Tiro no cérebro
Que tiro foi esse?
Foi mais um disparo de carabina calibre 22 no crânio. E lá
se vão mais alguns milhões de neurônios...
Ó, pra começar, sou do tempo em que Toddy vinha em lata de
metal e não em quilos de carne. E dentro da lata, em vez de lixo em forma de
música, havia um delicioso achocolatado. Mais: soldados da cavalaria e índios!
É, jovem do século XXI: nos anos 60 as latas de Toddy ofereciam de brinde
miniaturas plásticas do velho Oeste norte-americano. Era a coleção Forte Apache
(ainda que os índios fossem mais parecidos com navajos, comanches ou sioux; mas
isso era detalhe). Cheguei a montar dois bons exércitos, com os soldados quase
todos a cavalo. Faltou o forte propriamente dito, pois o preço ficava acima do
orçamento da família. Sem problema, pois bastavam a criatividade e alguns
pedaços de lenha pra construir belíssimas fortificações; não era preciso gastar
num forte de plástico.
Sabia, leitor das antigas, que dá pra comprar latas antigas
de Toddy COM personagens do Forte Apache? É só dar uma olhada nos sites de
e-commerce, tipo Mercado Livre. Só não dá pra consumir o achocolatado, mais ou
menos vencido desde 1967 e quejandos.
Amigo leitor, fiel leitora, repito aqui algo que escrevi há
uns seis anos, quando Teló explodiu aquele horrível e grudento “ai se eu te
pego”. Ainda bem que o moço retomou o sertanejo de raiz após empanturrar o
cofre. Repriso: sei que, em todas as épocas, as artes têm coisas ruins entre
tantas outras boas. Sempre houve música brega, cafona, abaixo da crítica. Mas
acho que o momento atual beira o exagero (e esse “atual” parece não ter fim).
Se não procurarmos bem, o que se ouve por aí, especialmente no rádio e na TV,
tem mais ruindade do que algo que se aproveite.
Longe de ser ranzinza, clamo em nome do bom gosto. Você,
leitor, já prestou atenção na profundidade das letras das “obras” funk? Na
primeira vez que abordei o tema, uma tal de “mulher-melão” (recuso-me a
escrever em maiúsculas) estava em alta. Vi uma entrevista da “artista” e fiquei
matutando: como alguém com um timbre de voz totalmente rouco pode cantar?
Quando mostraram um trecho de show da moça, dublando a si própria, saquei: a
voz que saía do playback não era dela nem a pau!
Não me arvoro em defensor deste ou daquele gênero, muito
menos de compositores ou de intérpretes. Assim como adoro música clássica, me
amarro num bom vaneirão e na música caipira; amo samba e sou admirador do bom
rock anos 70; curto a jovem guarda e o pop da Madonna. Enfim, sou eclético. Mas
em todos os gêneros – mesmo nestes dos quais sou fã – há besteiras. Há quem
assassine a música erudita; tchê music é deturpação da música gaúcha autêntica;
há quem se diga caipira e toca um tal de sertanejo universitário (fala a
verdade: os universitários ouvem esse tipo de música?). E por aí vai.
Mas, repito, em todos os tempos jamais houve tanta coisa
ruim como agora. É demais, não dá para ouvir uma emissora FM popular mais do
que duas ou três músicas. E dali a uma hora, quando trocar o comunicador, as
mesmas obras vão se repetir. No final da manhã, entre as mais tocadas, lá vêm
elas de novo. Felizmente, o dial está cheio de opções – ou não, dependendo do
ponto de vista. Sou amarrado em rádio, mas ultimamente tem sido melhor escolher
repertório no Youtube.
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