sexta-feira, 6 de abril de 2018


Parabéns, professora!

Calma, não tô me adiantando, sei que o Dia do Professor é só 15 de outubro. Naquela data, com quase certeza, escreverei uma crônica a respeito do tema. É que hoje, 4 de abril, quando escrevo esse texto, minha agenda marca o aniversário da professora Marília, uma das minhas mestras no ginásio. Ao cumprimentá-la, não tenho como não passar o dedo no cantinho do olho, onde uma furtiva gotinha desceria face abaixo.
E por que o acesso de nostalgia?
Ora, primeiro porque sou saudosista mesmo, quem me lê sabe disso. Não que me apegue ao passado, mas não gosto de esquecê-lo, por tudo que representa e pelas lições aplicadas no presente.
Marília, nascida lá no Sul do estado e tornada rio-negrinhense quando o marido Pedrinho Berkenbrock assumiu a direção do Ginásio São José, compunha um time de professores que marcou a história de Rio Negrinho. Eles começaram a entrar em minha vida em março de 1968, no primeiro dia de aula no curso ginasial (correspondente aos atuais últimos quatro anos do ensino fundamental). Eu saía do primário no Educandário Santa Teresinha, mantido por uma congregação religiosa, onde quatro freiras deram-me a base para tudo que viria depois.
Felizmente, tanto o primário quanto o ginásio funcionavam no mesmo prédio, pois lá a então CNEG – Campanha Nacional de Escolas Gratuitas –, hoje CNEC, arrendava todo o pavimento térreo para instalar o ginásio. Por isso, desci do segundo andar pro térreo, trocando o uniforme cáqui de marinheiro por um azul e branco (não era pra ser militar, mas tinha uma tirinha sobre o ombro da camisa, como em alguns uniformes). Aliás, no primeiro ano não havia uniforme, cada um ia como queria pra aula; foi em 1969 que o professor Pedrinho decidiu criar uma roupa padrão: calça azul, camisa branca com a tal dragona – ou algo assim – azul no ombro e blusa azul; nos pés, conga azul no dia-a-dia e branca no desfile de 7 de setembro. Já em 1970 a blusa foi substituída por uma japona azul-escuro, bem grossa pra suportar o frio da serra. E em 1971 saíram a camisa e a japona e entrou uma blusa amarela com o símbolo do ginásio em azul na frente. Esse uniforme perenizou-se, ganhando os acréscimos de camisa de mangas curtas e bermudas (já não se fazem invernos como antigamente, nem em Rio Negrinho).
Pois bem, retomando o fio da história... Enquanto no primário uma irmã dava todas as matérias pra cada classe, no ginásio tínhamos diversos professores, cada um encarregado de uma disciplina. Meus colegas de turma podem me ajudar a refrescar a memória, mas pelo que me lembro, Kormann dava História; Arnaldo, Matemática; Marília, Português; Pedrinho, Desenho; Íria, Canto Orfeônico; e Ciência, meus deuses, quem era o professor de Ciências? Ah, memória traiçoeira...
Ao longo dos quatro anos de ginásio, alguns mestres permaneceram, vieram outros – padre Otto no Inglês; Arete na Educação Artística; Marcos na Matemática; Valdir no Português; Edvino em Ciências; o Sargento na Educação Física – e o principal era que a qualidade só crescia. Soubemos, lá por 1970 ou 71, que o São José era considerado o melhor ginásio da rede cenecista no país. Eita, orgulho!
Alguns dos professores acompanharam parte da turma no Científico, já em outro colégio, o Estadual Manoel da Nóbrega. E dois ou três colegas enveredaram pelo sagrado ofício do magistério, dando aulas no nosso ginásio.
Aproveito, então, o aniversário da professora Marília (que nos ensinou a preciosa dica: acentuam-se as paroxítonas terminadas em lãnirux) para recordar e homenagear todos os professores a quem respondi “presente!” nos onze anos de escola. Anos que, garanto, foram imprescindíveis para formar o cidadão que sou hoje.
(E já vale essa crônica para o dia 15 de outubro)

quarta-feira, 4 de abril de 2018


Sorveteria Polar vai reabrir!

Que bom se fosse verdade, né? De preferência no mesmo endereço. Ainda peguei os estertores da famosa sorveteria quando cá aportei, em janeiro de 1979. Até o final do ano seguinte, tive o prazer de saborear algumas vezes o aclamado sorvete.
Pra quem não conhece, reaqueço matéria feita pela coleguinha Maria Cristina Dias no recém-extinto (mais um...) Notícias do Dia. A sorveteria foi fundada em 1935, por Adolfo Bernardo Schneider, guarda-livros por profissão e pesquisador da história de Joinville. No início, funcionava na rua Visconde de Taunay, quase na esquina com a rua 9 de Março, e mais tarde passou para a 15 de Novembro, ao lado da atual Casas Bahia. A casa tinha dois pavimentos e a família de Adalberto e Wally Koch morava no andar de cima. Embaixo ficava o estabelecimento comercial. Na frente, um jardim, com mesas cobertas por guarda-sóis, cerca baixa e um caramanchão florido por cima do portão. Na parte de dentro um balcão onde o próprio Adalberto Koch, ou Nene, como era conhecido, produzia sorvetes e chantili, com uma batedeira manual. Nos anos 60, 70, a Polar fazia parte do ritual da juventude, especialmente nos fins de semana. Os amigos se encontravam na sorveteria no final de tarde. Depois rumavam para o Cine Colon, o principal nesse período. Quando acabava a sessão, muitas vezes iam dançar em locais como o Clube 25, que ficava entre a rua 15 de Novembro e a 9 de Março, no último andar de um prédio. Fechou no final de 1980.
Citei ali no parágrafo anterior mais dois saudosos estabelecimentos, os cines Colon e Palácio. Vi muito filme bom ali – algumas bombas também, claro. O Colon, destruído por um incêndio, dedicava suas sessões a filmes mais cult. Já no Palácio, hoje sede da Igreja Universal, passava de tudo, de “Star Wars” aos pornôs dos anos 80 e 90.
Depois do cinema, dava pra jantar na Churrascaria Rex, na Pizzaria Casarão ou no Restaurante Mamma Mia. Outras opções? Tante Frida, Pinus, Sopp... Ou um chopinho no Gato Preto. Dançar? Sargentos, Gina, Floresta, Baturité, Rhariah...
Ah, e um chimarrãozinho com erva-mate fresquinha comprada no comércio de Fernando Tilp. Aliás, passando pela João Colin, percebi que as portas do Empório São Bento estão cerradas. Mais um que se foi.
Alguns desses estabelecimentos desapareceram há décadas, como a Polar. Outros, recentemente, como a não citada mas igualmente já saudosa Flora Hardt. São marcas de uma Joinville que continua escrevendo sua história. A questão é de adaptação. A Consul não ia bem das pernas? Venda-se, mas não se deixe morrer. Só que, no caso de uma grande indústria, há caminhos para se manter o negócio, ainda que sob nova direção. Mas uma coisa é fabricar geladeiras, outra é manter uma choperia num mercado superconcorrido; ou sustentar um Riachuelo, um Odivan, frente ao avanço das grandes redes.
Saudosista? Claro que sou, ora; quem lê minhas crônicas nos últimos quinze anos, em A Notícia, no rio-negrinhense Perfil ou no ND, sabe que gosto de cultuar as memórias. Mas sei aceitar o presente e o futuro. O saudosismo serve pra não esquecermos o passado.
Mas que não se faz mais sorvete e salada de frutas como na Polar, ah... Não mesmo!


WC na casa dos outros

Antes que algum leitor mais atento me acuse de autoplágio, entrego: escrevi essa crônica em dezembro de 2011, após passar um apuro não me lembro onde. Repito-a por ter visto no Facebook aquela piadinha: quem já foi ao banheiro na casa dos outros e fez rapidinho, fingindo que era só xixi, é ninja.
Pois bem, quem já não precisou visitar o banheiro em casa alheia? Por mais que o ato de satisfazer as necessidades pessoais seja algo supercomum, todo mundo sente vergonha quando é visita. Na casa da namorada, então, o acanhamento parece ser gigantesco. Logo ao chegar, você sente um leve borbulhar no estômago. Tua futura sogra te recebe, oferece assento e avisa que “ela já vem, tá se arrumando”. Como demoooora... E chegam outros parentes, o irmão mais novo da tua gata está a postos para pentelhar, o mais velho vem com esposa e filhos, vovô e vovó...
O borbulhar, felizmente, passou. Alarme falso. Ah, é? Espere o jantar.
Depois de uma eternidade, aperitivos – amendoim não, por favor! –, papo furado etc. vem o jantar. Claro que o cardápio tem todos os ingredientes que vão te dar o maior apuro. À medida que vai comendo, você começa a jorrar suor de todos os poros. Precisa segurar alguns avisos que, em circunstâncias normais, seriam extremamente ruidosos e fedorentos, daqueles bons de soltar no meio da roda de amigos no bar, fazendo cara de inocente. Mas aqui, na casa da namorada? Ô, seus intestinos traidores, depois conversamos.
Você conseguiu passar o jantar, ainda que com câimbras no abdome. Na sobremesa, dá-lhe musse. De mamão, meu Deus! Você torce pra alguém ir ao banheiro – que, claro, fica ali, colado à sala de jantar – para avaliar as condições sonoras e olfativas. O peste do futuro cunhado vai, você não ouve nada, não sente nada. Ótimo, acho que dá pra passar pela provação.
Em determinado momento, você não suporta mais e cochicha ao ouvido da gata tua intenção de visitar o water closed. Com a barulheira à mesa, ela não ouve. Você repete e neste instante, como por milagre, cessam todos os sons no ambiente. Só se ouve tua frase, dita em alto e bom som: “Preciso ir ao banheiro”. Meia dúzia de mãos apontam para a porta ao lado. Pronto, foi-se o elemento surpresa. Lá dentro, você ainda tenta uma última saída: ficar só um minuto e sair, fingindo que era coisa rápida. Mas não dá, o número 2 está prestes a pinicar tua cueca. Bem, vamos lá. Disfarçar o barulho tossindo. Mas é barulho demais, vão achar que você tá com tuberculose. Dar a descarga ajuda. Mas quantas vezes? Cerca de dez minutos depois você sai, suando, vermelhaço pelo esforço. Ao sentar-se, percebe as pessoas disfarçando, com guardanapos no nariz. O maldito cunhadinho – que um dia há de pagar – nem disfarça: “Pô, meu, comeu carniça?”. Aí você se toca: deu tantas descargas pra disfarçar o barulho, que acabou se esquecendo da última. Ficou um bom monte de provas pra trás.
Na próxima visita, não esquecer de fazer lavagem estomacal antes.


Ó, impuros corações

Ouvi no rádio, por esses dias, uma notícia abordando o sistema prisional catarinense. Resumindo: construir mais presídios e aumentar a capacidade dos atuais.
O que isso significa? Coisa boa não é. Afinal, se falta lugar nas cadeias, é porque tá sobrando quem as mereça. De fato, nessas seis décadas de vida, nunca vi tanta maldade grassando por aí. Sem me arvorar em saudosista, mas gosto de relembrar uma época em que saía de casa pra buscar uma encomenda no açougue e deixava a bicicleta apoiada no meio-fio, sem cadeado nem nada. Na saída, era garantia de que o veículo estaria no mesmo lugar (a não ser, claro, que alguém da minha turma resolvesse sacanear e escondesse a bicicleta; sem problema, era só dar uma olhada nas casas próximas; ou ir pra casa a pé e reaver a bici depois). Tente deixar uma bike hoje, de bobeira, na rua...
Por que os corações da humanidade andam tão impuros?
Minha professora de Sociologia colocaria a culpa no sistema. O Prates diria pra mandar os malandros pra delegacia dele. O Moro prende; o Gilmar solta.
Vejo culpa por todo lado, mas a principal – em minha opinião, friso – vem de dentro. Corações impuros, eis um grande problema.
E não é de hoje. Num dos livros mais antigos da História tá escrito: “O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior”. Quem disse isso? Um certo rabino nascido e criado na Galileia. Tá lá, no capítulo 7 do evangelho de Marcos. Jesus diz umas verdades doídas: “Será que nem vós compreen­deis? Não entendeis que nada do que vem de fora e entra numa pessoa pode torná-la impura, porque não entra em seu coração, mas em seu estômago e vai para a fossa?”.
Quem me lê com frequência sabe que não sou do tipo religioso, ainda que tenha nascido e me criado no seio de uma catoliquíssima família polonesa. Hoje sou agnóstico teísta. Mas vejo Jesus como um grande filósofo, dono de um conhecimento dialético fantástico e uma oratória magnífica – não escreveu nada, lembremos, só falou. Gosto sobretudo de algumas parábolas eternas, adaptáveis a qualquer tempo. Essa dos corações impuros é supimpa.
Jesus declarava que todos os alimentos eram puros. Ele disse: “O que sai do homem, isso é que o torna impuro. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. Todas estas coisas más saem de dentro e são elas que tornam impuro o homem”. Sensacional! Jesus não culpava o sistema.
Li esse trecho da Bíblia no Evangelho de quarta-feira passada. Recebo, diariamente, um email do amigo padre Renato dos Santos, ex-vigário aqui da paróquia Santo Antônio e hoje chefe de Imprensa do Vaticano. Renato sempre faz uns comentários pertinentes. Sobre a parábola em questão, diz ele: Jesus nos dá um novo referencial para pensarmos mais profundamente o nosso relacionamento com a obra da criação. A concepção da época era que as coisas externas contaminavam o interior da pessoa. E Jesus nos apresenta um modo de pensar completamente diferente. Não são as coisas externas que nos contaminam, mas, o que sai de dentro do nosso interior, ou seja, do nosso coração. Biblicamente a expressão “coração” quer simbolizar aquele espaço que é o berço dos sentimentos, das emoções, do afeto etc. Ou seja, purificar o coração é o mesmo que dizer: purificar a própria consciência, os próprios pensamentos, desejos, opções... Ter o coração convertido é ter a consciência completamente mudada. É de dentro da nossa razão, da nossa inteligência, da nossa consciência que saem as nossas péssimas maquinações de maldade. Só lavar as mãos e purificar as coisas para serem ingeridas não basta.
Eu arremato: quando nada funciona, melhor construir mesmo mais prisões.


Tiro no cérebro

Que tiro foi esse?
Foi mais um disparo de carabina calibre 22 no crânio. E lá se vão mais alguns milhões de neurônios...
Ó, pra começar, sou do tempo em que Toddy vinha em lata de metal e não em quilos de carne. E dentro da lata, em vez de lixo em forma de música, havia um delicioso achocolatado. Mais: soldados da cavalaria e índios! É, jovem do século XXI: nos anos 60 as latas de Toddy ofereciam de brinde miniaturas plásticas do velho Oeste norte-americano. Era a coleção Forte Apache (ainda que os índios fossem mais parecidos com navajos, comanches ou sioux; mas isso era detalhe). Cheguei a montar dois bons exércitos, com os soldados quase todos a cavalo. Faltou o forte propriamente dito, pois o preço ficava acima do orçamento da família. Sem problema, pois bastavam a criatividade e alguns pedaços de lenha pra construir belíssimas fortificações; não era preciso gastar num forte de plástico.
Sabia, leitor das antigas, que dá pra comprar latas antigas de Toddy COM personagens do Forte Apache? É só dar uma olhada nos sites de e-commerce, tipo Mercado Livre. Só não dá pra consumir o achocolatado, mais ou menos vencido desde 1967 e quejandos.
Amigo leitor, fiel leitora, repito aqui algo que escrevi há uns seis anos, quando Teló explodiu aquele horrível e grudento “ai se eu te pego”. Ainda bem que o moço retomou o sertanejo de raiz após empanturrar o cofre. Repriso: sei que, em todas as épocas, as artes têm coisas ruins entre tantas outras boas. Sempre houve música brega, cafona, abaixo da crítica. Mas acho que o momento atual beira o exagero (e esse “atual” parece não ter fim). Se não procurarmos bem, o que se ouve por aí, especialmente no rádio e na TV, tem mais ruindade do que algo que se aproveite.
Longe de ser ranzinza, clamo em nome do bom gosto. Você, leitor, já prestou atenção na profundidade das letras das “obras” funk? Na primeira vez que abordei o tema, uma tal de “mulher-melão” (recuso-me a escrever em maiúsculas) estava em alta. Vi uma entrevista da “artista” e fiquei matutando: como alguém com um timbre de voz totalmente rouco pode cantar? Quando mostraram um trecho de show da moça, dublando a si própria, saquei: a voz que saía do playback não era dela nem a pau!
Não me arvoro em defensor deste ou daquele gênero, muito menos de compositores ou de intérpretes. Assim como adoro música clássica, me amarro num bom vaneirão e na música caipira; amo samba e sou admirador do bom rock anos 70; curto a jovem guarda e o pop da Madonna. Enfim, sou eclético. Mas em todos os gêneros – mesmo nestes dos quais sou fã – há besteiras. Há quem assassine a música erudita; tchê music é deturpação da música gaúcha autêntica; há quem se diga caipira e toca um tal de sertanejo universitário (fala a verdade: os universitários ouvem esse tipo de música?). E por aí vai.
Mas, repito, em todos os tempos jamais houve tanta coisa ruim como agora. É demais, não dá para ouvir uma emissora FM popular mais do que duas ou três músicas. E dali a uma hora, quando trocar o comunicador, as mesmas obras vão se repetir. No final da manhã, entre as mais tocadas, lá vêm elas de novo. Felizmente, o dial está cheio de opções – ou não, dependendo do ponto de vista. Sou amarrado em rádio, mas ultimamente tem sido melhor escolher repertório no Youtube.


Minha querida Sampa!

Neste 25 de janeiro, quando o município de São Paulo festeja seus 464 anos, rendo uma homenagem à cidade que me acolheu no final da adolescência, e da qual guardo boas lembranças dos quase quatro anos que lá passei.
Posso dizer que já “conhecia” São Paulo, de tanto ouvir as emissoras de rádio de lá, especialmente as que transmitiam futebol, como Bandeirantes e Tupi, que entravam limpamente nos aparelhos que tínhamos em casa – em Rio Negrinho, onde nasci e me criei. Assim, quando pela primeira vez visitei a cidade, tudo me parecia familiar. Estive lá em janeiro de 1974, passando uns dias com minha mãe (meus pais eram separados).
Fui com os primos Carlinhos e Jorge. O primeiro era o anfitrião, pois desde a infância morava com minha mãe; Jorge e eu íamos conhecer a cidade. Desembarcamos na velha Rodoviária, na Barra Funda. Carlos decidiu ir a pé até o apartamento, na Bela Vista, para que os neófitos primos tomassem contato mais íntimo com a cidade. Foi cansativo andar tanto carregando pesadas malas, mas valeu a pena.
Descíamos a avenida São João, com a intenção de pegar a Ipiranga até a praça Roosevelt (quatro anos depois, Caetano imortalizou a famosa esquina da São João com a Ipiranga na eterna “Sampa”). Quase na esquina, vimos ao longe um cartaz de cinema anunciando “Trinity e Seus Companheiros”; coincidentemente, no domingo anterior assistíramos a “Trinity Ainda É Meu Nome”, no Cine Rio Negrinho. Imaginando ser o terceiro filme da saga, já marcamos uma ida ao cinema para o mesmo dia.
A cansativa – e proveitosa, ressalto – caminhada terminou no edifício Saint Simon, no número 972 da rua Santo Antônio, coração do bairro Bela Vista, carinhosamente chamado Bixiga. Entrei pela segunda vez na vida num elevador (a primeira fora aos 4 anos, em Curitiba, da qual a recordação não passava de uma manchinha na memória). Sétimo andar, apartamento 71. Mamãe e o marido já nos aguardavam para o café da manhã (viajamos a madrugada toda na linha Joaçaba-São Paulo da Reunidas, embarcando em Mafra).
Como o apartamento era de fundos, a vista dava para a avenida 9 de Julho. Vejam só: algumas horas antes eu saíra de casa, no meu cantinho do bairro Alegre, onde havia onze casas e só duas com carro; lá em baixo, só a rua Santo Antônio tinha mais habitantes que toda Rio Negrinho, e o trânsito na 9 de Julho simplesmente era permanente, só dando uma aliviada na madrugada.
Pois bueno, conforme o combinado, à tarde fomos ao Cine Paissandu, no largo de mesmo nome, no fervilhante Centro da maior cidade da América do Sul. Cinema à tarde, numa terça-feira? Pois é, meu primo explicou que na metrópole era assim, tinha cinema todos os dias, o tempo todo. Descobri, também, que uma vez pago o ingresso, você podia assistir a quantas sessões quisesse – do mesmo filme, claro. O tal que fomos ver, ainda que tivesse a palavra Trinity no título, nada tinha a ver com o personagem de Terence Hill. É que os distribuidores brasileiros sempre botavam o Trinity quando os protagonistas eram Hill e seu parceiro Bud Spencer. Atraía mais público. Logo ao entrar na sala – eram duas, cada uma com um filme diferente – senti a diferença: as poltronas eram de couro. Que diferença para as duras cadeiras de madeira do Cine Rio Negrinho...
Outra peculiaridade: as pessoas entravam, escolhiam um lugar e ficavam sentadas; estava acostumado com minha cidade, onde era comum ficar caminhando pelo corredor até começar a sessão. Que estranhos aqueles paulistas...
Na espera, tudo igual: dá-lhe Paul Mauriat, Frank Pourcel & cia. no toca-discos. Um minuto antes do horário de início, as luzes começam a se apagar, tem um toque de gongo e começa a projeção. Mas, barbaridade! O noticiário é fresquinho, até o jogo mostrado no Canal 100 é do final de semana anterior! Não é de semanas ou meses antes... Parece até jornal de TV.
Com 17 anos, gargalhei à beça com as peripécias dos comediantes italianos interpretando pilotos trapaceiros que davam golpes avariando seus aviões para receber o dinheiro do seguro das aeronaves. Caindo numa floresta na América do Sul, acabam presos e viram heróis ao combater o vilão do lugar. Tudo parecido com os faroestes de Trinity, só que ambientado em tempos atuais (1972, pra ser exato).
Durante os sete dias que durou a visita a Sampa, fomos mais algumas vezes ao cinema (vi “Os Dez Mandamentos” em cinerama, no Comodoro). Mas a grande atração ficou para o final de semana: futebol. Sábado meu tio (como eu tratava o segundo marido de Mamãe) nos levou ao Pacaembu pra ver o seu Corinthians enfrentar o Bahia pelo Campeonato Nacional de 1973, que ainda não terminara. Pela primeira vez eu entrava num grande estádio. Sem radinho, não pude ouvir e ver os narradores aos quais estava acostumado. Como ficamos nas numeradas, com certeza Fiori Gigliotti, Ênio Rodrigues ou Osmar Santos deviam estar ali nas cabines, logo atrás de nós. Até olhei, mas não conhecia nenhum de rosto, só de voz.
Domingo, quanta emoção! Parque Antarctica, para ver pela primeira vez meu Verdão em campo, contra o Coritiba. É impossível descrever o que senti, lá no alto da arquibancada, quando o time apareceu na boca do túnel, Ademir da Guia puxando a Academia com Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo, Zeca, Dudu, Edu, Leivinha, César e Nei. Sim, aqueles caras que eu idolatrava pelas ondas do rádio e nas páginas da revista Placar estavam ali, acenando pra mim – claro! – lá do meio do campo. O jogo ficou 0 x 0, Jairo pegou até pênalti. Não importava, o que valia era estar ali, no estádio. Um mês depois, de qualquer forma, o Verdão comemorava o título.
Em julho de 1975 eu voltava a São Paulo, então com mais bagagem, pra ficar. Encerrado o segundo grau, faculdade só fora de Rio Negrinho. Após uma breve passagem por Curitiba, decidi ir morar com minha mãe. Foi um semestre de cursinho, seguido de três anos de faculdade – Comunicação Visual, não concluída.
Ficou uma grande saudade daqueles três anos e meio de Sampa.


No tempo de Elis

Quem foi Elis Regina? Ora, direis, foi uma das maiores intérpretes da música brasileira. Simples assim.
Concordo. Elis Regina foi uma das mais autênticas cantoras que ouvi. Aliás, que ainda ouço, pois pra isso existem discos e o Youtube. Sexta, dia 19, fez 36 anos que a gaúcha calou-se nesta vida.
Lembro-me muito bem da primeira vez que assisti àquela intérprete cantando e chacoalhando os braços – gesto que lhe valeu o apelido de “Eliscóptero”, dado por Rita Lee. Eu tinha 8 anos, em 1965, quando vi na TV como era a cantora que só ouvia no rádio. Ela defendeu “Arrastão”, de Vinícius de Moraes e Edu Lobo, no festival de MPB da TV Excelsior. Ali decolou uma carreira que vinha se arrastando em discos (quatro já gravados!) de pouco sucesso. A partir de então, o público descobriu os álbuns anteriores, veio o convite para apresentar o programa “O Fino da Bossa” com Jair Rodrigues, a moça passou a vender disco adoidado e entrou para a seleta galeria das grandes intérpretes mundiais.
Eu morava em São Paulo, em 1976, quando Elis lançou o elepê “Falso Brilhante”, que considero um dos melhores. O disco continha canções do show de mesmo título, que estreara no ano anterior. O show ficou dois anos em cartaz, com mais de 1.200 apresentações. Nesse espetáculo, Elis interpretou duas canções (“Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”) escritas por Belchior, tornando mais conhecido o então jovem compositor cearense. Desde aquela época, “Falso Brilhante” é o maior sucesso da carreira de Elis Regina, além de ser um dos discos mais representativos da MPB. Caramba, como eu queria ir ver o show... O ingresso, infelizmente, custava quase o que minha mãe pagava de mensalidade na faculdade. Fiquei na vontade.
Veja só, cara leitora, prezado leitor: dos nomes que citei acima, só dois permanecem vivos, Edu Lobo e Rita Lee; os demais já foram para outro plano. O que têm em comum Elis, Rita, Vinícius, Edu, Jair e Belchior? Todos representam uma época em que dava gosto ligar o rádio ou ir ali na Discolândia comprar um elepê (ainda posso citar a Disrepel de Rio Negrinho e a Bruno Blois de São Paulo, onde também costumava adquirir discos).
- Tá, cronista, você gosta de Cynara e Cybele, mas eu prefiro Simone e Samaritana – alega o jogador de futebol ali ao lado, com seu cabelinho da hora e os caríssimos fones de ouvido despejando pagonejo nos vãos do cérebro.
Tudo bem, sempre digo isso: questão de gosto. Mas, sinceramente, entre a afinação do Quarteto em Cy (as manas Cybele, Cylene, Cynara e Cyva) e os grasnidos dessas duplas atuais, fico com a minha caretice.
O mesmo vale para os intérpretes masculinos. Neste 20 de janeiro faz quatro anos que a dupla Os Vips se desfez, com a morte do Márcio Antonucci, irmão do parceiro Ronaldo. Você, jovem admirador de Fernando e Piracicaba (vamos discutir por causa de cem quilômetros?), já ouviu falar da dupla Os Vips? Se não, dê uma acessadinha rápida no Youtube e conheça-os. Caso não goste, sem problema, continue com Maykon & Phellypy ou qualquer outra dupla do “sertanejo universitário” (de qual sertão será essa universidade?).
Fico com Elis e Jair.