sexta-feira, 21 de julho de 2017

Dumont vai à Lua

É certo que o mineiro Alberto Santos Dumont voou alto e longe, mas nada além da torre Eiffel. Só traço o paralelo com nosso satélite natural devida a uma coincidência de datas: Dumont nasceu, na então localidade de Palmira (rebatizada com o nome do inventor), no dia 20 de julho de 1873; exatos 96 anos depois, no 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Buzz Aldrin chegavam ao ponto mais distante alcançado pelo ser humano, a Lua.
Aliás, dizqui os norte-americanos emputeceram-se ao saber da coincidência, alardeada por uns mineirinhos que viviam em Houston na época. Os ianques, claro, prefeririam ter agendado a primeira alunissagem para os dias 16 de abril ou 30 de maio, aniversários, respectivamente, dos manos Wilbur e Orville Wright, considerados – por eles – os verdadeiros inventores do avião. Só que descer na Lua não é só uma questão de agenda; há toda uma logística e milhares de cálculos envolvidos na tarefa.
Bem, aforante os dizqui-dizqui, o fato é que pra nós, brazucas, ficou fácil memorizar as efemérides. Quem desconhece a data de nascimento de Santos Dumont, associa à conquista da lua; e vice-versa.
Ah, mais uma informação relevante: Dumont morreu três dias após comemorar 59 anos de idade. Estava internado num hospital no Guarujá, litoral paulista, com a saúde bem débil.
Conheci Santos Dumont de duas formas. Primeiro, nas aulas de História nos primeiros anos do primário, no Educandário Santa Teresinha, em Rio Negrinho. As irmãs-professoras nem citavam os irmãos Wright, pois nosso conterrâneo era o inventor do avião, o pai da aviação, e ponto final. Só no ginásio o professor Kormann nos informou da polêmica. Segundo, na nota de 10.000 cruzeiros. Ter um “dumont” nos idos anos 60 era sinal de riqueza, quase como ter uma “garoupa” nos atuais dias de real. Eu acho que nunca fui dono de uma dessas, que só via no dia 10 de cada mês, quando meu pai, meu avô e meus tios recebiam o pagamento na Móveis Cimo; o salário vinha em grana viva, dentro do envelope hoje chamado holerite. Eu ganhava às vezes um “cabral”, que a nota de 100 cruzeiros estampava. Quando a inflação começou a corroer o dinheiro, as novas notas e as reformas monetárias gastaram quase toda a galeria de heróis da História do Brasil. No dia do meu casamento, um primo deu um “barão” por um pedaço da minha gravata. Grana preta! (depois me contaram que ele pegou troco, o unha-de-fome)
Na noite de 20 de julho de 1969 estávamos vidrados na imagem preto-e-branco, cheia de interferência, da transmissão ao vivo da missão Apolo XI. Pai e tios preferiram ir ver com os amigos, no boteco, entre uma tacada e outra. Meu diadek e eu éramos os mais atentos. Acho que esperávamos assistir a algo parecido com as aventuras da família Robinson a bordo da Júpiter II, no seriado Perdidos no Espaço. Era, então, meio frustrante ver aquela imagem desfocada e muito repetida, com as vozes dos astronautas e do pessoal de Houston ao fundo. De qualquer forma, foi emocionante ver enfim as sapatas do módulo lunar afofando o solo.

Até hoje há quem duvide da veracidade das missões à Lua. De minha parte, sempre acreditei piamente, e tinha a expectativa de um dia participar de uma delas, como cronista (mas pô! Só levavam cientistas e astronautas profissionais, nunca foi um jornalista, que eu saiba). Se pudesse ter ido, arranjaria uma nota de 10.000 cruzeiros com um colecionador e deixaria lá na Lua. Só pra mostrar quem é o pai da aviação!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

No ar, Ademir Ramiro!

Há mais de 50 anos, um ex-quebrador de pedras, ajudante de tintureiro e plantador de banana trocava instrumentos rudes por um mais sofisticado: o microfone de uma emissora de rádio. Assim começava a carreira de Ademir Ramiro, pseudônimo artístico de Ramiro Gregório da Silva, um dos principais nomes da radiodifusão em Santa Catarina.


“Muita gente acha que nasci em Jaraguá, mas meu local de nascimento, há 75 anos, foi Pomerode, quando a localidade pertencia ao município de Blumenau”, conta Ramiro, admitindo hoje ser um joinvilense de coração.
Criado na roça, teve pouca oportunidade de estudo: “Se hoje Pomerode ainda é uma cidade pequena, imagine em 1935. Um dia chegou lá em casa uma professora, pedindo um cantinho para morar. Meus pais cederam um aposento, e ela começou a me alfabetizar. Foi ali que aprendi o básico, a juntar letras, fazer contas”.
Mas nem deu tempo de seguir o processo de alfabetização, pois a família se mudou para Massaranduba quando Ramiro tinha apenas 7 anos. “Meu pai foi trabalhar na colheita de arroz, mas aquilo também não dava o suficiente para sustentar a família, mesmo eu sendo filho único.”
A solução foi mudar-se novamente, agora para Jaraguá do Sul. “Ali ficamos muitos anos, tanto que hoje há quem pense que eu nasci em Jaraguá”, diz Ramiro, que acabou conseguindo vaga num dos melhores colégios da cidade, graças à fibra dos pais. “Meus pais foram contratados pelo colégio dos maristas, o São Luís, para trabalhar como zeladores. Em troca, ganharam um cantinho para morar e eu consegui um lugar na sala de aula, lá no fundo, sem uniforme. Como minha mãe trabalhava na horta do colégio, eu podia comer no refeitório dos semi-internos, mas só depois que todos os outros terminassem.”
Sempre atento e esforçado, Ramiro logo começou a se destacar e concluiu o primário (as quatro primeiras séries do atual ensino fundamental).
Aos 14 anos, era hora de procurar trabalho para ajudar no orçamento doméstico. Depois de ser quebrador de pedra para fazer paralelepípedos, jornaleiro, vendedor de peixe, auxiliar de tintureiro (o pai abrira uma tinturaria) e plantador de banana, Ramiro tirou a “carteira de menor”, um documento que permitia a menores de idade trabalhar com registro. “Fui trabalhar na Farmácia Schulz, como auxiliar, aprendi a manipular remédios, depois ajudei na construção do novo prédio do Colégio São Luís e consegui um emprego na fábrica de calçados Gosh, uma das maiores do estado na época.” Na Gosh, Ramiro começou montando chinelos e, sempre curioso e interessado, aprendeu a montar sapatos.

Fora de casa

Por conta de um namoro não aceito pela família, Ramiro foi morar em Curitiba, com uma irmã mais velha, do primeiro casamento do pai. E surgiu o rádio na vida do jovem. “Fui trabalhar no escritório de uma fábrica de cimento e numa importadora. Nos finais de semana, a diversão era assistir aos programas de auditório das rádios Guairacá e Clube Paranaense, a B2.”
De tanto ir aos programas, Ramiro encasquetou que iria ser cantor. As tentativas foram um desastre total. Mas renderam uma nova carreira: “Num dos fracassos, um profissional da Guairacá sugeriu que eu tentasse a carreira de locutor, pois tinha uma boa voz”. A partir dali, os empregos formais ganharam a companhia de outro, de fim de semana, como locutor de comerciais nos intervalos dos programas de auditório. Pela primeira vez, a voz de Ramiro ia ao ar.
Corria o ano de 1952, e Ramiro tinha certeza que encontrara seu caminho. O desafio, agora, era voltar a Jaraguá do Sul, pois a capital paranaense não o atraía. “Só me chamavam de ‘catarina’ por lá. Encheu o saco!”
Decidido, Ramiro escreveu para a Rádio Jaraguá, teve resposta afirmativa e voltou para casa. Foi recebido como celebridade, pois era ‘aquele locutor que vem de Curitiba’. Até admitir que sua experiência era mínima e de celebridade não tinha nada. “No início, pastei muito, pois o diretor da rádio só me largava os pepinos. Afinal, eu era só o ‘filho do Zé Gregório’.” Novamente, o esforço rendeu frutos. Ramiro começou a cobrir as ausências dos colegas entretidos em conversas no boteco, organizou a discoteca, se interessou em aprender os macetes técnicos da rádio e ganhou o mais necessário: respeito. Junto, a apresentação de um programa de dedicatórias musicais (que na época eram pagas).

Para o Vale do Itajaí

Na estação ferroviária de Jaraguá, enquanto se juntava a tanta gente que ia ver a chegada do trem, Ramiro acabou recebendo mais um convite. “Um radialista que eu conhecia disse que estavam em busca de alguém para tocar uma nova rádio em Indaial.” Convencido, lá foi Ramiro para o Vale do Itajaí. Entrou numa fria, pois o tal radialista já deixara uma fama de picareta por aquelas bandas.
Mesmo assim, Ramiro ficou, trabalhou duro na instalação da Rádio Clube de Indaial, depois foi para a sede da emissora em Blumenau, levantou a Rádio Sentinela do Vale de Gaspar e trabalhou na Araguaia de Brusque, todas da Coligadas, que também tinha uma televisão em Blumenau.
Ali, nas cidades do Vale, Ramiro Gregório da Silva começou a inscrever seu nome na história da radiodifusão catarinense. A boa voz, a comunicação fácil e bom texto se aliaram aos conhecimentos técnicos, que lhe permitiam projetar e comprar os melhores equipamentos. “Só não levantei antenas, mas aprendi a fazer isoladores muito bons”, garante.

A vez de Joinville

A fama de Ramiro Gregório da Silva, ou “Ademir Ramiro”, nome artístico que adotara ainda em Jaraguá, para não ser chamado de “filho do Zé Gregório”, começava a se espalhar. Por isso, certo dia apareceu no estúdio da Araguaia, em Brusque, o radialista joinvilense Jota Gonçalves, diretor da Rádio Difusora, que fora cobrir um jogo. “O Jota me lançou um desafio respeitável: montar uma nova rádio em Joinville. Mas deveria ser uma emissora diferente, a começar pelo nome, Cultura.”
Mais uma vez, o “filho do Zé Gregório” topou a parada. A essa altura já casado com Lola, uma guaramirense que conheceu em Jaraguá, Ramiro foi morar nos fundos de onde seria a Rádio Cultura, na rua Itajaí. Neste momento da entrevista, a própria Lola, sempre por perto, enriquece o relato: “Bem no começo, quando o Ramiro estava na locução, eu ajudava na operação. E vice-versa”.
Resumindo, Ramiro tirou a Rádio Cultura de um projeto no papel, transformando-a numa das mais importantes emissoras do estado. “Utilizamos muitos equipamentos doados pela Difusora, algumas lojas também ajudavam. Mas conseguimos colocar a rádio no ar.” O resultado já é conhecido do público de Joinville e cidades da região.

Chega de rádio!

Qual o motivo desse intertítulo aí em cima? “Em 1961, aceitei um convite da Fundição Tupy para trabalhar como vendedor em São Paulo. Decidi largar o rádio e me dedicar à nova carreira.” Foram três anos morando em São Paulo e vendendo as conexões da Tupy.
Mas...
Na capital paulista, Ramiro associou-se a um clube formado por catarinenses, e ficou encarregado da divulgação das atividades da entidade. Uma das tarefas era distribuir notícias, nos finais de semana, nos jornais e rádios da cidade. A história se repete. “Rapaz, você tem voz boa para rádio. Não quer fazer um teste?” Isso foi na Rádio Nacional. E lá foi Ramiro de volta para o ninho, trabalhando durante o dia na Tupy e à noite na rádio. Lá também aprendeu a redigir documentários para a televisão e o cinema. “Como eu tinha nome e pseudônimo, ganhava cachê duplo”, conta, entre risos.

Meu negócio é rádio

Em 1964, a Tupy perdia um vendedor esforçado, mas o rádio catarinense ganhava um dos seus grandes nomes. Ramiro Gregório da Silva deixava de lado o “Ademir Ramiro” e retornava a Joinville, para assumir a direção e cotas de sócio na Rádio Cultura. “Ali fiquei 21 anos, os melhores de minha vida. Consegui trazer muitos profissionais gabaritados, descobrimos talentos locais, fizemos uma rádio de qualidade.”
Da época da Cultura, Ramiro começa a lembrar nomes destes talentos. Mas logo pede para não citar na reportagem, receoso de esquecer algum. E tem motivo para não desafiar a memória: “Há alguns anos, nossa casa em Barra Velha foi assaltada por dois homens, provavelmente drogados. Eles nos agrediram, foram muito violentos, aquilo foi traumático. O episódio deixou falhas na memória”. Hoje, Ramiro não tem mais a casa na praia, ocupa um confortável apartamento no centro da cidade e curte a aposentadoria.
Antes de chegar a esse estágio, porém, teve anos profícuos de trabalho, seja em rádios, como Difusora, Colon, Floresta Negra (hoje Mais FM), Udesc e Aquarela de Barra Velha, seja como dono de uma agência de propaganda ou como mestre de cerimônias da Acij (onde ficou trinta anos). Também atuou na vida pública, como secretário de Turismo de Joinville e de Barra Velha, e como vereador. Atuante na profissão, também foi um defensor dos interesses da classe, tendo ocupado a presidência da Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão – Acaert – no período 1983-84. Hoje, ainda acompanha a evolução da radiodifusão, como conselheiro da entidade. Outra de suas paixões, o turismo, o levou a ser associado e conselheiro da Associação Brasileira de Jornalistas Especializados em Turismo, a Abrajet, pela qual viajou pelo país inteiro. Organizador de feiras, montou a Famosc, Feira de Amostras de Santa Catarina, que se transformou na Expoville, e trabalhou na Alemanha e no Chile montando eventos.
No apartamento que ocupa com Lola e a filha Marlise, Ramiro tem uma ampla vista da cidade, inclusive para o Centreventos Cau Hansen, onde trabalhou até o fim da gestão Tebaldi, na assessoria de imprensa da Fundação Cultural. A outra filha, Lucienne, deu ao casal os netos João Guilherme e João Gabriel.
A mesa de centro na sala é pequena para acomodar tantos troféus, medalhas, placas e diplomas ganhos por Ramiro durante sua carreira. Da Ordem da Machadinha dos bombeiros de Joinville até a comenda concedida pela Sociedade Nacional do Mérito Cívico, que diz, no diploma: “...pelos dotes de civismo, mérito de honra e dignidade e alto espírito filantrópico, que adornam a sua personalidade”.



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Jingle vira hino

O amor de Ramiro Gregório da Silva por Joinville transparece em seu modo de ser e de olhar para a cidade. Uma das provas desta devoção está no próprio hino, composto pelo músico Cláudio Alvim “Zininho” Barbosa, de Florianópolis. “Na época, início dos anos 70, precisávamos de uma música para a Festa das Flores. Aí, junto com o Ildo Campelo, contratamos o Zininho. Eu fiz o esboço da letra, Zininho fez as devidas adaptações para que coubesse em sua melodia, e surgiu a música. Mas ela foi tão tocada nos anos seguintes, que se tornou um hino informal, já que a cidade não tinha um oficial.”
Como logo em seguida surgiu o JEC, a torcida também adotou o tal jingle. Em 1977, enfim, o então prefeito Luiz Henrique da Silveira decretou que aquele seria o hino oficial de Joinville. Ramiro lembra que o mesmo se deu em Florianópolis: “Zininho compôs o ‘Rancho de Amor à Ilha’ como uma homenagem. Virou hino oficial da capital”.



Com a palavra

“Conheci Ramiro há mais de trinta anos, quando ele comandava a Rádio Cultura. Na época, como presidente da Boa Vista Seguros, lançamos um programa que marcou época, dedicado a evidenciar os líderes de Joinville e região. Ramiro é um profissional entusiasta, sério e competente, com credenciais fortes em favor da comunidade joinvilense, conhecedor de tudo a respeito da região. Convivi com ele e testemunhei seus conhecimentos e seu entusiasmo pela radiodifusão. É um grande comunicador e líder de classe. Cidadãos como Ramiro engrandecem a radiodifusão catarinense. Joinville está de parabéns por contar com um gentleman como Ramiro.”
Mário Petrelli, diretor presidente da RIC Record Santa Catarina

“Ramiro sempre foi entusiasmado por tudo que envolva o rádio. Ele foi o responsável pela qualidade do som da Rádio Cultura, e muitas coisas que ele instalou ainda utilizamos.”
João Samuel de Oliveira, o Samuca, operador e apresentador na Cultura

“Nasci radialista, estava no sangue, mas meu pai não queria que eu seguisse a profissão. Só depois que ele conheceu o Ramiro, permitiu que eu continuasse, pois ele viu neste profissional, assim como todos que o conhecem, um exemplo de caráter e competência.”
Osman Lincoln, radialista e produtor

“Ramiro é uma raridade, admirável pela sua dedicação à radiofonia e às amizades, como a minha, de mais de cinquenta anos.”
Carlos Adauto Vieira, advogado, escritor e jornalista


(Matéria publicada em maio/2010 no jornal Notícias do Dia)