sozinha. Deodoro, doente, entregou-a a Floriano. Homem de maus bofes, maltratou a morena. Seguiam-se os namorados, noivos, maridos... Alguns bons, compreensivos, tudo faziam pela felicidade de Basília. Ela guardou no coração, dos trinta maridos, nomes como Hermes, Epitácio, Eurico e Juscelino. Prudente poderia integrar a lista, mas manchou a ficha com muita violência. Getúlio passou duas vezes em sua vida, fez bastante por ela, mas era um enigma ambulante. Matou-se, dizem uns, por ela; por nada, garantem outros. Basília nunca soube ao certo. Lá no íntimo, acha que Getúlio tirou a vida por ele mesmo.
Dos que a trataram mal, sente amargor ao se recordar do bom e confuso Jânio, cujo humor variava na proporção em que as garrafas se esvaziavam. As fardas voltaram à casa de Basília num dia da mentira em 1964, quando Humberto a desposou à força. Seguiram-se duas décadas ambíguas: prosperidade doméstica mas muita tirania com Arthur, Emílio, o bom Ernesto e o irascível João, mais preocupado com os estábulos onde aconchegava seus cavalos (a espada, contudo, era agora nada mais que um adorno da farda).
O coração de Basília alegrou-se quando, saindo pelos fundos, João deixou o caminho livre para Tancredo. Enfim, alguém para amar e ser correspondida. Mas, oh infortúnio... Nem chegaram a trocar um beijinho, eis que Tancredo sucumbe a uma doença. No enterro, as lágrimas de Basília encharcam o lenço emprestado por José, que se aboleta em sua casa. Imprevidente, José abala a estrutura familiar, provocando a ruína financeira. Chega a sugerir que Basília se prostitua!
- Volúvel sim, devassa nunca! – protesta a morena, que se endivida ainda mais buscando recursos até junto a agiotas internacionais. A prole, a essa altura imensa, vive em dificuldade, mal conseguindo o suficiente para levar comida à mesa.
Ao anunciar iminente partida, José abre a porta para uma quantidade nunca vista antes de pretendentes. Ali estão o ponderado Ulysses, o esperto Paulo, o botinudo Ronaldo, o rico Guilherme e até o sintético Enéas, médico consagrado mas com jeito de tirano. De todos, restam dois: o trabalhador Luiz e o jovem Fernando. Cortejam Basília com promessas mirabolantes. No final, Fernando joga sujo e ilude os filhos de Basília, vencendo a disputa pela mão da morena. Mas qual... Assim que toma posse dos bens da bela, começa a dilapidá-los. Pior: sob fortíssima suspeita de desviar parte das economias para si e seus apaniguados. Basília já havia passado por agruras antes, mas nunca com algum companheiro suspeito de roubá-la. Se bem que... Será que José de fato perdeu dinheiro em aplicações desastrosas? Ambas as orelhas de Basília passaram a dar coceira, repassando os relacionamentos de tantos anos.
Enfim, de qualquer forma os filhos da índia tomaram uma atitude drástica e expulsaram o vil Fernando. Convidaram o estranho Itamar para assumir a casa. Com fama de honesto, ainda que meio destrambelhado, Itamar de fato cumpriu a missão. Ciente de suas limitações, convidou amigos competentes para ajudar na tarefa. Entre eles estava outro Fernando, muito bom com finanças. Acabou ficando, pois Itamar deixara claro que sua passagem pela casa era temporária.
Basília viveu oito felizes anos com Fernando, recuperou as finanças da casa, os filhos voltaram a sorrir. Ela apenas tinha dificuldade em acompanhar o raciocínio do companheiro, às vezes intelectual demais.
Porém, desde aquela primeira grande contenda na sucessão de José, um dos rivais não saía do pensamento de Basília e de seus filhos: Luiz, o trabalhador. Ele, por seu turno, também ansiava em dividir a cama com a morena índia. Conseguiu, enfim, quando Fernando decidiu sair – não nos esqueçamos de que os homens envelhecem normalmente, enquanto Basília mantém a jovialidade.
Com Luiz a prosperidade continuou, até porque Fernando deixara a casa em ordem. Luiz acrescentou algumas melhorias, e os filhos de Basília gostaram. Mas havia alguma coisa errada. Comerciantes começaram a bater à porta, cobrando dívidas desconhecidas da contabilidade doméstica. O que estava acontecendo? – perguntavam-se os filhos. Investigaram, descobriram algumas falcatruas do padrasto, mas ele sempre escapava por falta de provas.
Passados oito anos, Luiz saiu. Mas não permitiu que pretendentes assumissem seu lugar. Havia outro José, havia Geraldo, havia mais uma penca de candidatos. Luiz, porém, foi esperto, e colocou dentro da casa uma governanta, dona Vana. Seu plano era simples: manter o lugar até que ele mesmo decidisse voltar. Aos poucos, os filhos foram percebendo que mais uma vez as finanças da casa se arruinavam. O poço nos fundos do terreno, que fornecia uma água puríssima, secava rapidamente. Denúncias se avolumavam, mais e mais mercadores faziam fila no portão, cobrando.
Os filhos enxotaram dona Vana. Chamaram um “marido estepe”, Miguel Elias, para dar um jeito. O problema é que, pelos dias atuais, Miguel Elias mal tem tempo de dar atenção ao saneamento doméstico, pois também ele se vê às voltas com dedos acusadores.
Lá na rua começa nova fila de pretendentes. E nela está novamente Luiz, o trabalhador. Está um certo Jair, com promessas mirabolantes. Os filhos tremem de receio. Basília, coitada, sofre, por enquanto em silêncio.

E ainda a chamam de volúvel...

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Da voz gutural à sintética

No princípio era a desinformação. E fez-se a comunicação.
Traço esse paralelo com o Gênesis para falar de um tema básico em minha vida – e também, por que não? de todo mundo –: a Imprensa. A voz gutural citada no título dessa crônica é a do nosso ancestral Homo Sapiens chegando quase sem fôlego à aldeia, onde anuncia aos berros:
- Mug ng uga tut!
Tradução:
- Abatemos um mamute!
Dada a notícia, forma-se a expedição de resgate. Em vista da dificuldade de transportar a enorme caça até a aldeia – a roda será inventada mais tarde –, a operação de descarne e limpeza é feita no local do abate. Imagino um mutirão semelhante ao que minha família fazia quando abatíamos um porco, separando as partes. O que eu mais gostava era ir com minha Babka até a beira do rio, para a limpeza das vísceras; a peixarada fazia uma festa!
O grito do mensageiro pode ser considerado como a alvorada da Imprensa. Ele era como um repórter. O berro inicial “...mug ng uga tut!” seria o título da matéria. No caminho até o ponto de abate, o “texto” era composto na forma do relato oral, detalhando a caçada (o leitor que já assistiu ao filme “10 000 aC” sabe como era). As “fotos” da reportagem eram ao vivo, a cena do mamute abatido e dos caçadores iniciando o desmonte do bicho.
A comunicação oral prosseguiu por muitos séculos, até que os chineses criaram as primeiras formas de reprodução. Está na enciclopédia: o mais antigo livro conhecido é uma xilogravura (gravura em madeira) chinesa, o Sutra Diamante, datada de 868 dC. Além da madeira, utilizaram-se o papiro, a seda e o pergaminho. Só que a distribuição, nos primórdios, continuava no grito: o arauto postava-se num local de grande frequência de público e lia as notícias. Imagine a manchete:
- Horda de bárbaros está a dez milhas da cidade!
Nem o arauto ficaria pra ler o resto da matéria...
A invenção da tipografia, em 1438, pelo alemão Johan Gutenberg, foi o primeiro grande salto tecnológico para a comunicação. Aliás, aqui destaco um deslize dos livros de História do meu tempo de escola, onde se lia que “...Gutenberg inventou a imprensa”. Ele, na verdade, desenvolveu um sistema de “prensa”, depois utilizado pela Imprensa. Tendo à mão uma forma facilitada de reprodução, cabia aos empresários do ramo aperfeiçoar a distribuição. “Ah, capitalistas de bosta! Desempregaram os arautos...” xingará o proletário leitor. Mas não, ao contrário: arautos viraram jornaleiros, levando a informação o mais longe possível.
Vejam só quanto tempo durou essa fase da Imprensa tipográfica. Quando iniciei minha carreira no jornalismo, no já distante abril de 1979, o sistema de impressão ainda era aquele criado por Gutenberg, com as devidas adaptações. Na salinha da Revisão do jornal A Notícia, ainda na velha sede da rua Abdon Batista, ficávamos ao lado da oficina onde o chumbo era derretido. Mansur, Pardal, Zé, Laus... Velhos e bons companheiros de labuta. No fim do expediente, meio da tarde ou início da madrugada, dependendo da escala, saíamos impregnados de chumbo até nas cuecas. Eu gostava muito, na época, de ficar na grande oficina esperando as provas pra revisar. Aprendi muito ali, vendo aqueles profissionais copiando os textos nas linotipos, montando as páginas nas ramas e rezando para que a impressora não estivesse com TPM.
Participei, no caso de AN, da transição do chumbo para o offset. Meu! Que diferença! Saía o ar carregado de chumbo e entrava a assepsia das moderninhas máquinas de fotocomposição. E a impressora... Em vez de duas passadas de quatro páginas, um caderno de oito já saía encartado. Aquele avanço nos possibilitou entregar o jornal em São Miguel do Oeste “vormittags”, ou antes do meio-dia.
Quando veio a evolução seguinte, para a Redação informatizada, já estava eu no segmento da comunicação empresarial ou corporativa. Ao encerrarmos, em 1991, as atividades da Matriz de Comunicação, ainda batíamos os dedos no teclado das fiéis Olivetti Letera 32 (a melhor máquina de escrever que já usei). No alvorecer da EDM Logos, em janeiro de 1992, toda a Redação utilizava moderníssimos computadores 186, de onde os textos iam, em disquetes Verbatim, para os 286 do estúdio (a diagramação precisava de equipamento mais potente). Não me lembro do ano em que A Notícia se informatizou, mas foi por ali também.

Surgiu o termo “Tecnologia da Informação”, e a evolução tornou-se rápida. Até demais para o gosto de alguns – entre os quais me incluo, pois ainda sou aficionado pela leitura do jornal impresso, manuseando as páginas e sujando os dedos de tinta. Hoje a Imprensa é instantânea. No tempo gasto pelo nosso ancestral, correndo do local da caça até a aldeia, um jornal digital é entregue na caixa de entrada do seu smartphone. O grito gutural do peludo caçador de mamutes é substituído pela voz sintética do minúsculo computador, dando a manchete: “Lula conta tudo!”.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Dinamismo na veia!

Ocupar cada momento do dia da melhor maneira possível, direcionando a maior carga de esforço ao trabalho, mas sem perder de vista a qualidade de vida, que passa pela disposição física e o aconchego da família. Uma receita simples, aplicável por qualquer ser humano, mas que ganha uma pitada extra de dinamismo quando se trata de Ingo Doubrawa.
Principal executivo da Docol Metais Sanitários, onde está desde 1969, Ingo é um profundo conhecedor do negócio, tanto administrando a empresa, quanto percorrendo a fábrica em busca do aperfeiçoamento de processos. Conhece cada linha de produtos detalhadamente, discorre tecnicamente com qualquer engenheiro ou operador de produção e demonstra o tempo todo o orgulho de fazer parte de uma equipe. “Este perfil, na verdade, envolve mais de mil pessoas”, diz, referindo-se a todos que fazem parte do quadro da empresa.
Mesmo com toda a responsabilidade diária à frente de uma organização líder de mercado, Ingo não se descuida da saúde e da proximidade com a família. Caminha todos os dias pela cidade, pontualmente às 6 e meia da manhã, sempre acompanhado da esposa Claudete. Ultimamente, admite, o hábito tem sido prejudicado. E a culpa, ironicamente, é do excesso de água, justamente o insumo em torno do qual gira a Docol. “Todos sabemos que uma das características de Joinville é a chuva, mas nos últimos tempos tem sido um exagero”, brinca.
Brincar é outra atividade à qual Ingo dedica boa parte do tempo. Sempre envolvendo o único neto, Guilherme, de 1 ano e meio. “Sou vovô coruja mesmo, e tenho muito orgulho do meu neto.”

Nadando no rio

Nascido em Joinville em 1942, Ingo Doubrawa dividiu sua infância entre a cidade natal e Jaraguá do Sul, de onde sua família é originária. “Meu pai trouxe a família para Joinville por causa da empresa, mas nunca cortou os laços com Jaraguá. Meu avô tinha um pequeno comércio, e eu sempre ia passar as férias lá. Tomei muito banho no rio Itapocu, numa época em que a cidade era pequena e sossegada”, lembra, já anexando mais um elo que o liga à água.
“As idas a Jaraguá, de trem ou de ônibus, eram verdadeiras viagens. Tenho boas lembranças da cidade, especialmente da chácara de um dos meus tios, onde tínhamos contato com a natureza.”
A origem dos Doubrawa remonta à Tchecoslováquia (hoje República Tcheca). O bisavô de Ingo deixou a cidade de Brno (pronuncia-se “Brenô”), por volta de 1870, vindo a se estabelecer em Joinville, onde se empregou na Comércio e Indústria Germano Stein, uma das primeiras empresas da cidade. Algum tempo depois, com a abertura de uma filial em Jaraguá do Sul, a família se transferiu para lá, onde hoje o sobrenome Doubrawa é bastante comum.
Em 1956, em Jaraguá do Sul, nascia a Docol, nome que fundia os sobrenomes Doubrawa e Colin, dos fundadores Amandus Colin, Egon e Edmundo Doubrawa (pai de Ingo). Dois anos depois, os empreendedores resolveram transferir a empresa para o centro de Joinville, fabricando artigos dentários, válvulas de sucção, ponteiras, torneiras e registros.
O começo da história, conta Ingo, envolve dentaduras. Seu pai trabalhava no Laboratório Catarinense, que estava encontrando dificuldades em importar os moldes de dentaduras. Ele pediu aos tios, que eram torneiros mecânicos em Jaraguá, que produzissem alguns tornos para fabricar os moldes. O resultado, conta Ingo, foi o melhor possível. “Aí – continua – meus tios começaram a matutar: já que estamos fazendo esses tornos, poderíamos usinar algumas torneirinhas, uns chuveirinhos... Daí partiram para as válvulas de sucção, que foram durante muito tempo o principal produto da Docol.”

O emprego que não existiu

A carreira estudantil de Ingo Doubrawa foi passada no Colégio Bom Jesus, do primário (atual ensino básico) ao científico (ensino médio). “Na época, ao terminar o ginásio o estudante optava entre o científico e o técnico contábil, dependendo do rumo que pretendesse seguir. Achei melhor fazer os dois, por influência do meu pai. Ele achava que eu deveria seguir alguma carreira na área de engenharia, mas também me cobrava conhecimentos sobre contabilidade e administração”, relata Ingo, já demonstrando na juventude o dinamismo que o acompanharia durante a vida.
Veio então a faculdade de Engenharia Química na Universidade Federal do Paraná. Aluno aplicado, passou logo no primeiro vestibular e se instalou numa república de estudantes em Curitiba, onde ficou até se formar, em 1964. Um dos colegas de apartamento era o também joinvilense Ivo Jacob, hoje médico. “Eu vinha a Joinville duas vezes por mês, numa viagem que chegava a durar três horas, por uma estrada sem asfalto. E ainda tinha aquela parada obrigatória na subida da serra, em Garuva, para um lanche.”
Formado, assumiu o lugar reservado na Docol? Seria algo até natural, mas o caminho foi outro. “Nunca esteve previsto que eu trabalharia na Docol. Fiz Engenharia Química justamente porque meu pai fez questão que eu fosse para o Laboratório Catarinense.” O posto de Ingo seria na fábrica de embalagens de vidro da empresa, onde se produziam os frascos de Sadol, Renascim e outras marcas famosas. Seria. O jovem recém-formado nem chegou a assinar carteira no Laboratório. No seu caminho estava a Alemanha.
Ingo conta: “Meu pai havia trazido para Joinville uma unidade da Kavo, indústria alemã fabricante de equipamentos odontológicos. No final de 1964, o presidente da empresa passou o Natal conosco. Durante um jantar, quando soube que eu iria começar no Laboratório, foi taxativo, dizendo que eu deveria primeiro fazer um estágio na Alemanha”. A decisão foi rápida e simples: “Meu pai disse ´tá bom, você vai pra Alemanha´”.
Assim, o primeiro emprego nem chegou a existir, e no dia 26 de janeiro de 1965 Ingo desembarcava em Stuttgart, onde já o aguardava a esposa do executivo da Kavo. Foi trabalhar no laboratório Behringer, hoje um dos maiores fabricantes mundiais de medicamentos. Foi morar era Biberach an der Riss, pequena cidade onde fica a sede da Kavo. O idioma não era problema, já que o alemão era o idioma da família. Os Doubrawa eram originários da região que fazia parte do antigo império austro-húngaro, que tinha o alemão como língua oficial.
“Era ainda uma época de reconstrução da Alemanha, dizimada na segunda guerra. O país precisava muito de mão de obra, e havia milhares de vagas para trabalhadores temporários, chamados convidados. Deste modo, o jovem joinvilense se viu em meio a portugueses, italianos e hindus, entre outros trabalhadores vindos de várias partes do mundo.
“Fiquei dois anos na Alemanha, trabalhando em pesquisa de medicamentos. Ainda que sofresse com o frio em torno de 20 graus abaixo de zero, foi um período de grande aprendizado”, garante Ingo. Entre os hábitos adquiridos na época, recorda com bom humor dos sagrados jantares de quinta-feira na casa dos Hoffmeister (do presidente da Kavo). “Era rígido este compromisso, eu não podia faltar de jeito nenhum. Era o momento de fazer um relatório, eles queriam saber tudo que eu inventava, se estava trabalhando direitinho, onde ia, o que fazia. Eram sempre as mesmas perguntas e as mesmas respostas.” Outro problema destes encontros semanais era o cardápio. “Não recordo exatamente o que se servia, mas sei que era sempre a mesma comida, algum prato à base de ovos mexidos. Eu não aguentava mais comer aquilo.” Alguns anos depois, numa visita à frau Hoffmeister, já viúva, na mesa ao jantar, adivinhe? “A mesma comida!”
Na cidade onde residia, Ingo tinha como aposento um porão. “Era um porão mesmo, daqueles que a gente vê nos filmes. A vantagem era que, por ser subterrâneo, ficava um pouco mais quentinho que o resto da casa.” E novamente a água desempenha um papel importante na vida de Ingo Doubrawa. “Água, naquele tempo de reconstrução, era um bem preciosíssimo e raro. Banho, só uma vez por semana, e olhe lá! Felizmente, era possível tomar banho quase todo dia na empresa. Quase, porque às vezes a fila era tão grande que a gente acabava desistindo.” Dava saudade dos banhos no rio Itapocu.
Aqueles dois anos na Alemanha também foram um verdadeiro banho cultural. Tomados os necessários cuidados, era possível visitar outras regiões e até países próximos. “O problema eram as viagens demoradas, pois as ferrovias ainda estavam em reconstrução, e as rodovias eram precárias”, lembra. Atualmente, as viagens à Europa são feitas todos os anos, até por conta dos compromissos pela Docol, sempre presente em feiras e eventos em diversos países.

Inevitável: trabalhar na Docol

Encerrado o período de aprendizagem na Alemanha, Ingo Doubrawa acabou parando onde não era previsto: foi trabalhar na Docol. “Mas não tive moleza, comecei na linha de produção, como operador.” Ali aprendeu tudo que sabe sobre o mercado da Docol e tomou consciência, acima de tudo, da necessidade de preservar a água.
A empresa, na época ainda pequena, funcionava na rua Visconde de Mauá, no América. “Não tinha um terço do que vemos hoje nesta foto”, garante Ingo, apontando para um dos pôsteres que mostram a evolução da Docol.
De ajudante de produção, Ingo foi galgando postos de comando, até assumir a presidência, em julho de 1988. A essa altura, já era casado com a joinvilense Claudete, que conhecera em algum dos muitos bailes que frequentavam. “Deve ter sido num baile no Ginástico, pois naquele tempo a principal diversão dos jovens era dançar. Ficavam os rapazes num lado do salão, as moças no outro lado. Quando se escolhia com quem dançar, precisava ser rápido, pois a concorrência era grande.”
O casal teve uma única filha, Vanessa, que há um ano e meio lhes deu o neto Guilherme. Com ele, Ingo esquece do tempo. “É um menino muito tranquilo, sempre sorridente. Pra ele não tem tempo ruim”, garante o avô. Outro dos prazeres da vida de Ingo e Claudete é passar finais de semana e as férias na sua casa em Piçarras. “Não há nada melhor do que uma boa caminhada à beira-mar para manter a forma e a saúde, além de arejar a mente”, garante.
Planos? “Continuar trabalhando, sem data definida para aposentadoria. Nossa missão, de oferecer soluções para o planeta água, exige muito esforço.” E dinamismo, virtude que parece não faltar a Ingo Doubrawa.



Ingo e a Docol

A partir de 1969, quando entrou na Docol, Ingo Doubrawa resgata muitos fatos dignos de registro, como mostra a cronologia a seguir.

1973 - Lançada a primeira válvula de descarga sem o golpe de aríete (barulho provocado pelo fechamento brusco do fluxo de água).

1976 - Desenvolvida válvula de descarga com alta performance, sendo a primeira com 10 anos de garantia.
Constituída a joint venture com a empresa alemã Georg Rost & Sohone – Dal.

1980 - Formada joint venture com a empresa argentina FV S.A., surgindo a Docol FV Ltda., que passou a fabricar metais sanitários de alto luxo.

1986 - Iniciada a transferência do parque fabril para o distrito industrial.

1991- É lançada é linha DocolMatic, composta por produtos economizadores de água.

1994 - Docol se associa à Incepa, dando origem à marca Incepa Metais.

1997 - Docol recebe a certificação da ISO 9001 pelo BRTÜV, da Alemanha, para fabricação de válvulas de descarga.

1998 - Docol Indústria e Comércio de Materiais Hidráulicos e Metais Sanitários Ltda. e Docol FV Indústria e Comércio de Metais Sanitários Ltda. se unificam, surgindo a Docol Metais Sanitários Ltda.

1999 - Docol adquiri a Incepa Metais, incorporando os produtos às linhas DocolArte.
Conquista do prêmio Master no segmento de Produtos Economizadores de Água e no de Melhor Fabricante de Metais Sanitários, ambos da Anamaco, repetindo em 2000, 2001, 2002, 2003, 2004 e 2006.

2001 - No dia 22 de março, Dia Mundial da Água, é inaugurado o Centro de Treinamento Docol, com um investimento de US$1,1 milhão.

2002 - Docol ingressa nos mercados dos Estados Unidos e Canadá com marca própria, a Docol Faucets.

2004 - Inaugurado o Centro Administrativo no parque fabril.




Com a palavra

“Tínhamos uma amizade muito grande, nossas famílias se davam bem, e passamos alguns bons anos convivendo em Curitiba, enquanto fazíamos a faculdade. A chegada do Ingo à presidência da Docol era uma coisa natural, estava previsto, pois ele é uma pessoa inteligente e dedicada. Há alguns anos até estivemos juntos visitando a cidade onde ele morou, na Alemanha.”
Ivo Jacob é médico aposentado, e dividia o apartamento com Ingo, quando ambos faziam a faculdade em Curitiba.