No ar, Ademir Ramiro!
Há mais de 50 anos, um ex-quebrador de pedras, ajudante de
tintureiro e plantador de banana trocava instrumentos rudes por um mais
sofisticado: o microfone de uma emissora de rádio. Assim começava a carreira de
Ademir Ramiro, pseudônimo artístico de Ramiro Gregório da Silva, um dos
principais nomes da radiodifusão em Santa Catarina.
“Muita gente acha que nasci em Jaraguá, mas meu local de
nascimento, há 75 anos, foi Pomerode, quando a localidade pertencia ao
município de Blumenau”, conta Ramiro, admitindo hoje ser um joinvilense de
coração.
Criado na roça, teve pouca oportunidade de estudo: “Se hoje
Pomerode ainda é uma cidade pequena, imagine em 1935. Um dia chegou lá em casa
uma professora, pedindo um cantinho para morar. Meus pais cederam um aposento,
e ela começou a me alfabetizar. Foi ali que aprendi o básico, a juntar letras,
fazer contas”.
Mas nem deu tempo de seguir o processo de alfabetização,
pois a família se mudou para Massaranduba quando Ramiro tinha apenas 7 anos.
“Meu pai foi trabalhar na colheita de arroz, mas aquilo também não dava o
suficiente para sustentar a família, mesmo eu sendo filho único.”
A solução foi mudar-se novamente, agora para Jaraguá do Sul.
“Ali ficamos muitos anos, tanto que hoje há quem pense que eu nasci em
Jaraguá”, diz Ramiro, que acabou conseguindo vaga num dos melhores colégios da
cidade, graças à fibra dos pais. “Meus pais foram contratados pelo colégio dos
maristas, o São Luís, para trabalhar como zeladores. Em troca, ganharam um
cantinho para morar e eu consegui um lugar na sala de aula, lá no fundo, sem
uniforme. Como minha mãe trabalhava na horta do colégio, eu podia comer no
refeitório dos semi-internos, mas só depois que todos os outros terminassem.”
Sempre atento e esforçado, Ramiro logo começou a se destacar
e concluiu o primário (as quatro primeiras séries do atual ensino fundamental).
Aos 14 anos, era hora de procurar trabalho para ajudar no
orçamento doméstico. Depois de ser quebrador de pedra para fazer
paralelepípedos, jornaleiro, vendedor de peixe, auxiliar de tintureiro (o pai
abrira uma tinturaria) e plantador de banana, Ramiro tirou a “carteira de
menor”, um documento que permitia a menores de idade trabalhar com registro.
“Fui trabalhar na Farmácia Schulz, como auxiliar, aprendi a manipular remédios,
depois ajudei na construção do novo prédio do Colégio São Luís e consegui um
emprego na fábrica de calçados Gosh, uma das maiores do estado na época.” Na
Gosh, Ramiro começou montando chinelos e, sempre curioso e interessado,
aprendeu a montar sapatos.
Fora de casa
Por conta de um namoro não aceito pela família, Ramiro foi
morar em Curitiba, com uma irmã mais velha, do primeiro casamento do pai. E
surgiu o rádio na vida do jovem. “Fui trabalhar no escritório de uma fábrica de
cimento e numa importadora. Nos finais de semana, a diversão era assistir aos
programas de auditório das rádios Guairacá e Clube Paranaense, a B2.”
De tanto ir aos programas, Ramiro encasquetou que iria ser
cantor. As tentativas foram um desastre total. Mas renderam uma nova carreira:
“Num dos fracassos, um profissional da Guairacá sugeriu que eu tentasse a
carreira de locutor, pois tinha uma boa voz”. A partir dali, os empregos
formais ganharam a companhia de outro, de fim de semana, como locutor de
comerciais nos intervalos dos programas de auditório. Pela primeira vez, a voz
de Ramiro ia ao ar.
Corria o ano de 1952, e Ramiro tinha certeza que encontrara
seu caminho. O desafio, agora, era voltar a Jaraguá do Sul, pois a capital
paranaense não o atraía. “Só me chamavam de ‘catarina’ por lá. Encheu o saco!”
Decidido, Ramiro escreveu para a Rádio Jaraguá, teve
resposta afirmativa e voltou para casa. Foi recebido como celebridade, pois era
‘aquele locutor que vem de Curitiba’. Até admitir que sua experiência era
mínima e de celebridade não tinha nada. “No início, pastei muito, pois o
diretor da rádio só me largava os pepinos. Afinal, eu era só o ‘filho do Zé
Gregório’.” Novamente, o esforço rendeu frutos. Ramiro começou a cobrir as
ausências dos colegas entretidos em conversas no boteco, organizou a discoteca,
se interessou em aprender os macetes técnicos da rádio e ganhou o mais
necessário: respeito. Junto, a apresentação de um programa de dedicatórias
musicais (que na época eram pagas).
Para o Vale do Itajaí
Na estação ferroviária de Jaraguá, enquanto se juntava a
tanta gente que ia ver a chegada do trem, Ramiro acabou recebendo mais um
convite. “Um radialista que eu conhecia disse que estavam em busca de alguém
para tocar uma nova rádio em Indaial.” Convencido, lá foi Ramiro para o Vale do
Itajaí. Entrou numa fria, pois o tal radialista já deixara uma fama de picareta
por aquelas bandas.
Mesmo assim, Ramiro ficou, trabalhou duro na instalação da
Rádio Clube de Indaial, depois foi para a sede da emissora em Blumenau,
levantou a Rádio Sentinela do Vale de Gaspar e trabalhou na Araguaia de
Brusque, todas da Coligadas, que também tinha uma televisão em Blumenau.
Ali, nas cidades do Vale, Ramiro Gregório da Silva começou a
inscrever seu nome na história da radiodifusão catarinense. A boa voz, a
comunicação fácil e bom texto se aliaram aos conhecimentos técnicos, que lhe
permitiam projetar e comprar os melhores equipamentos. “Só não levantei
antenas, mas aprendi a fazer isoladores muito bons”, garante.
A vez de Joinville
A fama de Ramiro Gregório da Silva, ou “Ademir Ramiro”, nome
artístico que adotara ainda em Jaraguá, para não ser chamado de “filho do Zé
Gregório”, começava a se espalhar. Por isso, certo dia apareceu no estúdio da
Araguaia, em Brusque, o radialista joinvilense Jota Gonçalves, diretor da Rádio
Difusora, que fora cobrir um jogo. “O Jota me lançou um desafio respeitável:
montar uma nova rádio em Joinville. Mas deveria ser uma emissora diferente, a
começar pelo nome, Cultura.”
Mais uma vez, o “filho do Zé Gregório” topou a parada. A
essa altura já casado com Lola, uma guaramirense que conheceu em Jaraguá,
Ramiro foi morar nos fundos de onde seria a Rádio Cultura, na rua Itajaí. Neste
momento da entrevista, a própria Lola, sempre por perto, enriquece o relato: “Bem
no começo, quando o Ramiro estava na locução, eu ajudava na operação. E
vice-versa”.
Resumindo, Ramiro tirou a Rádio Cultura de um projeto no
papel, transformando-a numa das mais importantes emissoras do estado.
“Utilizamos muitos equipamentos doados pela Difusora, algumas lojas também
ajudavam. Mas conseguimos colocar a rádio no ar.” O resultado já é conhecido do
público de Joinville e cidades da região.
Chega de rádio!
Qual o motivo desse intertítulo aí em cima? “Em 1961,
aceitei um convite da Fundição Tupy para trabalhar como vendedor em São Paulo.
Decidi largar o rádio e me dedicar à nova carreira.” Foram três anos morando em
São Paulo e vendendo as conexões da Tupy.
Mas...
Na capital paulista, Ramiro associou-se a um clube formado
por catarinenses, e ficou encarregado da divulgação das atividades da entidade.
Uma das tarefas era distribuir notícias, nos finais de semana, nos jornais e
rádios da cidade. A história se repete. “Rapaz, você tem voz boa para rádio.
Não quer fazer um teste?” Isso foi na Rádio Nacional. E lá foi Ramiro de volta
para o ninho, trabalhando durante o dia na Tupy e à noite na rádio. Lá também
aprendeu a redigir documentários para a televisão e o cinema. “Como eu tinha
nome e pseudônimo, ganhava cachê duplo”, conta, entre risos.
Meu negócio é rádio
Em 1964, a Tupy perdia um vendedor esforçado, mas o rádio
catarinense ganhava um dos seus grandes nomes. Ramiro Gregório da Silva deixava
de lado o “Ademir Ramiro” e retornava a Joinville, para assumir a direção e
cotas de sócio na Rádio Cultura. “Ali fiquei 21 anos, os melhores de minha
vida. Consegui trazer muitos profissionais gabaritados, descobrimos talentos
locais, fizemos uma rádio de qualidade.”
Da época da Cultura, Ramiro começa a lembrar nomes destes
talentos. Mas logo pede para não citar na reportagem, receoso de esquecer
algum. E tem motivo para não desafiar a memória: “Há alguns anos, nossa casa em
Barra Velha foi assaltada por dois homens, provavelmente drogados. Eles nos agrediram,
foram muito violentos, aquilo foi traumático. O episódio deixou falhas na
memória”. Hoje, Ramiro não tem mais a casa na praia, ocupa um confortável
apartamento no centro da cidade e curte a aposentadoria.
Antes de chegar a esse estágio, porém, teve anos profícuos
de trabalho, seja em rádios, como Difusora, Colon, Floresta Negra (hoje Mais
FM), Udesc e Aquarela de Barra Velha, seja como dono de uma agência de
propaganda ou como mestre de cerimônias da Acij (onde ficou trinta anos).
Também atuou na vida pública, como secretário de Turismo de Joinville e de
Barra Velha, e como vereador. Atuante na profissão, também foi um defensor dos
interesses da classe, tendo ocupado a presidência da Associação Catarinense de
Emissoras de Rádio e Televisão – Acaert – no período 1983-84. Hoje, ainda
acompanha a evolução da radiodifusão, como conselheiro da entidade. Outra de
suas paixões, o turismo, o levou a ser associado e conselheiro da Associação
Brasileira de Jornalistas Especializados em Turismo, a Abrajet, pela qual
viajou pelo país inteiro. Organizador de feiras, montou a Famosc, Feira de
Amostras de Santa Catarina, que se transformou na Expoville, e trabalhou na
Alemanha e no Chile montando eventos.
No apartamento que ocupa com Lola e a filha Marlise, Ramiro tem
uma ampla vista da cidade, inclusive para o Centreventos Cau Hansen, onde
trabalhou até o fim da gestão Tebaldi, na assessoria de imprensa da Fundação
Cultural. A outra filha, Lucienne, deu ao casal os netos João Guilherme e João
Gabriel.
A mesa de centro na sala é pequena para acomodar tantos
troféus, medalhas, placas e diplomas ganhos por Ramiro durante sua carreira. Da
Ordem da Machadinha dos bombeiros de Joinville até a comenda concedida pela
Sociedade Nacional do Mérito Cívico, que diz, no diploma: “...pelos dotes de
civismo, mérito de honra e dignidade e alto espírito filantrópico, que adornam
a sua personalidade”.
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Jingle vira hino
O amor de Ramiro Gregório da Silva por Joinville transparece
em seu modo de ser e de olhar para a cidade. Uma das provas desta devoção está
no próprio hino, composto pelo músico Cláudio Alvim “Zininho” Barbosa, de
Florianópolis. “Na época, início dos anos 70, precisávamos de uma música para a
Festa das Flores. Aí, junto com o Ildo Campelo, contratamos o Zininho. Eu fiz o
esboço da letra, Zininho fez as devidas adaptações para que coubesse em sua
melodia, e surgiu a música. Mas ela foi tão tocada nos anos seguintes, que se
tornou um hino informal, já que a cidade não tinha um oficial.”
Como logo em seguida surgiu o JEC, a torcida também adotou o
tal jingle. Em 1977, enfim, o então prefeito Luiz Henrique da Silveira decretou
que aquele seria o hino oficial de Joinville. Ramiro lembra que o mesmo se deu
em Florianópolis: “Zininho compôs o ‘Rancho de Amor à Ilha’ como uma homenagem.
Virou hino oficial da capital”.
Com a palavra
“Conheci Ramiro há mais de trinta anos, quando ele comandava
a Rádio Cultura. Na época, como presidente da Boa Vista Seguros, lançamos um
programa que marcou época, dedicado a evidenciar os líderes de Joinville e
região. Ramiro é um profissional entusiasta, sério e competente, com
credenciais fortes em favor da comunidade joinvilense, conhecedor de tudo a
respeito da região. Convivi com ele e testemunhei seus conhecimentos e seu
entusiasmo pela radiodifusão. É um grande comunicador e líder de classe.
Cidadãos como Ramiro engrandecem a radiodifusão catarinense. Joinville está de
parabéns por contar com um gentleman como Ramiro.”
Mário Petrelli, diretor presidente da RIC Record Santa
Catarina
“Ramiro sempre foi entusiasmado por tudo que envolva o
rádio. Ele foi o responsável pela qualidade do som da Rádio Cultura, e muitas
coisas que ele instalou ainda utilizamos.”
João Samuel de Oliveira, o Samuca, operador e apresentador
na Cultura
“Nasci radialista, estava no sangue, mas meu pai não queria
que eu seguisse a profissão. Só depois que ele conheceu o Ramiro, permitiu que
eu continuasse, pois ele viu neste profissional, assim como todos que o
conhecem, um exemplo de caráter e competência.”
Osman Lincoln, radialista e produtor
“Ramiro é uma raridade, admirável pela sua dedicação à
radiofonia e às amizades, como a minha, de mais de cinquenta anos.”
Carlos Adauto Vieira, advogado, escritor e jornalista
(Matéria publicada em maio/2010 no jornal Notícias do Dia)