Minha querida Sampa!
Neste 25 de janeiro, quando o município de São Paulo festeja
seus 464 anos, rendo uma homenagem à cidade que me acolheu no final da
adolescência, e da qual guardo boas lembranças dos quase quatro anos que lá
passei.
Posso dizer que já “conhecia” São Paulo, de tanto ouvir as
emissoras de rádio de lá, especialmente as que transmitiam futebol, como
Bandeirantes e Tupi, que entravam limpamente nos aparelhos que tínhamos em casa
– em Rio Negrinho, onde nasci e me criei. Assim, quando pela primeira vez
visitei a cidade, tudo me parecia familiar. Estive lá em janeiro de 1974,
passando uns dias com minha mãe (meus pais eram separados).
Fui com os primos Carlinhos e Jorge. O primeiro era o
anfitrião, pois desde a infância morava com minha mãe; Jorge e eu íamos
conhecer a cidade. Desembarcamos na velha Rodoviária, na Barra Funda. Carlos
decidiu ir a pé até o apartamento, na Bela Vista, para que os neófitos primos
tomassem contato mais íntimo com a cidade. Foi cansativo andar tanto carregando
pesadas malas, mas valeu a pena.
Descíamos a avenida São João, com a intenção de pegar a
Ipiranga até a praça Roosevelt (quatro anos depois, Caetano imortalizou a
famosa esquina da São João com a Ipiranga na eterna “Sampa”). Quase na esquina,
vimos ao longe um cartaz de cinema anunciando “Trinity e Seus Companheiros”;
coincidentemente, no domingo anterior assistíramos a “Trinity Ainda É Meu
Nome”, no Cine Rio Negrinho. Imaginando ser o terceiro filme da saga, já
marcamos uma ida ao cinema para o mesmo dia.
A cansativa – e proveitosa, ressalto – caminhada terminou no
edifício Saint Simon, no número 972 da rua Santo Antônio, coração do bairro
Bela Vista, carinhosamente chamado Bixiga. Entrei pela segunda vez na vida num
elevador (a primeira fora aos 4 anos, em Curitiba, da qual a recordação não
passava de uma manchinha na memória). Sétimo andar, apartamento 71. Mamãe e o
marido já nos aguardavam para o café da manhã (viajamos a madrugada toda na
linha Joaçaba-São Paulo da Reunidas, embarcando em Mafra).
Como o apartamento era de fundos, a vista dava para a
avenida 9 de Julho. Vejam só: algumas horas antes eu saíra de casa, no meu
cantinho do bairro Alegre, onde havia onze casas e só duas com carro; lá em
baixo, só a rua Santo Antônio tinha mais habitantes que toda Rio Negrinho, e o
trânsito na 9 de Julho simplesmente era permanente, só dando uma aliviada na
madrugada.
Pois bueno, conforme o combinado, à tarde fomos ao Cine
Paissandu, no largo de mesmo nome, no fervilhante Centro da maior cidade da
América do Sul. Cinema à tarde, numa terça-feira? Pois é, meu primo explicou
que na metrópole era assim, tinha cinema todos os dias, o tempo todo. Descobri,
também, que uma vez pago o ingresso, você podia assistir a quantas sessões
quisesse – do mesmo filme, claro. O tal que fomos ver, ainda que tivesse a
palavra Trinity no título, nada tinha a ver com o personagem de Terence Hill. É
que os distribuidores brasileiros sempre botavam o Trinity quando os
protagonistas eram Hill e seu parceiro Bud Spencer. Atraía mais público. Logo
ao entrar na sala – eram duas, cada uma com um filme diferente – senti a
diferença: as poltronas eram de couro. Que diferença para as duras cadeiras de
madeira do Cine Rio Negrinho...
Outra peculiaridade: as pessoas entravam, escolhiam um lugar
e ficavam sentadas; estava acostumado com minha cidade, onde era comum ficar
caminhando pelo corredor até começar a sessão. Que estranhos aqueles
paulistas...
Na espera, tudo igual: dá-lhe Paul Mauriat, Frank Pourcel
& cia. no toca-discos. Um minuto antes do horário de início, as luzes
começam a se apagar, tem um toque de gongo e começa a projeção. Mas,
barbaridade! O noticiário é fresquinho, até o jogo mostrado no Canal 100 é do
final de semana anterior! Não é de semanas ou meses antes... Parece até jornal
de TV.
Com 17 anos, gargalhei à beça com as peripécias dos
comediantes italianos interpretando pilotos
trapaceiros que davam golpes avariando seus aviões para receber o dinheiro do
seguro das aeronaves. Caindo numa floresta na América do Sul, acabam presos e
viram heróis ao combater o vilão do lugar. Tudo parecido com os faroestes de
Trinity, só que ambientado em tempos atuais (1972, pra ser exato).
Durante os sete dias que
durou a visita a Sampa, fomos mais algumas vezes ao cinema (vi “Os Dez
Mandamentos” em cinerama, no Comodoro). Mas a grande atração ficou para o final
de semana: futebol. Sábado meu tio (como eu tratava o segundo marido de Mamãe)
nos levou ao Pacaembu pra ver o seu Corinthians enfrentar o Bahia pelo
Campeonato Nacional de 1973, que ainda não terminara. Pela primeira vez eu
entrava num grande estádio. Sem radinho, não pude ouvir e ver os narradores aos
quais estava acostumado. Como ficamos nas numeradas, com certeza Fiori
Gigliotti, Ênio Rodrigues ou Osmar Santos deviam estar ali nas cabines, logo atrás
de nós. Até olhei, mas não conhecia nenhum de rosto, só de voz.
Domingo, quanta emoção!
Parque Antarctica, para ver pela primeira vez meu Verdão em campo, contra o
Coritiba. É impossível descrever o que senti, lá no alto da arquibancada,
quando o time apareceu na boca do túnel, Ademir da Guia puxando a Academia com
Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo, Zeca, Dudu, Edu, Leivinha, César e Nei.
Sim, aqueles caras que eu idolatrava pelas ondas do rádio e nas páginas da
revista Placar estavam ali, acenando pra mim – claro! – lá do meio do campo. O
jogo ficou 0 x 0, Jairo pegou até pênalti. Não importava, o que valia era estar
ali, no estádio. Um mês depois, de qualquer forma, o Verdão comemorava o
título.
Em julho de 1975 eu voltava a
São Paulo, então com mais bagagem, pra ficar. Encerrado o segundo grau,
faculdade só fora de Rio Negrinho. Após uma breve passagem por Curitiba, decidi
ir morar com minha mãe. Foi um semestre de cursinho, seguido de três anos de
faculdade – Comunicação Visual, não concluída.
Ficou uma grande saudade
daqueles três anos e meio de Sampa.
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