Ó, impuros corações
Ouvi no rádio, por esses dias, uma notícia abordando o sistema prisional
catarinense. Resumindo: construir mais presídios e aumentar a capacidade dos
atuais.
O que isso significa? Coisa boa não é. Afinal, se falta lugar nas
cadeias, é porque tá sobrando quem as mereça. De fato, nessas seis décadas de
vida, nunca vi tanta maldade grassando por aí. Sem me arvorar em saudosista,
mas gosto de relembrar uma época em que saía de casa pra buscar uma encomenda
no açougue e deixava a bicicleta apoiada no meio-fio, sem cadeado nem nada. Na
saída, era garantia de que o veículo estaria no mesmo lugar (a não ser, claro,
que alguém da minha turma resolvesse sacanear e escondesse a bicicleta; sem
problema, era só dar uma olhada nas casas próximas; ou ir pra casa a pé e
reaver a bici depois). Tente deixar uma bike hoje, de bobeira, na rua...
Por que os corações da humanidade andam tão impuros?
Minha professora de Sociologia colocaria a culpa no sistema. O Prates
diria pra mandar os malandros pra delegacia dele. O Moro prende; o Gilmar
solta.
Vejo culpa por todo lado, mas a principal – em minha opinião, friso – vem
de dentro. Corações impuros, eis um grande problema.
E não é de hoje. Num dos livros mais antigos da História tá escrito: “O
que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do
seu interior”. Quem disse isso? Um certo rabino nascido e criado na Galileia.
Tá lá, no capítulo 7 do evangelho de Marcos. Jesus diz umas verdades doídas:
“Será que nem vós compreendeis? Não entendeis que nada do que vem de fora e
entra numa pessoa pode torná-la impura, porque não entra em seu coração,
mas em seu estômago e vai para a fossa?”.
Quem me lê com frequência sabe que não sou do tipo religioso, ainda que
tenha nascido e me criado no seio de uma catoliquíssima família polonesa. Hoje
sou agnóstico teísta. Mas vejo Jesus como um grande filósofo, dono de um
conhecimento dialético fantástico e uma oratória magnífica – não escreveu nada,
lembremos, só falou. Gosto sobretudo de algumas parábolas eternas, adaptáveis a
qualquer tempo. Essa dos corações impuros é supimpa.
Jesus declarava que todos os alimentos
eram puros. Ele disse: “O que sai do homem, isso é que o
torna impuro. Pois é de dentro do coração humano que saem as más
intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas,
maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. Todas
estas coisas más saem de dentro e são elas que tornam impuro o homem”.
Sensacional! Jesus não culpava o sistema.
Li esse trecho da Bíblia no Evangelho de quarta-feira passada. Recebo,
diariamente, um email do amigo padre Renato dos Santos, ex-vigário aqui da
paróquia Santo Antônio e hoje chefe de Imprensa do Vaticano. Renato sempre faz
uns comentários pertinentes. Sobre a parábola em questão, diz ele: Jesus nos dá um novo referencial para
pensarmos mais profundamente o nosso relacionamento com a obra da criação. A
concepção da época era que as coisas externas contaminavam o interior da
pessoa. E Jesus nos apresenta um modo de pensar completamente diferente. Não
são as coisas externas que nos contaminam, mas, o que sai de dentro do nosso
interior, ou seja, do nosso coração. Biblicamente a expressão “coração” quer
simbolizar aquele espaço que é o berço dos sentimentos, das emoções, do afeto
etc. Ou seja, purificar o coração é o mesmo que dizer: purificar a própria
consciência, os próprios pensamentos, desejos, opções... Ter o coração
convertido é ter a consciência completamente mudada. É de dentro da nossa
razão, da nossa inteligência, da nossa consciência que saem as nossas péssimas
maquinações de maldade. Só lavar as mãos e purificar as coisas para serem
ingeridas não basta.
Eu arremato: quando nada funciona,
melhor construir mesmo mais prisões.
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