sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A máquina do tempo

Duvido! Duvi-de-ó-dó! Duvido que tenha alguém, em qualquer parte do mundo, que jamais tenha imaginado uma viagem no tempo. De preferência ao passado. “Pra mudar algumas coisinhas...” direis. Por exemplo: ter sido mais ousado (ou ousada) nas tentativas de conquistar aquela (ou aquele) colega do ginásio por quem você era apaixonado (a); agora, vendo o antigo amor feliz da vida na indissolúvel (tá... tá... nem tanto) união do matrimônio, bate o arrependimento. Então você fica se recordando das tardes gostosas na sala de aula, olhando, olhando... Já na época, a maquininha do tempo lá no fundo do cérebro funcionava, mostrando imagens do futuro: vocês dois de mãos dadas no cinema, se casando ante as lágrimas das mamães, criando os filhos...
- Acorde!
Puxa, o professor desligou a máquina.
Agora, cabecinha encostada no travesseiro, lá vai você ao passado, analisando o que fez de errado e planejando o que fará quando enfim puder fazer a viagem de volta.
Mas cuidado! Há coisas que é melhor não mudar.
Entremos no cinema.
“Questão de Tempo”, “Efeito Borboleta” (o primeiro, pois não vi o II e o III) e “O Som do Trovão” são filmes interessantes e bons sobre o tema.
Produção britânica de 2013, dirigida por Richard Curtis, “About Time” é uma comédia romântica com a seguinte sinopse: ao completar 21 anos, Tim (Domhnall Gleeson) é surpreendido com a notícia dada por seu pai (Bill Nighy) de que pertence a uma linhagem de viajantes no tempo. Ou seja, todos os homens da família conseguem viajar para o passado, bastando apenas ir para um local escuro e pensar na época e no local para onde desejam ir. Cético a princípio, Tim logo se empolga com o dom ao ver que seu pai não está mentindo. Sua primeira decisão é usar esta capacidade para conseguir uma namorada, mas logo ele percebe que viajar no tempo e alterar o que já aconteceu pode provocar consequências inesperadas. Entre elas... (tranquilo, não vou meter spoiler aqui, veja o filme).
“The Buterfly Efect” já se tornou um clássico moderno, ainda que tenha meros treze anos. Com direção de Eric Bress e J. Mackie Gruber, tem Ashton Kutcher interpretando um jovem que luta para esquecer fatos de sua infância. Para tanto ele volta ao passado. Porém, ao tentar consertar seus antigos problemas ele termina por criar novos, já que toda mudança que realiza gera consequências em seu futuro.
No terreno da ficção científica temos “O Som do Trovão”, de 2005, dirigido por Peter Hyams. Baseado em conto do grande escritor Ray Bradbury, gerou um bom filme. Também li uma versão em quadrinhos no saudoso gibi Kripta. Esse já é mais fantasioso, com tecnologia a favor da viagem no tempo, safári pré-histórico e suspense. Os “viajantes” precisam respeitar uma regra de ouro: só apreciar, sem interagir de maneira alguma com o ambiente do passado; até que alguém pisoteia um inseto...

Os três filmes citados têm em comum a mesma mensagem: mudar o passado pode provocar consequências inesperadas (geralmente negativas) no presente. Melhor seguir à risca o regulamento do organizador de passeios de “O Som do Trovão”: não mexa em nada, só olhe.
A revolta dos chocólatras

Meu Facebook anda bombando nesses dias, com uma doce polêmica iniciada pelo ilustre Milton Wendel sobre a qualidade dos chocolates nacionais. Wendel resume sua opinião com uma onomatopeia: blaaargh! Pra ele, nossa indústria chocolateira está simplificando sua produção num majoritário item: gordura vegetal hidrogenada. Jackson Borges acrescenta que “... a civilização ocidental é viciada em açúcar há mais de meio milênio. Em gordura vegetal há quase oitenta anos”. E por aí vai o debate, quase unânime na condenação do chocolate brasileiro ao fogo do inferno.
De minha parte, só posso concordar. Chocólatra de carteirinha, era voraz consumidor na infância. E, como os primeiros dezessete anos de vida eu passei em Rio Negrinho, tive o prazer de ter os produtos Buschle sempre à disposição, vindos ali da vizinha São Bento. A empresa não era nenhuma gigante nacional da indústria chocolateira, nem sequer despertava a cobiça das multinacionais Lacta e Nestlé. Mas fazia delícias que até hoje me enchem a boca de saliva só de lembrar.
Tinha o bombom recheado com licor, uma coisa do outro mundo. Chocolate crocante, um sabor bem característico. E o licor... Muita gente se lambuzava ao morder o pequeno bombom bem na metade, derramando o precioso recheio. A piazada conhecia o segredinho: morder só uma pontinha, entornar o líquido e arrematar com o chocolatinho inteiro. Comer um só? Nem pensar!
A Buschle também fazia o Beijo Baiano, que muito mais tarde descobri ser conhecido no Brasil como pão-de-mel. Mas o de São Bento era diferente, único, o tal pão era durinho, delicioso misturado com o chocolate que o recobria.
Havia o Pingue-Pongue, o tradicional amendoim recoberto com chocolate. Hoje, paga-se quase 5 pilas por um pacotinho minúsculo. Tem um da marca Dori que até é gostoso. Mas naquele tempo comprávamos o Pingue-Pongue da Buschle a granel, na venda do bairro. Ele ficava no baleiro, e era acondicionado num cone de papel que o dono da mercearia fazia na hora. Uma conchinha por 100 cruzeiros, duas por 180... Ou algo assim.
Por essa época do ano, mal passava o Dia das Crianças e as casas comerciais começavam a ser invadidas por hordas de papais noéis de chocolate da Buschle. Nos idos do século XX, o chocolate era tão tradicional no Natal quanto na Páscoa. Nos dois meses anteriores ao Natal, compravam-se papais noéis pequenos, só pra aguçar a gula. No dia 24 de dezembro, enfim, entre os presentes vinham mais chocolates, mas aí era a vez dos grandões, alguns duplamente embalados, com papel e plástico. A Garoto, ainda uma indústria do Espírito Santo, oferecia um noel enorme, finamente embalado em papel laminado, reprodução exata do Santa Claus que personificava São Nicolau. Era supimpa!.
No Natal, também, era a segunda ocasião no ano em que ganhávamos a delícia das delícias, o néctar dos deuses em forma de barra de chocolate: Urso Branco. Era uma barra-família de chocolate branco, de sabor inigualável, fabricada pela paulista Sönksen. A empresa foi fundada em São Paulo, em 1888, como uma pequena loja de doces, La Bombonière, por Alfredo Richter. Na virada para o século XX, Richter casou-se com Alwine Sophia Sönksen, mulher de forte visão empreendedora que desde o primeiro momento da união passou a colaborar ativamente com o marido na expansão da pequena empresa em uma grande casa comercial e industrial. Surgiu então a Sönksen. Entre ascensão, reinado e queda, a história da marca durou até 1983, ano da falência. Hoje, quem guardou uma das famosas latas de balas, tem um tesouro. (Leia mais sobre a Sönksen no site saopauloantiga.com.br, minha fonte aqui.)
Ah, uma barra de Urso Branco também era ganha na Páscoa, acompanhada da irmã Urso Marrom. Detalhe: esses eram presentes para toda a família, divididos entre os habitantes da casa. Na Páscoa, por sinal, prova de resistência era ainda ter algum chocolate natalino. E campeão era o piá que tinha um coelho da Buschle ainda escondido até o Natal. De marrom-chocolate, àquela altura já era branco-mofo; mas merecia ser devorado assim mesmo, e o irmão mais novo – ou primo, no meu caso – contentava-se com as orelhas.

Bons e doces tempos...

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Matinê com Jerry Lewis

“Neste domingo, na matinê, às 15 horas, ‘O Rei do Laço’, com Jerry Lewis e Dean Martin.”
Com o anúncio que abre essa crônica, faço duas homenagens. A óbvia, ao grande comediante Jerry Lewis, falecido neste 20 de agosto de 2017. Outra é à Rádio Rio Negrinho, que nessa sexta, dia 25, completa 69 anos de atividades; era nas ondas da velha e boa ZYR4 que o Cine Rio Negrinho anunciava suas atrações do fim de semana, há meio século.
Hoje em dia, lamento não encontrar na internet o sinal da rádio, ainda ausente dessa plataforma. Só a ouço, esporadicamente, quando visito minha terra. Não sei se alguém assumiu a Alvorada Sertaneja e o Ranchinho do Coroné, outrora apresentados por Severiano César, ou simplesmente o “Coroné César”, de saudosa memória. Era ele que, junto com os galos lá de casa e da vizinhança, tirava o povo da cama ao som da boa e original música caipira, antes de nascer o sol. Retornava no fim da tarde com seu Ranchinho, interrompido às 18 horas para a Ave-Maria. Despedia-se já com os primeiros acordes de “O Guarani”, anunciando a “Voz do Brasil”. Aos sábados podia ser encontrado com os amigos, batendo uma sinuca no Gibaco. Domingo à tarde, assistia aos jogos de futebol no Ipiranga, no Continental, no Vila Nova ou no Oméri.
Por falar em futebol, se não fosse possível ir ao jogo, bastava ligar o rádio e ouvir a inconfundível voz aguda de Sérgio Ferreira. Eu ainda não tinha o hábito de levar o radinho aos jogos, mas em algumas ocasiões o “Sebinho” permitia que eu subisse à única cabine do estádio Luiz Bernardo Olsen, de onde assistia à partida e ainda via seu trabalho. Se não houvesse jogo na cidade, a R4 entrava na Cadeia Verde-Amarela da Bandeirantes, transmitindo o principal prélio paulista. Saudade de Fiori Gigliotti: “Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo!”.
Nossas noites de antanho, sem televisão, eram preenchidas com leitura e a “Hora da Seresta” tocando belas páginas musicais. Pelas 23 horas a emissora saía do ar, retornando às 6 da manhã seguinte, com o Coroné. Sábado, ao meio-dia, “As Campeãs da Semana”, com as músicas mais pedidas pelos ouvintes durante os cinco dias anteriores – sempre por carta. O campeão, invariavelmente, o mesmo: Roberto Carlos do tempo da Jovem Guarda. Na programação musical, aliás, não havia música ruim. Tudo era bom e só as preferências variavam. Hoje… Não, melhor deixa; muita sofrência analisar o cenário musical brasileiro.
Cinema, três sessões: sábado e domingo à noite, logo após a missa (o horário oficial era 20h15, mas o Nono atrasava o filme se o padre se empolgasse na homilia); e domingo, a matinê (nunca matinal, claro, apesar do nome). Foi nas matinês que conheci Jerry Lewis, o cara que provocou alguns constrangimentos em crianças que não conseguiam segurar o xixi de tanto rir. Confesso: faltou pouco pra me molhar na cena da mangueira em “Bancando a Ama Seca”; nunca ri tanto na vida.
Ainda sem as aulas de inglês que só viriam na segunda série do ginásio, pronunciávamos “jérri lévis”. E seu parceiro era o “dean martím”. Nos filmes da dupla, o público só se impacientava quando o galã cantava; puxa, até hoje peço desculpas ao espírito de Dean Martin, uma das mais belas vozes do cenário artístico mundial. Agora, quando revejo algum filme da dupla, o olhar já não é simplesmente o da criança buscando diversão. Sempre que possível, desativo a legendagem, concentrando-me nas gagues de Lewis e nas canções românticas de Martin.
O melhor filme de Jerry Lewis? Há cinquenta anos eu responderia “O Rei do Laço”. Hoje, acompanho a crítica especializada e vou de “O Professor Aloprado”.
E por falar em comediante que deixa saudade, acrescento aqui uma sentida homenagem a um velho companheiro que nos deixou nesta quinta, dia 24: Stélio Ricardo Rosenstock. Uma tarde na redação de A Notícia, com Stélio diagramando, era garantia de criatividade e boas risadas.
Vayan con Diós, amigos.