quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Que venha a paz de Aquário

Você aí, crédulo ou cético leitor, esotérico ou telúrico, seja o que for, se lembra da passagem de século? Essa de agora, do XX para o XXI. Pra começar, as intermináveis controvérsias em torno do fim de um século e do início de outro. Alguns anos antes eu já gastava saliva inutilmente, insistindo que o século XXI começaria no dia 1º de janeiro de 2001, e não de 2000. “Contagens de tempo começam em 1 e terminam em zero!”, argumentava, sem sucesso. Em 1999 ignorei o assunto, sabendo o que aconteceria. Na mosca! Foi só a poderosa emissora carioca de TV dar no Jornal Nacional a informação correta, para que todos enfim se convencessem de que o “réveillon do século” seria comemorado na noite de 31 de dezembro de 2000, ou à zero hora de 1º de janeiro de 2001. Mas ninguém veio me dizer “...pois é...”.
Controvérsias à parte, também não faltaram vaticínios sobre o famigerado ano 2000. Desde o científico “bug do milênio” (contornado sem maiores sobressaltos, diga-se) até os místicos “fim do mundo” e “início da Era de Aquário”. Essa última me interessava mais, pois desde criança ouvia a canção falando que “...a paz guiará os planetas”.
Agora mesmo, escrevendo, ouço o grupo The Fifth Dimension na mais icônica gravação da canção:
“When the moon is in the seventh house / And Jupiter aligns with Mars / Then peace will guide the planets / And love will steer the stars / This is the dawning of the age of Aquarius / The age of Aquarius.”
Traduzindo: “Quando a lua estiver na sétima casa / e Júpiter se alinhar com Marte / Então a paz guiará os planetas / E o amor dirigirá as estrelas / Este é o alvorecer da era de Aquário / A era de Aquário”.
Quando, afinal, vai chegar essa Era de Aquário com todas as suas benesses? Estamos cheios de guerras, corrupção, incompreensão, rancor... Pois bem, ainda falta muito, a julgar pelo que se lê. O Google dá 254 mil resultados sobre o assunto, cada um aumentando a controvérsia. Há sites gnósticos, astrológicos, jornalísticos e científicos, todos tentando descobrir se a Era de Aquário já começou, quando começa etc. etc.
Há uma corrente que situa os primeiros sinais da Era de Aquário em 1789, quando se deu a Revolução Francesa, considerada o marco inicial da Idade Contemporânea. Há quem prefira situar o fim da Era de Peixes e o início de Aquário no dia 4 de fevereiro de 1962. Nesta data houve um alinhamento de sete planetas (de Mercúrio a Urano), numa espécie de “congresso cósmico”. E há ainda os que supõem que a Era de Aquário vai começar aí pelos próximos anos, porque somente em cada 2 mil anos o Sol passa de um signo zodiacal a outro. Para esses, Jesus nasceu no ano 1 de Peixes, ou alguns anos antes, durante a Era de Áries.
Porém, os resultados que mais se repetem dizem que as datas prováveis aproximadas para entrada na Era de Aquário serão 2150, 2178 ou 2680 d.C.. E outras projeções vão confirmando o que eu temia: não verei a passagem das eras de Peixes para Aquário, pois tudo leva para o século XXVII.
Na senda mística, gosto da explicação dada pelos seguidores da filosofia Rosacruz, criada no século XV. Para eles, os momentos decisivos estão no agora. Os rosacruzes situam o início da Era de Aquário lá pelos anos 60 do século passado, mas isso não importa tanto, já que, para eles, a revelação de um impulso espiritual é ao mesmo tempo coletiva e individual; não está no passado ou no futuro, mas é uma realidade no agora. Todos os que clamam pela libertação do âmago do ser encontram sua mudança espiritual a qualquer momento.
Então, não esperemos o século XXVII. Podemos viver a Era de Aquário já!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Renda pra quem não tem emprego

Enfim, um alento para quem perde o emprego – ou o empreendimento, se for o caso. O governo decidiu criar uma renda mínima para quem está momentaneamente fora do mercado de trabalho. De início, o subsídio equivalente a 1.891 reais beneficiará cerca de 2 mil pessoas. Importante: essa renda mínima será paga independentemente do seguro-desemprego, que mantém as regras atuais. E mais: o beneficiário não será questionado e nem dele se exigirá que esteja buscando emprego.
Parece uma utopia, mas é real. Enfim, torna-se realidade a chamada “renda básica universal”, garantindo ao cidadão a sobrevivência e o sustento da família, sem precisar se submeter a bicos, empregos para os quais não é qualificado ou à suprema humilhação da mendicância. Lembro-me de ouvir falar dessa política da renda mínima há muitos anos, mas o tema sempre era tratado como algo difícil de alcançar ou um sonho socialista impossível. Ora, já cantavam Frank Sinatra e Elvis Presley, entre outros, no clássico “The Impossible Dream” (O Sonho Impossível): “Sonhar o sonho impossível / Combater o inimigo imbatível / Suportar uma dor insuportável / Ir aonde os corajosos não se atrevem ir / Corrigir o erro incorrigível / Um amor puro e distante / Tentar com os braços exaustos”. Para alcançar a estrela inalcançável (ouço a canção enquanto escrevo, primeiro com Frank, depois Elvis; difícil dizer quem capricha mais).
Vem, voltando ao tema. O governo alcançou o sonho impossível, alcançou a estrela inalcançável. A medida entra imediatamente numa fase de dois anos de testes, durante os quais se analisarão os resultados, avaliando erros e acertos e promovendo as necessárias correções. Não será perguntado ao cidadão de que forma ele vai utilizar os 1.891 reais mensais, nem será mexido no seguro-desemprego. E tem mais: o benefício continuará sendo pago, mesmo após a pessoa achar novo emprego, pois em muitos casos o salário inicial é pequeno.
Pô! Esse cronista deve ter bebido cachaça no lugar do café da manhã – direis, incrédulos leitores. Afinal, de onde ele tirou essa notícia? Não vi nada ontem no Jornal Nacional. Pois nem eu – até porque não assisto ao JN, que considero um programa de variedades, com muito show e pouco jornalismo. Respondo, então: acabo (quinta-feira, 8 e meia da manhã) de ler a matéria na edição de hoje do Estadão. Quem me conhece sabe que prefiro me manter informado lendo jornais e sites de notícias e ouvindo rádio do que me acomodando com a TV. Então, repito: li no caderno de Economia & Negócios desta quinta-feira, 5/1/17, página B7. Matéria principal da página: Finlândia adota a renda mínima.
Ah, Finlândia!
Você não estava imaginando que era no Brasil, né? Aí, o sonho se torna um bocado mais impossível, a estrela mais inalcançável, a realidade mais distante.
É isso mesmo: a Finlândia é o primeiro país do mundo a tirar do papel a ideia da renda universal mínima. De início, cerca de 2 mil finlandeses desempregados receberão 560 euros mensalmente. O principal objetivo do governo é diminuir a altíssima – para os níveis nórdicos – taxa de 8,8% de desemprego.

Sonhe, brasileiro, sonhe...

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

No ritmo da batera

Como o ND acabou-se no dia 31/12, ficou para trás um perfil já pronto. Então, até pra dar uma satisfação ao grande batera Cadu Floriani, segue aqui o perfil que não saiu no jornal.
No ritmo da batera
A cena musical joinvilense é pródiga em talentos, ainda que poucos consigam fazer da arte a única forma de sustento. Carlos Eduardo Floriani está conseguindo, à custa de muito esforço, como se comprova na boa procura por sua escola de bateria e nos convites recebidos para shows e projetos. “Eu sonhava em ser guitarrista, mas desde a primeira vez em que sentei no banquinho e empunhei baquetas, a bateria se tornou parte do corpo”, diz o músico, empolgado com os projetos para o ano que se inicia – entre eles a continuidade do Dedo de Prosa nas Escolas e a participação num festival de música no Rio de Janeiro, em meados do ano.
Nascido em Joinville em 1983, caçula de quatro irmãos, Cadu criou-se no bairro Adhemar Garcia. “Na época ainda era só um conjunto habitacional, com as casas todas iguais. Cresceu tanto que virou bairro.” Após concluir o ensino fundamental no colégio Paulo Medeiros, fez o ensino médio no Celso Ramos.
Mesmo sem nenhuma raiz musical na família, Cadu sonhava em ser guitarrista. “Aprendi a tocar violão aos 13 anos, com um professor do bairro. Queria tocar guitarra no grupo da igreja, nos cultos do Evangelho Quadrangular. Mas o pastor alegou que guitarrista sobrava, o que estava faltando era baterista. Um dia, ele me mandou pegar a bateria e tocar durante um culto. Nunca tinha pegado uma baqueta, fiquei supernervoso, mas consegui acompanhar na boa. Não larguei mais”, conta Cadu. Hoje ele é grato ao pastor Jackson, que há 21 anos sentenciou: “Você vai ser baterista!”.
O jazz como linguagem
O autodidatismo ganhou o reforço de aulas a partir dos 18 anos, e logo Cadu frequentava o cenário musical joinvilense. Numa de suas bandas, a Cidadãos do Bem, concretizou o primeiro projeto autoral. Eclético, toca qualquer ritmo, mas não esconde a preferência: “Logo no início vi afinidade com MPB e bossa nova, e aos 22 anos descobri a riqueza do jazz, hoje meu gênero preferido”.
Ao longo destes vinte anos de carreira, desde a estreia no culto da Quadrangular, Cadu vem acumulando experiência com nomes consagrados da música instrumental brasileira e dividindo-a com colegas da cena joinvilense. Não se cansa de listar profissionais que o ajudaram a se aprimorar, como os bateristas Edu Ribeiro e Carlos Ezequiel, o saxofonista Vitor Alcântara e o guitarrista Cassio Moura. “Esse foi meu grande mentor”, reconhece. Fez diversos cursos, entre eles um na Faculdade Souza Lima, de São Paulo, onde teve como mestres Bob Wyatt, Daniel Maudonnet, Nenê Batera, Gilberto de Syllos e Pedro Augusto Araújo de Oliveira Ramos. Dividiu palco com grandes bateristas como os já citados Wyatt, Ribeiro e Ezequiel e Endrigo Bettega. No currículo constam participações em duas edições do Joinville Jazz Festival com o quarteto Dedo de Prosa. “Com o Dedo de Prosa em Trio – conta – estive em uma miniturnê em Minas Gerais, sendo um dos idealizadores do Projeto Conexão Sul Minas, tocando em várias casas em São João Del Rei e Tiradentes, na Mostra de Cinema.”
No ano passado Cadu gravou seu primeiro trabalho instrumental com o trio Mesa Três. Antes de abrir a Cadu Floriani Aulas de Bateria, com estúdio em sua casa no bairro Petrópolis, lecionou bateria nas escolas de música Artes Musicais, Conservatório Belas Artes e Arte Maior. Patrocinado pelas marcas Grestch Drums, Bosphorus Cymbals, Evans DrumHeads e Promark Sticks, Cadu baseia sua metodologia de ensino numa inversão: “Primeiro, fazer o aluno tocar; depois vem a teoria”. Entre suas alunas está a garota-prodígio Duda Henklein, de 7 anos, que diz: “Com o professor Cadu eu aprendi vários outros ritmos além do rock, como jazz, baião, samba, bossa nova... Ele é muito legal e atencioso. Além disso, adoro brincar depois das aulas com a filha dele". A filha, Julia Isabel, de 8, até já empunhou as baquetas, mas sem demonstrar a mesma paixão do pai. Já a esposa, Jeane, assessora Cadu no dia a dia. “É uma grande companheira”, elogia o batera.

Pedras grandes e pequenas

Diz um provérbio japonês, de autoria indefinida (pelo menos eu não achei o autor): “Tropeçamos sempre nas pedras pequenas, as grandes logo enxergamos”.
Taí, gostei. Eu não conhecia essa, encontrei-a ao acaso, tirando um cartão da caixinha de mensagens que Margit Olsen me estendeu dias antes do Natal. Como sempre, demonstra a sabedoria oriental, tão admirada e pouco praticada cá em bandas ocidentais.
Vou fazer dessa filosofia meu leme em 2017, praticando o que depreendi da mensagem. Ou seja: prestar atenção nas pedras pequenas, evitando nelas tropeçar. Ora, direis, tropicão em pedrinha não machuca. Ah, pode ser, pode ser... Mas atrapalha, tira o foco.
Vejamos. Você, ser humano do gênero masculino, acorda para mais um dia de trabalho. Despertou sozinho, sem o “bom-dia” estridente do rádio-relógio. Nem olha a hora e já vai ao banheiro, faz o xixizinho básico, pega o barbeador elétrico, pluga-o à tomada e... Clique, clique... Nada. Aciona o interruptor da luz e, mais uma vez, nada além do clique inócuo. Sem energia elétrica. Oquei, vamos ao banho, fazemos a barba mais tarde, quando a luz voltar. Opa! Banho? Sem eletricidade? Ora, vamos lá, com esse calor um banho frio é até refrescante. É, né? Vá, comece a se molhar logo. Pois é, tá quente e tal, mas entrar sob a água fria logo de manhãzinha pode ser infame pra algumas pessoas mais sensíveis. Após o café a luz voltou, você enfim se barbeia. De forma imperfeita, pois o rosto foi umedecido no banho e os pelos se retraíram. Lá pelo meio-dia, parece um filhote de porco-espinho.
A pedra foi pequena, não é? Mas veja o transtorno que uma simples queda de energia pode causar.
E daria pra enxergar essa pedra e evitar o tropeço? Bem, aí entram alguns fatores condicionais. Se, ao abrir os olhos, você desse uma espiada no rádio-relógio, veria o mostrador escuro. Opa! Sem luz. O relógio de pulso tá logo ali, na penteadeira (existe isso ainda?). Constatado que falta pouco pra hora de levantar, você já vai ao banheiro e, sabendo da falta de energia, empresta o prestobarba da patroa, improvisa uma espuma com sabonete mesmo e faz a barba na lâmina. Claro que há outras pedrinhas, como a pele sensível que proporciona um banho de sangue. Mas aí o jeito é chutar a pedra e ir em frente. Dê um bico também no pedregulho do banho frio e pronto, a rotina volta ao ritmo. Tudo porque você viu a pequena pedra e a evitou.
Durante os doze meses que começarão domingo você, com certeza, topará com uma verdadeira pedreira ao longo do caminho. Haverá exemplares de todos os tamanhos. Muitas vezes, em vez de contornar as pedras grandes, melhor será tirá-las do caminho; se não der conta, peça ajuda. Evite, chute, recolha ou simplesmente pise sobre as pequenas. Sim, pise. Afinal, numa rua sem pavimento, o que ajuda a torná-la transitável? Saibro, ora. Pedras minúsculas. Elas também têm utilidade.
Opa, olha só mais um antigo provérbio oriental que eu acabo de inventar: “Use as pedras pequena para pavimentar seu caminho”.
Feliz Ano Novo!
(essa foi a última crônica publicada no ND, dia 29/12/16)

Os três reis sábios

Por estes dias, em décadas passadas, em minha casa, grande já era o agito em torno do Natal. Abolida a árvore natural desde anos antes, quando uma gigantesca se incendiara e quase provocara uma tragédia, passáramos a utilizar a artificial. Prática, cabia desmontada numa pequena caixa, guardada ao lado de outra com os enfeites. Eram tempos de bolas de vidro finíssimo, delicadas e caras, embaladas uma a uma em papel na hora de guardar. As velas também ocupavam seu lugar, naqueles suportes metálicos que se agarravam aos galhos; porém, mantinham seus pavios intactos (gato escaldado...).
Tinha eu 12 anos quando tia Maria permitiu que, pela primeira vez, ajudasse na montagem da árvore. Isso era feito, geralmente, no dia 22. Então, a partir dali, eu tinha permissão para ver a sala antes do anoitecer do dia 24, já que ajudava na montagem. Orgulho-me de jamais haver quebrado uma só bola.
O presépio passou a ser tarefa exclusivamente minha. Naquele Natal de 1969 foi adquirido um novo, de papelão. Na primeira montagem as diversas figuras, desde a grande manjedoura até um minúsculo galo, precisaram ser recortadas das folhas. Havia um tabuleiro de um papelão mais grosso, para a base. Para deixá-lo mais firme, colamo-lo numa folha de compensado daquelas que eu usava na aula de trabalhos manuais. Nessa base estavam indicados os locais, numerados, onde ficariam as figuras. Cada uma tinha uma aba dobrável, com o respectivo número. Era simples: uma pincelada de goma arábica (a bisavó da atual cola em bastão) e a figura era devidamente fixada em seu local. Fi-lo com habilidade e um prazer inigualável. Nos anos seguintes o mesmo presépio era utilizado, pois para guardá-lo bastava dobrar as figuras, deixando tudo num plano só. Um ano depois, era só erguê-las.
Despertavam-me curiosidade as figuras dos três reis. Nas aulas de Religião e na catequese, lendo o evangelho de Mateus, aprendi que se tratava dos nobres Baltasar, Gaspar e Melquior. Vinham eles dos três continentes então conhecidos: África, Ásia e Europa. Seguiram a estrela de Belém, apresentaram-se ao rei Herodes, levaram presentes e prestaram veneração ao anunciado verdadeiro e único Soberano da humanidade.
Recentemente, evangelhos apócrifos descobertos em escavações arqueológicas trouxeram mais conhecimento aos canônicos relatos bíblicos. Quando criança, achava eu que os três fossem mágicos ou feiticeiros, ao fazer a simples associação ao termo “magos”. Hoje sei que era um sinônimo para “sábios”. Entre seus conhecimentos estava a astronomia. Ligou os pontinhos, caro leitor? Como eles sabiam distinguir uma determinada estrela no firmamento?
Hoje também sei o significado dos seus nomes. Gaspar é “aquele que vai inspecionar”, Melquior quer dizer “meu rei é luz” e Baltasar se traduz por “Deus manifesta o rei”. Os três representavam as raças humanas existentes. Ou seja: representavam os reis e os povos de todo o mundo.
Gosto de observar presépios, pois eles me trazem boas lembranças – além de conhecimento histórico. Pra ser sincero, o presépio é mais representativo do Natal do que a árvore. O que você acha?

22/12/2016

Perdidos em Ponderosa

“Na semana passada, como bem recordam, deixamos John, o major e o Robô...” E começa mais um capítulo de “Perdidos no Espaço”. O leitor desse cantinho do jornal sabe da minha estima pelos seriados de antigamente, dos finais de tarde após a aula no ginásio, televisor preto-e-branco com aquele brilho azulado que saía pela janela à noite, um só canal (TV Paraná canal 6) pegando em Rio Negrinho... Dia desses, vendo mais um capítulo de “Perdidos no Espaço”, engatei com um episódio de “Bonanza”. E bolei um conto-roteiro de um “especial”.
Começa no planeta.
John, Don e o Robô preparam a decolagem do planeta em que passaram tanto tempo – e que demonstra estar à beira de um colapso, a julgar pelos registros sísmicos anormais. Com beltrônio suficiente para uma desesperada tentativa, a nave enfim ganha o espaço. O antigo lar já é um pontinho distante, quando o planeta explode num clarão ofuscante. Com os instrumentos de navegação orientados para uma suposta rota em direção à Via Láctea, a tripulação se acomoda nas cápsulas de criogênio, preparando-se para “hibernar”. Cabe ao Robô manter-se alerta
Algum tempo – difícil precisar quanto – depois, a voz do Robô é ouvida:
- Bem-vindo professor Robinson!
- Obrigado, Robô. Relate.
- Os cálculos eram corretos, professor. Veja – diz o Robô, deslizando até a janela do comando.
- Oh, meu Deus, John. Conseguimos! – diz Maureen, abrindo os braços e acolhendo os filhos.
Smith é o mais empolgado:
- A Terra! É nossa Terra! Voltamos!
De fato, lá fora a visão é do azul planeta Terra. Reassumindo o comando, os Robinson determinam a aterrissagem num ponto do estado de Nevada, nos Estados Unidos, onde há uma estação espacial adequada. O local, porém, não revela nada semelhante a uma base. Só se vê a natureza: mata esparsa, solo, rochas, cursos d’água... A nave aterrissa e o Robô analisa:
- Atmosfera: 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e pequenas quantidades de outros gases. Ar: respirável.
- É mesmo nossa velha Terra. Estamos de volta! Vamos! – comanda John.
Smith atropela a família, e aos Robinson só resta sorrir ante a cena do ex-clandestino se ajoelhando e beijando o solo. Em torno, uma cena mais do que comum: vegetação típica da região das Rochosas, pássaros, ar puríssimo.
Algumas horas depois John, Don, o Robô e Smith partem em rápida expedição rumo a uma pequena elevação, uma légua à frente. O que veem, então, é difícil de explicar: num pequeno vale adiante, em torno de um lago, pastam alguns bois. Descendo a colina, tomam um susto ao se deparar com dois homens a cavalo, usando trajes do velho Oeste; um jovem, canhoto a julgar pelo coldre no lado esquerdo do cinturão; outro mais velho, encorpado, usando um chapelão de copa alta. É o jovem quem cumprimenta, com um sorriso:
- Bom-dia estranhos. Perdidos? Sou Joe Cartwright, este é meu irmão Hoss.
Não percam, na próxima semana, neste mesmo horário e canal...


15/12/2016

A prática do altruísmo

Responda rápido: o que significa a palavra “altruísmo”? Demorou? Sem stress, essa é uma prova com direito a consulta, pode ser feita em grupo e se, ainda assim, não acertar, ganha 10 do mesmo jeito. E por que a nota máxima, mesmo não conhecendo a resposta? Simplesmente porque toda pessoa tem um pingo de altruísmo dentro de si, ou já praticou uma ação altruísta – até mesmo sem sabê-lo. Justifica-se a nota, pois.
Então, ao conhecimento. No Dicionário da ABL o vocábulo “altruísmo” é explicado em uma linha e meia: “Interesse pelo bem-estar do próximo”. Pronto, simples assim. Ou seja: se você já manifestou esse sentimento, deu uma demonstração de altruísmo. Coisinha simples também vale. Lá na infância, quando o irmão mais novo liquidou rapidamente o conteúdo da cestinha de Páscoa, e você dividiu com ele seu derradeiro bem: aquela barra de Urso Branco deixada por último. Aqui, posso dar testemunho pessoal. Eu conseguia ser menos voraz que meu primo Amauri, com quem convivi, e mais de uma vez reparti com ele a tal derradeira barra. E só quem conheceu o chocolate Urso Branco, da saudosa Sönksen, sabe do que eu tô falando.
Além dos mais prosaicos significados de amor ao próximo, filantropia e abnegação, altruísmo também tem uma definição filosófica (essa, confesso que desconhecia até dar aquela googlada básica). Veja: quem criou o termo foi o filósofo francês Auguste Comte em 1830, denotando “tendência ou inclinação de natureza instintiva que incita o ser humano à preocupação com o outro e que, não obstante sua atuação espontânea, deve ser aprimorada pela educação positivista, evitando-se assim a ação antagônica dos instintos naturais do egoísmo”. Faz sentido, não é? Tudo a ver com o positivismo.
Pois bueno, introduzido o tema, que tal aplicá-lo mais amiúde nesses tempos natalinos? Vou dar uma dica aqui, mas cada pessoa pode buscar formas de demonstrar interesse pelo bem-estar do próximo. A Adej, entidade que assiste pessoas com deficiência, vive às voltas com dificuldades financeiras. No final de exercício, então, há mais necessidade de caixa, de olho nas obrigações características da época: férias, décimo-terceiro, impostos, manutenção, confraternização... Durante o ano todo a direção da casa faz um tremendo esforço para manter as contas em dia, e sua principal fonte de recursos é justamente baseada no altruísmo: as doações. Então, generoso leitor e altruísta leitora, dê uma passadinha lá na sede da Adej e veja como sua eventual contribuição é bem aplicada. Empresário, use o que a lei lhe faculta e seja doador fixo, deduzindo o valor do imposto de renda. Em vez de se valer do governo como intermediário, você investe direto no beneficiário. Agora, pegue o telefone, tecle 3433-6355 e seja altruísta.
Ah, sim, e não limite o altruísmo tão somente ao período natalino. É um sentimento nobre, digno de ser praticado durante a vida toda.


08/12/2016

Não era a hora

Meu planejamento tinha, para esta semana, escrever sobre o Advento, montagem de pinheirinho, velas que vão se acendendo etc. Mas o imponderável derrubou minha pauta junto com o avião que levava o time da Chapecoense. Impossível olhar para a página em branco na tela do monitor e escrever algo que não seja eco da tragédia. Na tarde chuvosa de terça, quando escrevia, ainda havia desencontro de informações e muita repetição. Então, desconhecia detalhes como o motivo da queda do avião e números definitivos.
Números. Estranho como a morte também pode ser calculista, esgrimindo algarismos e formando dimensões. Mas, a despeito da frieza dos números, percebe-se que a emoção predomina, mesmo entre aqueles a quem cabe disseminar a informação. De jovens a veteranos, não vi um profissional de imprensa que conseguisse se ater ao cardápio da notícia. Afinal, no avião iam também colegas de trabalho.
A tragédia tem a capacidade de fazer aflorar a solidariedade. Mesmo quem sequer soubesse o que a Chapecoense ia fazer na Colômbia, uniu-se na dor geral. Especialmente por aqui, em plagas catarinenses, a comoção é maior, pelo que representa o bravo time verde do Oeste. Por esses lados joinvilenses, repetiram-se nas redes sociais fotos de Artur Maia, Rangel e Kempes com a camisa do nosso JEC. Pouco importa se deixaram marcas fortes ou se suas passagens foram fugazes. O sentimento é de solidariedade na dor.
Só conheci pessoalmente, de todos que estavam a bordo, Delfim Peixoto, em entrevistas diluídas no passado. Encontrei-o pela primeira vez lá pela passagem dos anos 80 para os 90, na cerimônia de lançamento do troféu de um Campeonato Catarinense – era uma obra de nossa artista Helena Montenegro. Ainda em sua segunda gestão à frente da Federação, Delfim detonou uma gamelinha de amendoins enquanto me perguntava os nomes das pessoas presentes à solenidade (nem todas ligadas ao futebol), em dependências da Tigre – o troféu homenageava João Hansen, e o filho Cal conduzia o cerimonial. Em outras ocasiões, vi novamente o barbudo nas cadeiras do Ernestão, quase sempre roendo amendoim ou pipoca. Deixo à História o julgamento de sua – controversa, é inegável – passagem pela Federação. Lembro agora apenas o cidadão amante de futebol – e de amendoins.
De tudo que li nas redes sociais, apenas discordo, como sempre, do inevitável “...era a hora...”. Pra mim, ninguém tem hora certa pra morrer. Foi um acidente. E se fossem direto de Guarulhos a Medelín? O avião cairia do mesmo jeito? Cairia, diriam os destinistas. Então vou mais pra trás: e se Danilo não defendesse aquele chute aos quarenta e tantos do segundo tempo? Seria a vitória do San Lorenzo, a Chape não se classificaria, não haveria voo para a Colômbia... Não consigo imaginar como as mesmas 75 pessoas poderiam morrer no mesmo dia, estando em lugares diferentes. Não era a hora de ninguém ali morrer.


01/12/2016

Viva Santa Catarina!

Semana passada abordei o tema “efemérides” neste espaço, mas volto a ele agora, já que não dá pra passar batido: amanhã, 25 de novembro, comemora-se o Dia de Santa Catarina.
- Mas o da santa ou o do estado? – questionareis.
- Ambos – respondo-vos.
A santa veio antes, porém. Catarina de Alexandria viveu no terceiro século da era cristã, no Egito, claro. À História, pois (dou o crédito à professora Micheline Barros, da Udesc).
Catarina, nascida no ano 287 na cidade egípcia de Alexandria, era filha do rei Costos, de Chipre. Nasceu, portanto, princesa a nossa madrinha. Após a morte do pai, ela e a mãe, convertidas ao cristianismo, retornaram ao Egito. Alexandria era um polo cultural da época, e lá os faraós criaram a mais famosa biblioteca de todos os tempos e um edifício chamado “Museu”, onde se reuniam os estudiosos. A princesa Catarina frequentava esses círculos intelectuais. Os judeus convertidos ao cristianismo criaram uma escola de altos estudos, aberta tam¬bém às mulheres – algo raro no mundo machista de então. O império romano perseguia os cristãos, forçados a abandonar sua fé. A jovem Catarina decidiu interceder junto ao impe¬rador Maximiano. Ele permitiu que ela tivesse uma conversa com os sábios, logo cativos de sua beleza e inteligência. Resultado: os sábios foram mortos na fogueira. Rejeitado pela princesa, que alegava ser casada com Cristo, o imperador mandou torturá-la até a morte. Ao ser degolada, em vez de sangue jor¬rou leite do corpo da mártir. Isso tudo teria acontecido no dia 25 de novembro do ano 307. O corpo de Catarina foi levado para o monte Sinai e encontrado pelos camponeses muito tempo depois. Aos pés do monte foi construída uma capela e depois um mosteiro dirigido pelos monges cristãos ortodoxos. 
E por que a ilha onde hoje fica Florianópolis tem o nome Santa Catarina, assim como nosso estado?
Vou da Udesc à UFSC, ancorando-me na explicação do professor João Eduardo Lupi. No dia 25 de novembro de 1526, o navegador italiano Sebastião Ca¬boto chegou a uma ilha da costa sul brasileira, denominada Meiembipe pelos índios carijós. Ele a rebatizou com nome da santa festejada no dia: Ca-tarina de Alexandria. Talvez tenha até sido influenciado pela esposa, que o acompanhava na viagem. O nome dela? Catarina Medrano.
Santa Catarina é considerada padroeira dos estudantes, filósofos e professores e também invocada pelos que trabalham com rodas e contra acidentes de trabalho.
Quem quiser fazer uma prece a Santa Catarina nem precisa ir até o pé do monte Sinai. Basta dar um pulo a Floripa e visitar a capela ecumênica em frente ao Tribunal de Justiça. Ali estão relíquias e uma imagem bizan¬tina de Santa Catarina de Alexandria, que o governador Amin trouxe há dezesseis anos do Egito.
Amanhã, então, se você for devoto da santa, faça uma oração especial (se não for, pode fazer assim mesmo, nunca é demais). E se tiver em casa uma bandeira do estado de Santa Catarina, hasteie-a com orgulho. Afinal, moramos na bela e Santa Catarina!

24/11/2016

Efemérides

Desde criança interesso-me por datas comemorativas, aniversários e coisas assim, que compõem as chamadas efemérides. A origem dessa relação está no distante 1º ano do primário no Educandário Santa Teresinha, onde as irmãs zelavam por dois sentimentos caros a elas: religiosidade e civismo. Tal apego era compartilhado pelos alunos, por sua vez multiplicadores em seus lares – mais do civismo, no meu caso, pois vivia no seio de uma catolicíssima família polonesa.
Descobri o significado da palavra “efeméride” no Almanaque Renascim, até hoje trazendo as datas comemorativas de cada mês. Nem precisei do dicionário, pois era evidente. Afinal, lá em novembro estavam, entre as Efemérides do Mês, o 2 de Finados, o 15 da Proclamação da República e o 19 da Bandeira. Então, mesmo lendo o termo pela primeira vez, concluí que se tratava de datas comemorativas. Ainda nos tempos de colégio, topei com uma palavra semelhante: efemérida. Achei que era outra forma de grafar o mesmo vocábulo, porém, lendo (sempre lendo esse piá!) a revista Diversões Juvenis, constatei tratar-se de um inseto. Por viver somente um ou dois dias, tem uma vida efêmera, daí o nome.
Pois bueno... Os próximos dias trazem três efemérides importantes, uma pessoal, uma nacional e outra genérica.
A pessoal: hoje, 17 de novembro, Célia e eu comemoramos 37 anos de união matrimonial, o popular casamento. Bodas de aventurina. Dicionário: aventurina é um cristal de quartzo; entre suas propriedades místicas, o verde estimula a criatividade. Então, lá no distante 17 de novembro de 1979, evidentemente um sábado, o agito tomava conta da casa dos Fleischmann. Já morando em Joinville, eu chegara a Rio Negrinho na véspera e dormira no sofá da sala na casa da sogra. Após o café fui atropelado, pois o dia seria ocupado pelos preparativos da noiva. Fui pra casa do meu pai, no meu bairro-berço Alegre. À tarde ainda encontrei os amigos Líbero e Marreco e jogamos umas partidas de sinuca no Bolinha. Pelas 4 e meia entrava no banho e meia hora depois estava prontinho, terno todo branco. Seguem-se a cerimônia, a festa, a viagem serra abaixo etc. etc. E lá se vão 37 anos de uma abençoada união. Parabéns, único amor da minha vida.
A efeméride nacional: 19 de novembro, Dia da Bandeira. Junto com o 7 de setembro, formava a dupla preferida da minha geração infantil. Na verdade, o 19 de novembro em si apenas coroava uma comemoração permanente. No primário, todos os sábados do ano letivo eram sessões cívicas. Só que, em vez do Hino Nacional, entoávamos o positivista Hino à Bandeira. “Salve lindo pendão da esperança...” Agora mesmo, ouvindo os acordes no youtube, me vêm a lembrança as doces manhãs de sábado da infância. Ice a bandeira!
Domingo, dia 20, é Dia da Esteticista. É a efeméride genérica a que me referi, abrange uma categoria profissional. Aqui em nossa família, tem significado especial, pois homenageamos nossa sobrinha/afilhada Manuela e a filhota Graziela, ambas oriundas do curso superior da Univali campus Balneário Camboriú. Suas mãos ajudam as pessoas a ficar mais bonitas e saudáveis. Parabéns, meninas.
E vivam as efemérides!

17/11/2016
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Agora é...

Entre as coisas muito irritantes do dia a dia, qual você, nervoso leitor e impaciente leitora , considera a pior?
Lá vem esse cronista, de novo, começando o texto com um questionamento – direis, cheios de razão.
Ora, aí já está uma resposta: é irritante iniciar a leitura de um artigo com uma frase terminando em ponto de interrogação.
Bem, questão de ponto de vista. Como repórter, tenho a dupla caipira Perguntas e Respostas entre as minhas preferidas. Sem elas eu nunca conseguiria trabalhar. “Como isso aconteceu?” – foi a primeira pergunta que fiz na minha carreira, lá num distante julho de 1979, ao assustado motorista que via seu carro afundando na fétida lama do rio Cachoeira, após passar direto na ponte do Mercado Público.
Ao longo destes anos, fiz milhares de perguntas, ouvi tantas outras respostas – às vezes, não – e com isso fui elaborando textos. Em jornal, TV, rádio e comunicação corporativa, passei por muitas editorias, até horóscopo cheguei a fazer (eu mesmo é que... bem... ah... deixe quieto...). Mas veja só: esporte, meu tema preferido, só fiz nos jornais internos de empresa. Nunca cobri um jogo de futebol profissional. Aqui no ND, no máximo fiz perfis de ex-jogadores do JEC e de contemporâneos da Primeirona.
Isso, porém, se de um lado é frustrante, de outro poupou-me de boas colheitas de abobrinhas. Voltando lá pro início da crônica, eis algo que me irrita: ouvir entrevista de jogador de futebol. Tenho pena dos bravos profissionais da pista (agora mais ainda, pelo cerceamento que o poderoso plimplim provoca em seu trabalho). Repórter de jornal, pelo menos, tem uma vantagem: a entrevista não rendeu, nem escreve; o de rádio precisa aguentar, pois é ali, ao vivo, na lata (ou na latinha, pra usar o jargão radiofônico).
Antes do jogo (fora do estádio, pois dentro é proibido):
- Se Deus quiser, vamos sair com os três pontos – dizem 99 por cento dos boleiros, ignorando que o manto divino é branco, não vermelho, tricolor ou rubronegro.
Encerrada a partida, enfim o valoroso pessoal de rádio pode entrar em ação (depois da tevê, claro). Ganhou o jogo? Beleza:
- Grazadeus vencemos e tive a sorte de fazer um gol, grazadeus.
Perdeu?
- É, demos o máximo, mas faltou sorte, não era o nosso dia, a bola não quis entrar. Agora é...
Pronto, isso me irrita. O tal do “...agora é...”. Geralmente dizem que “...agora é trabalhar e treinar duro, pra corrigir os erros”. Tenho ouvido essa lenga-lenga, por sinal, desde o já distante mês de maio, num certo tricolor aqui de pertinho. Quer dizer que, após cada revés, “...agora é trabalhar...”? E vêm fazendo o que desde o início do campeonato? E os tais erros, que se repetem a cada partida? Não é pra corrigi-los nos treinos? Alguém me explique. Um time fica 34 rodadas sem ter um mísero pênalti marcado a favor. Então, nem adianta treinar cobrança, né? Pra quê? Nunca marcam a nosso favor. Aí, na 35ª rodada o juiz já marca dois em seguida. Bem, melhor nem lembrar...
Pois é, na coletiva após o jogo, vem o técnico: “Agora é...”.
Como diria meu amigo Ivo Cordeiro, “Aí é pracabá!”.

10/11/2016

O dia mais feliz

O dia mais feliz da minha vida foi...
Qual foi, mesmo? Pô, mas que pergunta difícil eu fui fazer pra mim mesmo. Que tarefa ingrata escolher um momento como O MAIS significativo ou importante ou determinante ou prazeroso ou satisfatório. Ou... Tantas coisas, tantos motivos. São tantas emoções, como cantou Roberto um dia.
Há quem considere o dia mais feliz o primeiro da vida, no momento do nascer. Afinal, é quando se vê a luz cá do lado de fora. Em contrapartida, conheço muitos que consideram esse o pior instante, preferindo ter permanecido na segurança uterina. Bem, de minha parte, tiro esse da minha lista. Afinal, nem me lembro das circunstâncias. Pra minha mãe e pro meu pai, sim, é que deve ter sido um dia especial barbaridade. Afinal, traziam ao mundo o primeiro filho.
Então, teria sido o primeiro dia de aula no primário? Acho que não, pois o pequeno fiapo de memória que guardo daquele dia foi o berreiro que larguei na entrada do colégio, quando minha madrinha me levou lá. Dizem que toda a cidade toda ouviu o choro – também, Rio Negrinho devia ter uns 8 ou 9 mil habitantes naquele distante 1963. Mas, segundo me contam, acabei ficando na aula, graças ao providencial apoio de um primo que já estudava lá. Pois lá se foi a candidatura desse dia como o mais feliz. Ao longo dos quatro anos de aulas com as irmãs do Educandário Santa Teresinha tive, claro, incontáveis momentos felizes. Um bom candidato foi o último dia letivo de 1966, concluído o terceiro ano. Antes de entrarmos em sala, na tradicional fila no pátio, cada irmã destacou o melhor aluno de sua turma. Tremi de nervosismo e de felicidade quando irmã Antônia bradou meu nome e me cravou no bolso do uniforme a medalha de honra ao mérito com fita azul.
Do estudo fundamental também dá pra destacar a aprovação no exame de admissão para o ginásio, em terceiro lugar (Hélio e Lete me superaram naquela). Quatro anos depois, no final de 1971, a formatura (outra tremedeira das boas ao ser chamado pelo professor Pedrinho). A viagem pro Sul do estado. Ah, essa foi legal. Um detalhe me marcou: em visita ao porto de Itajaí, o comandante de um navio da Armada permitiu não só que subíssemos a bordo, como deixou dois piás manobrarem os canhões de proa. Imagine, eu e o amigo Rainer, cada um num posto, olhos no visor, mãos na manivela, virando os canhões em direção a alvos “inimigos”. Foi supimpa!
O que mais? O primeiro jogo no antigo Palestra Itália. Tudo que eu ouvia no rádio estava ali, sendo vivenciado, vendo Ademir da Guia & cia. ao vivo, bem na minha frente. Pô, mas ficou 0 x 0 contra o Coritiba, e ainda o carniça do Jairo defendeu um pênalti cobrado justamente pelo Divino...
O início do namoro. Taí um candidato forte a dia mais feliz: 31 de julho de 1978. Culminou no casamento, 17 de novembro de 1979, outro bom palpite. Os nascimentos dos filhos. A primeira neta. Mas aí vem a segunda, e depois sei lá mais quantas ou quantos. Opa, acho que agora acertei na definição: o dia mais feliz da minha vida é o próximo.

03/11/2016

Sob a minha carteira

Andava eu pelos 15 anos, aulas no antigo Científico pela manhã, período vespertino para estudos, tarefas, campinho, leitura... Minutos antes, acabara de ler um gibi de ficção científica, uma coletânea de histórias de autores variados. Uma delas me chamara a atenção: o tema era uma porta dimensional. Creio ter sido o primeiro capítulo da saga “A Torre Negra”, que um jovem estudante chamado Stephen King publicava em quadrinhos.
Lia, como sempre, sentado em minha carteira escolar, adquirida por meu pai na Móveis Cimo, onde ele trabalhava. Encerrada a história, fiquei matutando um tempinho, olhando pela janela e digerindo o enredo.
Ocorreu-me, então, uma brincadeira solitária – na média adolescência, preservava o espírito infantil. Escolhi uma pistola Colt no meu arsenal, cópia perfeita da original utilizada na Segunda Guerra, meti-a no cinto da jeans (ou “rancheira”,como era chamada na época) e, com base na HQ lida pouco antes, levantei o assento da carteira, por ali passando, como se fosse a entrada de um alçapão.
Passei por baixo da carteira, fechei a “porta do alçapão” e me vi no meio do meu quarto, fantasiando ter atravessado um portal dimensional, tal como o pistoleiro Roland na historieta. Era simplesmente meu quarto, como sempre, mas...
Senti um peso nos ombros, como se um imenso cobertor ali tivesse sido colocado. A tarde ensolarada pareceu se tornar silenciosa e sólida, sem sons externos, sem reverberação, sem “vida” (King de novo, mas “Fenda no Tempo” só viria nos anos 90). Empunhei o Colt, fingindo puxar a trava como via nos filmes e encarei a porta do quarto. A maçaneta permanecia imóvel, como tudo o mais ao redor. Quis olhar pela janela, na expectativa de algum movimento lá fora, mas não me atrevi a tirar os olhos da porta. Não havia ruído algum, era como se eu fosse o último ser humano sobre a face da Terra (sim, já havia lido “Eu Sou a Lenda”, de Richard Matheson, e assistido “The Omega Man” com Charlton Heston).
Comecei a tremer, suando frio com a ansiedade. “Mas, pô! – pensei – Tô no meu quarto, em Rio Negrinho.”
Ao ouvir um levíssimo som do lado de lá da porta (“imaginassom”?), fui rápido: tornei a enfiar a pistola no cinto e recuei dois passos até bater a bunda na carteira. Enfiei-me por baixo dela, levantei o assento-portal e subi. Baixei-fechei o alçapão, desci para o chão, saquei novamente o Colt e fiquei alguns segundos ali, provavelmente pálido, tremendo de medo. Ao certificar-me de que não fora seguido, improvisei algum objeto à guisa de chave, lacrei o portal e me arranquei lá pra fora.
O mundo voltara ao normal: pássaros se esgoelavam, no rádio Iglesias louvava Manuela, minha Baba se entretinha nas tarefas domésticas, na rua a piazada jogava pêca... Nunca tive coragem de relatar a aventura interdimensional. Mas também jamais levantei novamente o assento da carteira.


27/10/2016

Pedra 90!

Alguém arrisca um palpite na tramitação do projeto que libera os jogos de azar no Brasil? Passa ou não passa? Só pra relembrar: deveria ter rolado ontem (escrevo um dia antes) a votação, na Câmara dos Deputados, do substitutivo do relator ao projeto que amplia o leque dos jogos de azar legalizados no país. O PLS 186/2014 faz parte da Agenda Brasil – pauta apresentada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, com o objetivo de incentivar a retomada do crescimento econômico do país. Do senador Ciro Nogueira (PP-PI), o projeto legaliza cassinos, bingos, jogo do bicho e apostas eletrônicas.
Então, a última notícia que li é essa: a votação estava marcada para ontem, dia 19. A essa altura já sabemos se foi mesmo pro plenário. Se foi, arrisco (leite de pato, sem grana!) que alguém pediu vista etc. etc. E a coisa vai rolando... O tema é espinhoso.
A propósito, já no distante 2007 escrevi sobre o assunto. Os bingos tinham sido proibidos. Reprisando o que comentei na época: é difícil encontrar um brasileiro que já não tenha participado de um bingo. Desde aquela “tômbola” de brinquedo, ótima para organizar encontros da gurizada, com brindes como balas, drops ou brinquedos velhos. Já teve bingo da terceira idade, de festa de igreja, do clube de mães, de sorteios na TV... Tinha bingo de salão e videobingo até ser proibido.
Admito que eu gostava de ir ao bingo ali no Cidade das Flores sexta ou sábado à noite. Não toda semana, pois aí o bicho pega, e a tentação acaba colocando em risco os caraminguás contadinhos. A tática era essa: o orçamento é X. Acabou, tchau! Ganhando alguma rodada, separar mais Y, que passa a ser o novo orçamento. Como a pizza era na faixa, sobrava mais algum pra cervejinha.
Se sou a favor ou contra a liberação do jogo? Sei lá, prefiro ficar em cima do muro. Ou melhor, da linha. LINHA!
Tenho a mesma posição – ou ausência dela – em relação ao jogo do bicho. Nem me arrisco a dar uma opinião. Numa dessa dá zebra, posso ser enquadrado como contraventor ou incentivador. Se eu jogo no bicho? Claro. Jogo inseticida nos pernilongos e naquelas mosquinhas chatas que vêm aporrinhar os beija-flores e as cambacicas.
A história do jogo do bicho é interessante. Em 1892 (urso), João Batista Vianna de Drummond, o barão de Drummond, abriu um zoológico no Rio de Janeiro. Com a Proclamação da República em 1889 (outro urso), o barão deixou de receber ajuda financeira do governo e seu estabelecimento ficou comprometido. Para atrair público, criou uma espécie de loteria: todos os dias um papel com a anotação e o desenho de algum dos 25 animais do zoológico era colocado num quadro e içado ao alto de um poste (daí a expressão “deu no poste”). Cada visitante recebia um bilhete com um dos bichos. No fim do dia, aqueles que tivessem o bilhete com o mesmo animal que estava no quadro ganhavam. Em pouco tempo o jogo ficou popular e saiu do zoológico. O jogo do bicho é proibido pela lei 3.688 (tigre) e considerado contravenção – assim como cassinos e bingos.
Que bicho, ou melhor, que resultado deu ontem na Câmara?

20/10/2016

O sol das 19 horas

A partir de domingo, até 18 de fevereiro do ano que vem, aqui onde me sento para redigir essas crônicas e outros textos terei luz do sol até a noite. Começa domingo o horário de verão. Mais que uma alteração no relógio, adiantando-o em uma hora, trata-se de um símbolo. São os dias terminando mais tarde, o sol ali na janela, a luz artificial demorando mais pra ser acionada...
Só falta o calor. Ora, o que é isso? Escrevo essa crônica no dia 11 de outubro e uso calças compridas! Cadê o calorzinho de outubro? Nessa época, em anos idos, já havia usado todas as bermudas do armário. Até agora só usei uma, e apenas durante um dia, sábado passado, na Arena; à noite já puxei um agasalho. E ainda vêm me falar em aquecimento global? Para, né?
Nesta terça li na seção de cartas do jornal três mensagens sobre o horário de verão: uma negativa, uma neutra-negativa e outra positiva. Direis, pois, por essa amostra, que a maioria é contrária ao adiantamento da hora durante estes quatro meses? Nã-na-ni-na-não! É que a minoria faz mais barulho. Nós, maioria, somos silenciosos. Gostamos da hora de verão e sabemos que ela é definitiva no Brasil (toc-toc-toc na madeira, por via das dúvidas). Faço minha parte: todo ano escrevo algo enaltecendo a medida. Repito, por serem simples, meus argumentos. Adoro o horário de verão e todo o simbolismo que o cerca: os dias mais longos, a proximidade do verão, o calorzinho chegando (nesse ano, ainda nada dele), os happy hours sob sol... Em 2013 escrevi: “Quando eu era criança e adolescente, em Rio Negrinho, o horário de verão ia e vinha, de acordo com o humor do general de plantão. No tempo de ginásio me lembro que tinha. Era uma curtição. A aula terminava às 17h20, ainda tínhamos um par de horas pra chegar em casa, trocar o uniforme por um calção e correr para o campinho. E no fim, ainda tomar um banho no rio, economizando a caríssima energia elétrica do chuveiro”.
Pra mim, o tal “desconforto” com a mudança de horário não passa do segundo dia. Afinal, a mudança se dá de sábado pra domingo, não faz a menor diferença se você se levanta às 6 ou às 10 da manhã. A partir de segunda, quem trabalha já entra no ritmo semanal do relógio, não importa a posição do sol. Mesmo sem horário de verão, o dia vai terminando cada vez mais tarde.
De sábado pra domingo, portanto, teremos um dia “sem meia-noite”. Parece estranho, mas é o que sempre acontece quando começa o horário de verão, pois à meia-noite você já adianta o relógio para a 1 hora da manhã de domingo. Pra compensar, o dia 18 de fevereiro do ano que vem terá duas meias-noites. Eu nem espero dar meia-noite, e lá pelas 23 horas já inicio a tarefa de ir adiantando os relógios em uma hora (menos os de celular, computador e receptor da TV, que são automáticos). Ao levantar, domingo, já estou no ritmo…
Só falta o danado do calor. Como diz minha netinha, “Cadê?”.


13/10/2016

No meio do milharal

Dia desses, um gaiato postou na rede social uma foto de um maço de sabugos de milho pendurado no suporte de papel higiênico, sugerindo uma forma mais... Mais... Ah, orgânica... Isso, um jeito sustentável de sair do trono sem deixar papel sujo. O sabugo, no final do processo, pode ser triturado e virar adubo, sei lá. Já o papel tem o destino inglório do lixão, pois naquele estado é difícil de reciclar.
A piada logo me trouxe à memória boas lembranças de tempos bons de recordar, quando acompanhava o ciclo do milho do início ao fim. Com a Babka, ajudava a arar a terra – na pá, nada de arado – e fazer as covas onde seriam depositados os grãos da nova plantação. Nosso quintal era utilizado o ano todo, as culturas se alternando de acordo com a época. Em setembro plantávamos o milho.
No debate que se seguiu no Facebook, os comentários envolviam a utilidade do milho. Ali, nada se perde. Além do alimento, seja verde para nós humanos, seja maduro pras criações, aproveita-se tudo. Agora, escrevendo essa crônica, sinto o cheirinho do milho sapecando na ponta de um galho, sobre a fogueira – acesa com palhas e caule do próprio milho. Pra mim, sapecado era o melhor jeito de comer milho, assim como o pinhão e a batata-doce.
A palha também podia ser sentida em colchões ou vista nos bolsos das calças dos consumidores de “paiero”. Piá, eu gostava de ficar nos fins de tarde esperando meu pai na venda lá do bairro Alegre. Um dos frequentadores era o carroceiro Serapião. Enquanto preparava criteriosamente seu cigarrinho, alisando a palha e picando o fumo com o afiado canivetão, desfiava boas histórias. Palha esticada, tabaco colocado, uma lambida pra dar liga, ele enrolava o paiero e o acendia com o isqueiro a querosene, soltando baforadas com prazer e enchendo o ar de fumaça, misturada aos cheiros (na saudade, aromas) de pinga, linguiça e carne defumada. Satisfeito, ia-se embora lá pros lados da Pedreira, a piazada aboletada na traseira da carroça até umas dezenas de metros adiante. Ainda agora vejo a imagem do Serapião, ao longe, a carroça vagarosa, a fumaça do paiero deixando rastro no ar...
Voltando às mileuma utilidades do milho, meu amigo Cardeal me passou mais uma que eu não conhecia. Aquele cabelo ruivo enfeitando a espiga tem atributos mais nobres do que imaginava (tá, admito: não havia piá da minha turma que não enfiasse um chumaço no calção, forjando uma cabeleira que ainda não existia). Um site de remédios caseiros ensina: o cabelo de milho, também conhecido como barba ou estigma, serve pra fazer um chá diurético, indicado no tratamento de infecções urinárias ou no controle da pressão alta (mais detalhes na página remedios-caseiros.com). Taí ó: do grão ao sabugo, do caule ao cabelo, nada do milho se desperdiça.
Agora, acesse o youtube e ouça “Colheita de Milho”, com Zezé e Luciano:
“Até hoje ainda me lembro
Era manhã de setembro
O sol com intenso brilho
Eu na frente abrindo as covas...”


06/10/2016
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Hoje tem comício na praça!

Essa quinta-feira, último dia da campanha eleitoral para o primeiro turno, também é a chance derradeira para fisgar o voto dos indecisos. Escrevendo essa crônica, 9 e meia da manhã de quarta, já ouvi dois carros de som passando na rua, com o apelo final de candidatos a vereador. Hoje, pela legislação eleitoral, os comícios podem se estender até as 2 da madrugada. A essa hora, claro, só ficam a claque remunerada e alguns apoiadores de primeira hora.
Mas nem sempre foi assim...
O título dessa crônica remete a meados do século passado, na então pequena Rio Negrinho. Um Volks sedan quatro portas ou um Corcel rodavam pelas ruas, dois enormes alto-falantes chamando a população pro comício da noite na praça. Como só havia uma praça na cidade, o local era óbvio. Se fosse dia da semana, o melhor horário era 18h30. Medida estratégica para atrair bom público. O apito na Móveis Cimo tocava às 17h15, largando toda aquela multidão na rua – metade pela Jorge Zipperer, outro tanto pela Willy Jung. Dava tempo, portanto, pros homens irem tomar seu mercedinho de pinga no Ponto Chic e já ficar por ali pro comício. Na hora marcada, subiam ao palanque os candidatos da Arena ou do MDB e dá-lhe discurso. A piazada também ficava nas imediações, aproveitando a pipoca do Gaúcho ou o picolé do Boelitz.
Corta pra Joinville, 1982. Comício do PMDB no Boa Vista, outro do PDS no Itaum, cada um buscando votos no reduto do outro. Repórter de TV, precisei me desdobrar pra cobrir os dois. Não dava pra ficar muito tempo, era só fazer uma rápida intervenção em cada um, o cinegrafista Arno Maciel gravando as imagens, pra largar no telejornal do meio-dia seguinte. Pena, os comícios estavam bons.
Praça Dario Salles, setembro de 2010. “Comício” do PT, com as aguardadas presenças do então presidente Lula e sua candidata à sucessão, Dilma Rousseff, além dos demais postulantes ao governo do estado, Assembleia e Congresso Nacional. Um cunhado e um amigo vieram de Rio Negrinho pra assistir. Ficamos cerca de uma hora e meia tomando umas cervejinhas numa lanchonete próxima, até enfim anunciarem o início da programação, superatrasada.
E por que escrevi a palavra comício entre aspas? Sinceramente, que tipo de comício foi aquele? Nós três, eleitores comuns querendo ouvir propostas, ficamos junto com os demais na praça da Bandeira, bem longe do palanque. Ver quem discursava, só no telão, pois a praça Dario Salles foi tomada pela militância embandeirada. Eleitor neutro, querendo assistir ao comício, só de longe.
Assim têm sido o que chamam de comício, neste século. Os candidatos falam pra militância ou pras claques. Ou seja: pra quem já vota neles. Quem não tiver bandeira na mão ou adesivo no peito, pronto pra aplaudir a cada dez segundos, fique afastado. Quer conhecer plataformas? Veja a propaganda na TV. Comício é lugar de militante.
Que saudade dos comícios de outrora...


29/09/2016

A telinha na terceira idade

Neste domingo, quando ligar a TV, dê um “pique-pique”. Domingo, dia 18, a televisão completa 66 anos de funcionamento no Brasil.
Mesmo chegando à terceira idade, eu diria que é uma jovem. Assim como cada ano de um cachorro equivale a cinco dos humanos, penso que a TV comemora um a cada dez ou quinze. Isso porque esse veículo de lazer e comunicação tem a qualidade de se adaptar. Hoje, por exemplo, além das tradicionais – e manjadas – atrações da TV aberta, você encontra centenas de canais por assinatura, cada um dedicado a um tema. Crianças do século XXI não conseguem entender como podíamos sintonizar só quatro ou cinco canais na saudosa anteninha espinha-de-peixe ou na interna, ostentando um bombril na ponta.
Quatro ou cinco canais? Isso aí já é moderninho, rapaziada. Quando o primeiro televisor entrou em nossa casa, em 1968, só havia sinal de uma emissora em Rio Negrinho. Curitiba era íntima de todas as famílias, pois o solitário canal era o 6, TV Paraná. A programação era aberta pelas 4 da tarde, com um seriado, encerrando-se à meia-noite. Conhecíamos todas as lojas da avenida Doutor Murici; ouvíamos a pregação do padre Emir Calluf no programa “Um Lugar ao Sol”; outro Calluf, Munir, comentava futebol; um senhor carequinha anunciava as novidades das Lojas Frischmann’s, e o filho dele era o modelo dos trajes; as lojas Madison patrocinavam “Perdidos no Espaço”. A única ligação com Santa Catarina era o “Notícias Móveis Cimo”. Muito mais tarde vim saber que um barbudinho bom no desenho era o joinvilense Juarez Machado. Segundo canal implantado no vizinho estado (poucos meses após a TV Paranaense canal 12, em 1960), o 6 tinha programas como “Papai Sabe Tudo”, “Alô, Doçura”, “Tele-Ring” e “Cirquinho Canal 6”. Não me recordo agora a qual rede nacional pertencia o 6 nos primeiros anos, mas era o tempo dourado das paulistas Excelsior e Record. A partir de 1970, aí sim, tenho certeza de que era a emissora então gerida pela família Machado de Carvalho, pois tinha “Família Trapo”, “Moacyr Franco Show” e “Jovem Guarda”, tudo ao vivo direto do Teatro Record.
Quando saí de Rio Negrinho, em 1974, já sintonizávamos três emissoras curitibanas e a blumenauense Coligadas. Em 75, morando em São Paulo, podia escolher entre seis emissoras. Seis! E mais: saía do Palestra Itália após o jogo a tempo de ver o vídeo tape na TV Gazeta.
A TV tem 66 anos de Brasil, mas ainda é nova, repito. A velha antena espinha-de-peixe foi substituída pela parabólica, essa ganhou a companhia do cabo e do satélite, os aparelhos ficaram fininhos e com telas enormes, a programação fica 24 horas no ar... Mas ainda há programas feitos exatamente como há cinquenta anos. É só ver Sílvio Santos e Raul Gil; o que muda é que agora é em cores, mas os formatos são os mesmos. Assistindo a uma narração de Sílvio Luís, é como se eu me teletransportasse pra 1974. Hebe fez durante toda a carreira o mesmo tipo de programa.
A modernização, claro, é vista. Porém, fica mais evidente nas emissoras fechadas, onde há mais espaço para a ousadia. Até mesmo o aparelho, além do design e da tecnologia, se adapta. Hoje você pode utilizá-lo somente como monitor, ligado à internet. Ou sintonizar um canal de música, sem imagem. Só não dá mais pra colocar uma toalhinha de renda e um vasinho em cima...

15/09/2016
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Cicatrizes que doem

Tenho no calcanhar esquerdo um restinho de cicatriz, já desgastada pelos anos, de um pequeno incidente de infância. Vinha eu de carona na bicicleta Gäricke do meu tio Zé, pilotada por meu pai Antoninho. Voltávamos do Cruzeiro quando, ao passar sobre o cruzamento com os trilhos, o solavanco me desequilibrou e meu pé esquerdo se enroscou nos raios da roda traseira. Nem deve ter sido tão grave, mas o pouco que a gaveta da memória me mostra é sangue correndo e uma dor dos diabos. Ainda precisando aguentar, e berrando como um cabrito, tive do saudoso Didi os primeiros socorros, na sua farmácia. Estranho é que o machucado foi na parte externa do calcanhar. Sei lá, o fato é que essa foi minha primeira e mais duradoura cicatriz. Seguiram-na incontáveis outras, de tombos a maioria, botinadas em campo outras tantas.
Doem? Claro que não, o que doeu foi o que as causou, ora. Então, e o título da crônica?
Ah, aí são outras cicatrizes, provocadas não por bicos na canela ou tombos de bicicleta, mas lá dentro, na alma. Até mesmo aquela marca pioneira, desenhada pelos raios da bicicleta, de vez em quando dá umas pontadas. Não no calcanhar, evidentemente, mas no coração. É a dor da saudade. Longe de ser uma dor lancinante como a física ou mesmo a emocional provocada por algum trauma, é algo suportável. É a chamada dorzinha gostosa, evocando um tempo bom.
Não me lembro de onde vínhamos, meu pai e eu, se visitávamos algum parente lá no morro ou simplesmente ele me levava a passear na garupa da bicicleta. Talvez alguns momentos antes os trilhos tivessem testemunhado mais uma passagem da maria-fumaça levando passageiros serra abaixo. Ou a moderninha locomotiva a óleo diesel estivesse manobrando sua comprida tripa de vagões de carga. O fato é que, naqueles distantes anos 60 do século passado, havia grande movimentação na estação ferroviária de Rio Negrinho. Em tempos pré-asfalto, precárias linhas de ônibus e raríssimos automóveis, o trem era a principal ligação com o mundo lá fora – Mafra para o Oeste, de lá a Curitiba, e São Bento e serra abaixo a Leste, terminando no porto de São Francisco.
“Todo mundo tem suas cicatrizes” foi o que ouvi há alguns dias, assistindo ao filme “À Procura do Paraíso”. Na trama, uma jovem traduz as enormes cicatrizes de um acidente como uma falta de contrapartida divina à sua fé. E sai pela mundana Las Vegas, praticando os pecados que jamais cometera. Ela tenta purgar as cicatrizes internas, já que as exteriores só a roupa esconde. Só que... Tá, não vou entregar, veja o filme.
Pra mim, as cicatrizes da saudade não devem ser eliminadas – se isso fosse possível. Deixe que doam um pouquinho às vezes. A simples lembrança de um passeio de bicicleta – ainda que tenha levado à farmácia – pode ser um lenitivo para a alma. Uma eventual dorzinha de melancolia é lavada por umas gotas produzidas pelas glândulas lacrimais, assim como o bálsamo branco dado pela Baba limpava a dor de estômago. Todos têm suas cicatrizes.


08/09/2016

E aí, bro!

Bro? Esse cronista quase sexagenário agora deu pra falar gíria das comunidades cariocas? Ou do nova-iorquino Brooklin? Yeah, bro! (pra quem não sabe, a expressão se traduz como “e aí, meu irmão!” ou “mermão”, com pronúncia acariocada).
Nada disso, o tiozinho não está se passando por sobrinho, não. Então, o que raios é BRO? Brasil República Organizada? Brasileiros Redondamente Obtusos? Banda dos Ratos de Ópera? Antes que me acusem de autoplágio e me submetam a impeachment, já vou entregando: escrevi algo semelhante há oito anos, no primeiro setemBRO como cronista do ND.
Sacou? SetemBRO. Então, o bro é tão somente a sílaba final dos meses que formam o último quadrimestre do ano. Há duas vias para o estado de espírito das pessoas, a partir de hoje. Numa delas, o ânimo melhora, a expectativa é positiva, a disposição aumenta e o mundo parece ficar mais colorido. Afinal, com o fim do inverno, a chegada da primavera, os dias começando a ficar mais longos e menos frios, tudo muda. Vêm aí os feriados do segundo semestre, a praia, a expectativa pelo fim do ano, as festas, as férias...
E há, claro, o viés sombrio, a via do negativo. Só quatro meses pro fim do ano, tanto trabalho por fazer, tão pouco tempo... Bem, já passei por isso quando, no tempo de agência de comunicação, editava uma dúzia ou mais de periódicos de empresas. Se houvesse algum atraso, a partir de setembro o esforço quadruplicava, pra fechar todos antes das férias coletivas. Nada pior do que o jornal interno de dezembro sair em cima do laço, no último dia de trabalho, todos mais preocupados com férias, Natal, viagens e muito mais tarefas do que ler o jornal. Em janeiro ele já virou passado. Mesmo assim, dá pra transformar também essa via em algo positivo, gastando uma energia a mais pra deixar tudo em dia e curtir as férias numa boa.
Hoje, dia 1º de setembro, o sol e as flores já ficam mais brilhantes e coloridos, saudando o aniversário daquela que me acompanha há quase 37 anos (muito antes, se considerar o tempo em que eu era o adolescente apaixonado e tímido, sem coragem de me declarar). Parabéns, benhê! Alcançou-me...
Passado setembro, vêm dois outros bros. Outubro e novembro aumentam a ansiedade, trazendo aquele ar de verão, os feriados se sucedendo e oferecendo uma avant première do que ainda vem por aí.
Dezembro, finalmente, chega com seus dias ensolarados e cheios de calor. O fim do ano letivo, a última semana de trabalho, as festinhas de encerramento, os amigos secretos... A propósito, faz anos que não participo da cerimônia de amigo secreto. Nos velhos tempos, o presente mais comum era CD. E agora? Com o disquinho em desuso, o que rola de presente? Ainda fazem a brincadeira?
Final de ano, no Brasil, é realmente uma janela dentro do calendário. Por essa janela as pessoas conseguem enxergar um mundo diferente, em que as preocupações cotidianas dão lugar à alegria de viver. E tudo pode começar hoje. Certo, bro?


01/09/2016

Perfil

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A luta pela vitória

Ainda no calor das competições, no intervalo entre Olimpíadas e Jogos Paraolímpicos (paralímpicos? Para, né?), as recordações daqueles 17 dias são vivas na memória. Remoendo lembranças de jogos, corridas, saltos, braçadas, mergulhos, piruetas, saques, cortadas, defesas, arremessos etc., não há como dissociar tais devaneios do Credo da moderna Olimpíada. “O mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta para alcançá-lo.”
Antes de qualquer coisa, um bocadinho de História. Em 1908, numa missa na Catedral de Saint Paul, pouco antes do início das Olimpíadas de Londres, o bispo da Pensilvânia, Ethelbert Talbot, afirmou o seguinte: “Ganhar não é tão importante quanto participar”. O barão de Coubertin gostou da frase e a adotou, com ligeiras adaptações. Já a não menos famosa “Importante é competir” foi criação de outro clérigo, o padre dominicano francês Henri Dion. Essa frase virou Lema Olímpico, enquanto a outra, adaptada para “O mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta; o essencial não é ter ganho, mas ter lutado bem”, se tornou Credo Olímpico. Você encontra tudo isso no livro “História das Olimpíadas”, do jornalista britânico John Goodbody.
Então, temos aí um Lema e um Credo. No fundo, ambas as frases têm o mesmo sentido, de valorizar o esforço antes da conquista. Na longa trajetória dos Jogos Olímpicos tivemos muitos exemplos de apego aos ideais preconizados pelos autores das frases.
É claro, é óbvio, é até normal que todo competidor tenha como meta curvar-se no pódio, para ter a medalha colocada no pescoço. Não sejamos hipócritas, a sensação de ver um esforço transformado em medalha é indescritível. Jamais vou me esquecer do dia 7 de setembro de 1972, quando meu tio Álvaro , então prefeito de Rio Negrinho, ungiu-me com uma medalha, logo seguida de outra colocada em meu pescoço pelo saudoso Quito Ribeiro. Eu as conquistara dias antes, na primeira edição de uma competição local de atletismo, nos saltos em altura e em distância. Puxa, tente imaginar: metade da população da cidade se aglomerava em torno do pátio da igreja matriz, encerrado o desfile, para a cerimônia de premiação dos tais jogos. E eu, ainda envergando o uniforme preto do Colégio Estadual Manoel da Nóbrega, ganhava duas medalhas de ouro de uma vez só. Cacete! Foi demais!
Era a coroação de um esforço, mas também de momentos de dedicação. Inscrito apenas no salto em distância, venci a competição com a facilidade traduzida no meu apelido de infância, Gato. Porém, já em seguida os organizadores me pediram para participar também do salto em altura, pois havia poucos inscritos. Eu e meu amigo Celsinho Pedroso topamos, mesmo cansados. E o Gato ganhou de novo. Duas provas de salto na mesma tarde de sábado! Naquela hora, vou ser sincero, só pensei em corresponder ao pedido dos organizadores. Hoje, maduro e experiente, sei que também fui um exemplo do Lema e do Credo olímpicos. Participei, competi, superei o cansaço de duas provas em sequência. Vencê-las, hoje sei, foi consequência da soma do felino dom natural com a prática nas aulas de Educação Física e o prazer de fazer aquilo. A recompensa veio no dia 7 de setembro, tendo o palanque das autoridades como pódio.
Só faltou a execução do Hino: “Salve, salve, Rio Negrinho...”. Pode chorar...

25/08/2016

Minha Olimpíada

O ano é 1974, a cidade é Criciúma. Estou numa quadra poliesportiva, visto camisa azul (número 7, o mesmo que eu usava nos aspirantes do Ipiranga), calção branco e meias zebradas azul e branco. Nos pés, tênis Íris brancos, novinhos. Nenhum escudo ou identificação na camisa. O distintivo é meu coração azul-verde-branco, as cores da bandeira da minha querida Rio Negrinho. Lá dentro, lidero o time de handebol, multiplicando em quadra a liderança do nosso comandante professor Carlinhos. O cronômetro aponta 2 minutos para o fim do jogo; no placar, 15 x 13 para Florianópolis. É a decisão da medalha de ouro. Já fôramos demolidos pela máquina da Capital na fase classificatória, numa goleada acachapante; mesmo assim, avançáramos para as etapas seguintes em segundo lugar, eliminando Presidente Getúlio e São Joaquim (este na prorrogação, pois então não havia empate no handebol). Agora, porém, era diferente. Já conhecíamos bem o esquadrão da Ilha, tanto da surra tomada dias antes, quando de assistir aos seus jogos. Nosso treinador armou o time, claro, numa retranca dos diabos, defesa acima de tudo. E funcionou, tanto que a dois minutos do fim, Abel e Lári, nossos goleiros se revezando, só buscaram a bola na rede quinze vezes. Naquele momento, acreditávamos até na vitória. Seria uma zebra enorme, daquelas de abalar estruturas. Mas, por que não? Dois minutos, no handebol, são suficientes pra empatar um jogo e levá-lo à prorrogação. Pois vamos...
Um solavanco me acorda. Lá se foi o sonho... A Kombi na qual fazemos a viagem de volta a Rio Negrinho passou num buraco. A realidade: na estreia, vencêramos de fato Presidente Getúlio, por 30 x 7, dando aquela injeção de ânimo. No segundo jogo, 14 x 14 contra São Joaquim e derrota na prorrogação. Pra fechar, acachapantes 60 x 8 contra Floripa. Sem problema, valeu a experiência. Afinal, Rio Negrinho conhecera o handebol apenas alguns meses antes, por iniciativa de Carlinhos Michels, professor de Educação Física do Colégio Estadual Manoel da Nóbrega e do Ginásio São José. Treináramos, se tanto, uns quatro meses, o suficiente para conhecer a fundo as regras. Como nos Jasc a modalidade era recente, pudemos entrar sem seletiva.
Foi minha segunda participação nos Jogos. Na anterior, 1973 em São Bento, fui reserva no time de vôlei; os adultos eram titulares e a piazada do Manoel formava o time de baixo. Nossa única função era servir de sparring nos treinos. Mas participamos, com orgulho, de toda a solenidade de abertura dos Jogos. Desfilamos uniformizados, alguns liberaram as glândulas lacrimais no juramento do atleta e, como era perto, curtimos os Jogos na totalidade. Em Criciúma, no ano seguinte, mais pompa na abertura, no estádio Heriberto Hülse. Minha última participação em Olimpíadas... Ops, Jasc... foi em 1975, Chapecó, com desfile no estádio Índio Condá.
Claro que todos sonhávamos com decisão, consagração... Voltar a Rio Negrinho com a medalha de ouro no peito, desfilar pela cidade, ganhar homenagens. Os Jasc eram a nossa Olimpíada. Ali, tínhamos as metas de vencer como pessoas e de honrar a bandeira da nossa cidade. Mesmo sem medalhas, cumprimos os objetivos, com certeza.

18/08/2016