terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ligue um livro!

Tenho visto nas redes sociais e escutado em conversas ao vivo uma reclamação constante sobre a falta de qualidade da televisão, de um modo geral. Um dia, é um velho amigo de infância que brada contra o besteirol de um tal de Faustão. Até pergunta se tem algum mecanismo pra tirar o som daquele berreiro. Outro estrila contra a baixa qualidade de um certo Zorra, que ataca sem dó os dogmas religiosos. E há os que vivem postando no WhatsApp as falsas notícias, seguidas do inevitável “…isso a Globo não dá…”. Affff… diria o Painho, inesquecível personagem de Chico City. Claro que a Globo não vai dar, assim como nenhuma emissora ou qualquer veículo de imprensa. Afinal, não há qualquer projeto de lei no Congresso prevendo a suspensão da CNH trinta dias após o vencimento. E outras “notícias bombásticas” do gênero.
Bem, faço aqui uma sugestão a todos que reclamam. Se você está nesse grupo, anote.
Primeiro, pegue aí no teu lado, no sofá ou na mesinha de centro, um aparelhinho eletrônico. Ele costuma ser retangular, mede uns 15 x 5 cm, geralmente é preto e tem um monte de botõezinhos coloridos. No canto superior, às vezes no direito, outras no esquerdo, há um botão vermelho. Sobre ele, acima ou abaixo – depende da marca do aparelho – há uma inscrição que varia do inglês POWER ao português LIGA/DESLIGA; também pode estar escrito ON/OFF ou simplesmente L/D. Aponte o aparelho para o outro, grandão, na estante ou no rack, onde há algo desagradável. Aperte o botão vermelho, com suavidade, pois é eletrônico, e… pufff! … lá se foi. O aparelho grandão se apaga, somem imagem e sons desagradáveis. Aquilo só volta se você apertar novamente o botãozinho vermelho.
Então, não se esqueça: enquanto o botão vermelho não for pressionado, você fica livre da aporrinhação.
Agora, o segundo passo. Vamos ligar outro equipamento. Antes, vejamos se esse você tem em casa. Dê uma campeada nas estantes, nos armários, baús e outros lugares onde você costuma colocar algo que não pretende mais usar. É um objeto também retangular, mas maior, tamanho médio de 21 x 14 cm. Em vez do preto pontilhado de botões multicores, esse quase sempre é colorido, e costuma ter ilustrações na tampa, indicando seu conteúdo. Os antigos o batizaram de LIVRO.
Se, por acaso, você não encontrar nenhum em casa, ainda há solução. Esse aparelho pode ser encontrado em locais chamados LIVRARIAS. Também há modelos compráveis em outros tipos de estabelecimentos comerciais. Eles custam bem menos que o aparelho grandão da tua sala. Há livrarias especializadas em equipamentos usados, são chamadas SEBOS. Ali são mais baratos que os novos, e a utilização é a mesmíssima.
Bueno, está com o aparelho em mãos? Vamos aprender a utilizá-lo. Não precisa cabo de energia, pilha nem qualquer fonte. No máximo, é só acender a luz se for usá-lo à noite. Para ligar, basta levantar a tampa e ir virando as folhas. Se não terminar todas as etapas de uma vez, utilize um pedaço de papel, uma foto, um santinho, uma fita ou qualquer outra coisa como marcador, para retomar a tarefa na próxima vez. Eu uso há alguns anos uma nota de 1 real; mas aceito se alguém me der uma de 100 dólares pra substituí-la.
Caso você não possa dispor agora do valor necessário para adquirir uns aparelhos desses, encontra quase de graça em outro lugar, chamado BIBLIOTECA. A diferença é que, nesse caso, você devolve após usar. Também tenho um monte deles aqui, posso te emprestar.
As vantagens do livro sobre a TV: você escolhe o que vai ver; adquire conhecimentos; viaja pelo Universo sem sair de casa; não se expõe à destruição dos neurônios; pode levá-lo pra onde quiser (já tentou carregar um televisor de 40 polegadas pra praia?). E tudo isso em silêncio...
Imagens da Max

Recém-chegado em Joinville, no já distante janeiro de 1979, nada conhecia da cidade. Das raras ocasiões anteriores que por aqui andara, pouco me restava na memória. Sabia que os Kursancew residiam perto da casa do bispo, pois por ali estivera duas vezes na infância, em temporadas de veraneio na casa da família na Enseada. E só!
Então, naquele longínquo janeiro, quente e úmido como só o verão de Joinville sabe ser, fiquei alguns dias hospedado com primos, enquanto aguardávamos a liberação da casa que ocuparíamos. Moravam Suely e Rogério com os filhos na rua Marquês de Olinda, lateral da Max Colin. Era uma via estreita, sem pavimentação, que começava na 15, ao lado do Bar Glória, e terminava justamente na residência dos primos, na subida de um morrote. Soube então que havia projeto de abrir a rua, cortando o morro, ligando-a à Benjamin Constant, uma centena de metros além.
Certa manhã, peguei carona até o Centro, disposto a dar uma zanzada. Afinal, a partir de então seria a “minha cidade”. Caminhei pela rua do Príncipe e imediações, quase sempre tendo dois pontos de referência: as palmeiras da alameda Brüstlein e o edifício Manchester, ambos se destacando na paisagem livre de altos prédios.
Perto do meio-dia, após tomar um mercedinho num bar chamado Interlagos – só pra matar a saudade de Sampa –, decidi voltar a pé. Minha referência era a rua Max Colin; então, ao encontrá-la, na confluência com a Orestes Guimarães, iniciei a caminhada. Bah! Achei que a Marquês de Olinda fosse logo ali.
A primeira quadra da Max tinha só algumas casas, a maioria antigas, bonitas e bem cuidadas. Dali em diante, uma característica sempre percebida: jardins, hortas e pomares cuidados com capricho. Hoje, o trecho inicial ainda mantém algumas casas, além de um prédio residencial de três andares. Por ali agora fica a Casa das Revistas que tanto frequentei quando era na 9 de Março.
A segunda quadra foi a que mais mudou nestes 38 anos e meio. Naquele tempo quase não havia edificações, só terrenos vazios e um boteco/lanchonete na esquina. Agora tem farmácia, lanchonete, igreja, lojas e a entrada lateral da Milium.
A quadra seguinte era mais movimentada, a da Prefeitura. Acho que o posto da esquina já existia. No mais, terrenos vazios servindo de estacionamento grátis. Ali ainda está o prédio que tanto frequentei nos anos que se seguiram, como repórter de “A Notícia”, entrevistando LHS, Freitag e Lula ou simplesmente batendo papo com os profissionais da assessoria de imprensa – diversos deles colegas também no jornal. Agora o prédio parece um fantasma a observar a cidade crescendo, lá dentro só vultos de tempos saudosos. No outro lado da rua tem Toten’s e pizza deliciosa. E um enorme edifício em construção. Uma antiga casa na esquina com a Blumenau foi reformada e virou um belo pub – será que dá pra entrar e tomar um mercedinho?
Naquele distante janeiro de 1979, levei cerca de meia hora pra percorrer as quadras seguintes, da Blumenau até a Marquês. Nenhum prédio, só casas antigas e seus belos jardins e um ou outro estabelecimento comercial. Entre eles o Mercado Boehm, com entrada pela rua Jaraguá. Parei ali e comprei um litro de caninha de Pirabeiraba e um saquinho de butiás pra curtir. Hoje, a edificação azul está à venda, resta a lembrança do primeiro supermercado a abrir aos domingos em Joinville. A viúva do Getúlio continua morando lá.
Ao chegar em frente ao Ginásio Ivan Rodrigues, perguntei a um passante se a Marquês de Olinda ainda estava longe. “Capaz! É loguinho ali na frente.” Ufa!
Nosso velho ginásio de esportes permanece, outro fantasma aguardando… O quê? Restauração? Demolição? No outro lado da rua, não verei mais a fileira de ipês amarelos que coloria a fachada da Impressora Ipiranga. A revenda de carros precisou de espaço. Pena, eu curtia a caminhada, em setembro, sob e sobre a camada de flores (Joinville ainda te agradece de coração, Eli Francisco).
Hoje há prédios ao longo da Max, uma grande padaria/confeitaria/cafeteria, as quadras de tênis do Hoppe, lotérica, parque etílico-gastronômico, as ambulâncias do Samu… Algumas coisas permanecem desde aquele verão de 79, como a residência onde a dona recheia a pitangueira com outras frutas, atraindo a passarada. O já citado ginásio de esportes. E a subestação da Celesc.
Aleluia! Cheguei na Marquês. Lá em 79, ao lado da Celesc não havia construções. No lado direito, algumas casas que ainda resistem: os Jahn já não estão mais; frau Schramm continua. Seu Freitag abriu e asfaltou a Marquês. A Akros virou Amanco e construiu o depósito/expedição, a casa dos meus primos não existe mais, tem pet shop/veterinária e dois grandes terrenos vazios, que enxergo da janela. Pois é, há vinte anos moro aqui, bem no trevo da Benjamin com a Marquês.
Às vezes ainda consigo retirar das gavetas da memória algumas imagens da velha Max Colin. São belas fotos…