quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Do Cine Rio Negrinho ao Netflix

Por estes dias de início de fevereiro tomei um susto ao passar na esquina das ruas Pedro Lobo e Senador Felipe Schmidt, no Centro de Joinville, ao não ver os cartazes tomando as paredes da locadora Magic Home Vídeo. Será que o Jorge fechou as portas? Se fechasse, seria mais um ícone do passado se apagando. Mas não. Mal postei uma nota no Face, já esclareceram que era uma simples troca de cartazes antigos.
Aliviou-me, mas ainda assim fiquei encafifado, remoendo o tema. Até quando as locadoras de vídeo vão resistir? Quantas ainda existem – e resistem – na cidade? Com tantas opções ao alcance do controle remoto, é inevitável que as locadoras se tornem obsoletas. Aliás, nem sei por onde anda meu DVD player; penso que curte a aposentadoria num armário por aqui. Prestou bons serviços, mas acho que ainda tinha muito gás pra gastar. Saiu cedo da ativa meu bom LG (comprado em 2004, junto com um televisor de 29 polegadas tela plana, da mesma marca; mal sabia eu que aquela conquista seria efêmera, pois os aparelhos de plasma logo aposentariam o velho tubo de imagem).
A velocidade da inovação na arte de ver filmes (sim, considero assistir cinema tão arte quanto criá-lo), lenta no século 20, disparou no 21. Assisti ao primeiro filme da minha vida lá pelos 7 anos de idade, uma das antigas películas de Tarzan, com o campeão olímpico Johnny Weissmüller na tanga do heroi. Foi no Cine Rio Negrinho, ainda novo com suas poltronas Cimo que lá permaneceram até o fim. Preto e branco, tela meio quadrada, som enlatado... Mas lá estava eu, piá abobado diante de um Tarzan em movimento (já o conhecia do gibi), soltando seu grito tribal e esfaqueando um crocodilo. Nos anos que se seguiram, todo filme com censura livre era garantia de estar toda a família no cinema. Lembro-me bem de uma matinê em que minha Babka me levou, num domingo à tarde. No meio do caminho, lá pela altura da estação ferroviária, Baba percebeu que se esquecera de calçar as “marias-moles”, um calçado feminino superconfortável que ela adorava. Como não daria tempo de voltar, foi de chinelos mesmo. O filme, não me recordo o título, era um drama francês musicado. Não entendemos lhufas; ela, por não saber ler em português; eu, por mal conhecer o a-e-i-o-u e não conseguir ler as rápidas legendas. Mesmo assim, divertimo-nos com as belíssimas canções interpretadas pelos franceses com seus acordeões.
Lá por 1968 entrou em nossa casa a televisão. Foi a segunda da rua, garantindo sala cheia todas as noites. No único canal disponível, as sessões de cinema limitavam-se ao fim da noite. Do que me vem rapidamente ao abrir as gavetas da memória, surge o filme “Acorrentados”, de 1958, com Sidney Poitier e Tony Curtis. Passou num sábado à noite, na estreia da sessão Cine Samrig, na TV Paraná canal 6. A vantagem de ver cinema em casa: nada de censura (ainda que antes de todo programa surgisse na tela o velho certificado do departamento de Censura da Polícia Federal, com o alerta de idade; ignorado, claro). Desvantagem: tudo preto-e-branco e dublado (se bem que as dublagens, naquele tempo, eram muito bem feitas).
Depois vieram a TV em cores com a “Coruja Colorida”, a profusão de canais, filmes com som original e legendas etc. Mas nunca deixei de ir ao cinema, seja no Cine Rio Negrinho, nas salas de Curitiba no pouco tempo que passei lá, na miríade de cinemas de São Paulo e, finalmente, cá em Joinville dos tempos do Colon, do Palácio, do Chaplin e das salas de shoppings.
Na tela pequena, a novidade entrou em minha casa há exatos trinta anos, quando adquiri meu primeiro videocassete. Era um verdadeiro trambolho, enorme, um Panasonic daqueles com tampa em cima, comandos mecânicos e que vivia enguiçando. Antes de comprar o monstrengo, eu já me tornara cliente da locadora Hobby Tape. O velho Panasonic deu lugar a um mais moderno, da mesma marca mas também usado, e depois a outro zero bala. Aí sim, estava como eu queria: escolher o filme na prateleira da locadora, assistir na hora que quisesse e sempre com som original e legendas. Sexta-feira era dia de pegar seis ou sete títulos pra se esbaldar. Ressalvo: nunca deixando de ir ao cinema.
Em 1997 assinei a NET, em princípio o pacote básico, com Fox, TNT, Warner... Algum tempo depois estendi o pacote para a rede Telecine. E um dia a operadora me presenteou com o HBO. Bem, não me lembro quando fui ao cinema pela última vez.
Em 2004 adquiri o DVD player, junto com o televisor 29 tela plana. Há uns dois anos, entrou aqui uma TV LCD 32 polegadas.
O mais recente avanço na arte de ver cinema fica por conta dos serviços de streaming, simbolizados pelo Netflix. Foram os responsáveis pela precoce aposentadoria do meu DVD. Na internet assisto no momento a três séries: a fresquinha “Santa Clarita Diet” e a não tão nova “American Horror Story”, ambas na Netflix; e, pra relembrar a já distante TV a tubo, revejo “Perdidos no Espaço” (sempre às sextas, como antigamente). Filmes... Bah, guri! Neste mês os temas que elegi são “melhores filmes do Oscar desde a primeira edição” e “Primeira Guerra Mundial”. Pode ser no próprio televisor, na grade da NET, ou no computador, em streaming.

Mas admito: tenho saudade das salas de cinema e da locadora...