Basília, a volúvel
No princípio, a índia morena era Jaci ou Yacy. Lua, traduziu
seu primeiro admirador, Pedro, que a conheceu no apagar das luzes do século XV.
Namorado, pra valer, sem contar os pretendentes da tribo, foi João, seguido dos
herdeiros, mais dois Pedros. Trataram-na bem, era amada, cuidada, paparicada.
Ao atravessar o oceano, João quis levá-la; o filho Pedro, porém, já enamorado,
rompeu com o pai e a manteve por perto. Já a chamava Basília.
Bebedora da água da fonte da juventude, Basília parecia não
envelhecer. Os admiradores, por seu turno, definhavam e morriam. Lá pelo final
do século XIX um deles, Deodoro, decidiu com ela se casar, de modo oficial. Nem
lhe perguntou se era seu desejo; tão somente desembainhou a espada e
oficializou a união. Basília, amargurada, viu-se separada da coroa que Pedro
lhe dera alguns anos antes, e pela qual se afeiçoara. Aliás, cumpre
acrescentar: Pedro fora o primeiro, montado em seu cavalo, a sacar a espada e
brandi-la para o alto, jurando amor eterno a Basília.
Eterna, porém, só Yacy. Seus homens passavam. Tinham-na como
volúvel, apaixonava-se e desapaixonava-se rapidamente. A beleza ímpar nunca a
deixava sozinha. Deodoro, doente, entregou-a a Floriano. Homem de maus bofes,
maltratou a morena. Seguiam-se os namorados, noivos, maridos... Alguns bons,
compreensivos, tudo faziam pela felicidade de Basília. Ela guardou no coração,
dos trinta maridos, nomes como Hermes, Epitácio, Eurico e Juscelino. Prudente
poderia integrar a lista, mas manchou a ficha com muita violência. Getúlio
passou duas vezes em sua vida, fez bastante por ela, mas era um enigma
ambulante. Matou-se, dizem uns, por ela; por nada, garantem outros. Basília
nunca soube ao certo. Lá no íntimo, acha que Getúlio tirou a vida por ele
mesmo.
Dos que a trataram mal, sente amargor ao se recordar do bom
e confuso Jânio, cujo humor variava na proporção em que as garrafas se
esvaziavam. As fardas voltaram à casa de Basília num dia da mentira em 1964,
quando Humberto a desposou à força. Seguiram-se duas décadas ambíguas:
prosperidade doméstica mas muita tirania com Arthur, Emílio, o bom Ernesto e o
irascível João, mais preocupado com os estábulos onde aconchegava seus cavalos
(a espada, contudo, era agora nada mais que um adorno da farda).
O coração de Basília alegrou-se quando, saindo pelos fundos,
João deixou o caminho livre para Tancredo. Enfim, alguém para amar e ser
correspondida. Mas, oh infortúnio... Nem chegaram a trocar um beijinho, eis que
Tancredo sucumbe a uma doença. No enterro, as lágrimas de Basília encharcam o
lenço emprestado por José, que se aboleta em sua casa. Imprevidente, José abala
a estrutura familiar, provocando a ruína financeira. Chega a sugerir que
Basília se prostitua!
- Volúvel sim, devassa nunca! – protesta a morena, que se
endivida ainda mais buscando recursos até junto a agiotas internacionais. A
prole, a essa altura imensa, vive em dificuldade, mal conseguindo o suficiente
para levar comida à mesa.
Ao anunciar iminente partida, José abre a porta para uma
quantidade nunca vista antes de pretendentes. Ali estão o ponderado Ulysses, o
esperto Paulo, o botinudo Ronaldo, o rico Guilherme e até o sintético Enéas,
médico consagrado mas com jeito de tirano. De todos, restam dois: o trabalhador
Luiz e o jovem Fernando. Cortejam Basília com promessas mirabolantes. No final,
Fernando joga sujo e ilude os filhos de Basília, vencendo a disputa pela mão da
morena. Mas qual... Assim que toma posse dos bens da bela, começa a
dilapidá-los. Pior: sob fortíssima suspeita de desviar parte das economias para
si e seus apaniguados. Basília já havia passado por agruras antes, mas nunca
com algum companheiro suspeito de roubá-la. Se bem que... Será que José de fato
perdeu dinheiro em aplicações desastrosas? Ambas as orelhas de Basília passaram
a dar coceira, repassando os relacionamentos de tantos anos.
Enfim, de qualquer forma os filhos da índia tomaram uma
atitude drástica e expulsaram o vil Fernando. Convidaram o estranho Itamar para
assumir a casa. Com fama de honesto, ainda que meio destrambelhado, Itamar de
fato cumpriu a missão. Ciente de suas limitações, convidou amigos competentes
para ajudar na tarefa. Entre eles estava outro Fernando, muito bom com
finanças. Acabou ficando, pois Itamar deixara claro que sua passagem pela casa
era temporária.
Basília viveu oito felizes anos com Fernando, recuperou as
finanças da casa, os filhos voltaram a sorrir. Ela apenas tinha dificuldade em
acompanhar o raciocínio do companheiro, às vezes intelectual demais.
Porém, desde aquela primeira grande contenda na sucessão de
José, um dos rivais não saía do pensamento de Basília e de seus filhos: Luiz, o
trabalhador. Ele, por seu turno, também ansiava em dividir a cama com a morena
índia. Conseguiu, enfim, quando Fernando decidiu sair – não nos esqueçamos de
que os homens envelhecem normalmente, enquanto Basília mantém a jovialidade.
Com Luiz a prosperidade continuou, até porque Fernando
deixara a casa em ordem. Luiz acrescentou algumas melhorias, e os filhos de
Basília gostaram. Mas havia alguma coisa errada. Comerciantes começaram a bater
à porta, cobrando dívidas desconhecidas da contabilidade doméstica. O que
estava acontecendo? – perguntavam-se os filhos. Investigaram, descobriram
algumas falcatruas do padrasto, mas ele sempre escapava por falta de provas.
Passados oito anos, Luiz saiu. Mas não permitiu que pretendentes
assumissem seu lugar. Havia outro José, havia Geraldo, havia mais uma penca de
candidatos. Luiz, porém, foi esperto, e colocou dentro da casa uma governanta,
dona Vana. Seu plano era simples: manter o lugar até que ele mesmo decidisse
voltar. Aos poucos, os filhos foram percebendo que mais uma vez as finanças da
casa se arruinavam. O poço nos fundos do terreno, que fornecia uma água
puríssima, secava rapidamente. Denúncias se avolumavam, mais e mais mercadores
faziam fila no portão, cobrando.
Os filhos enxotaram dona Vana. Chamaram um “marido estepe”,
Miguel Elias, para dar um jeito. O problema é que, pelos dias atuais, Miguel
Elias mal tem tempo de dar atenção ao saneamento doméstico, pois também ele se
vê às voltas com dedos acusadores.
Lá na rua começa nova fila de pretendentes. E nela está
novamente Luiz, o trabalhador. Está um certo Jair, com promessas mirabolantes.
Os filhos tremem de receio. Basília, coitada, sofre, por enquanto em silêncio.
E ainda a chamam de volúvel...