sexta-feira, 23 de junho de 2017

O quente julho frio

Julho chega sábado da semana que vem. Não é o primo Júlio. Esse é com lh. É a marca do segundo semestre, segunda metade do ano. O mês sete do calendário sempre traz uma simbologia interessante. À medida que o tempo passa, os símbolos aumentam. Quando eu era criança, julho era época de férias escolares, um mês inteiro (hoje são apenas duas semanas) para brincar à vontade, ficar mais tempo na cama e se preparar para o segundo semestre.
O frio é sempre uma marca deste mês, em qualquer época e lugar (no hemisfério Sul, bem entendido). Era bem mais frio na minha infância; afinal, eu morava em Rio Negrinho. Até neve peguei por lá. E julho sempre foi o mês mais rigoroso. Sábia natureza: castigava mais com o frio bem na época em que não precisávamos levantar cedo para ir à aula. Mesmo assim, com aquele sol –raramente chovia em julho – quem iria ficar na cama? Correr pro campinho era a melhor opção. O dia só não terminava com o banho de rio por motivos óbvios. Era em casa, na bacia, banho tipo feijoada: só orelhas, pés e rabo.
Há alguns anos, julho significava férias apenas para os filhos em idade escolar. Eles já se formaram, estão trabalhando. Tive minha regressão quando fiz a faculdade. Entrei no curso de Jornalismo do Ielusc já além dos quarenta. E confesso: eu aguardava julho com mais ansiedade do que na infância. A criança, afinal, só tem responsabilidade com o colégio; o adulto vai para a aula depois de um dia dedicado ao trabalho. O cansaço pega.
Em Santa Catarina, julho tem outro símbolo especial, especialmente para quem mora em Joinville. É o Festival de Dança. Há 34 anos o mês mais rigoroso do inverno é também o mais colorido na cidade. Dentro de uns trinta dias a movimentação vai aumentar, a expectativa vai crescer, os passos alegres e nervosos vão tomar as ruas.
Não há frio que diminua o ânimo de quem participa do Festival. O calor corre por dentro daqueles jovens que enfrentam a baixa temperatura com o coração aquecido. Lembro de outros festivais em que os mais pesados agasalhos ainda eram pouco para encarar o frio congelante de julho. Mesmo assim, no palco, os bailarinos encaravam tudo com figurinos ousados, trajes curtíssimos, às vezes apenas um short ou uma sainha. Para eles, o frio não assusta. O calor vem de várias fontes: das luzes, do público, da vontade de mostrar o máximo. Especialmente desta última fonte: de dentro, lá do fundo da alma.

Uma parte de julho já está por aí. O frio veio, mesmo que ainda não com a mesma intensidade de outras épocas. As férias escolares chegam dentro de uns vinte dias. E já na sequência as ruas são tomadas pelos bailarinos e visitantes que vêm assistir ao Festival. Este julho promete!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Basília, a volúvel

No princípio, a índia morena era Jaci ou Yacy. Lua, traduziu seu primeiro admirador, Pedro, que a conheceu no apagar das luzes do século XV. Namorado, pra valer, sem contar os pretendentes da tribo, foi João, seguido dos herdeiros, mais dois Pedros. Trataram-na bem, era amada, cuidada, paparicada. Ao atravessar o oceano, João quis levá-la; o filho Pedro, porém, já enamorado, rompeu com o pai e a manteve por perto. Já a chamava Basília.
Bebedora da água da fonte da juventude, Basília parecia não envelhecer. Os admiradores, por seu turno, definhavam e morriam. Lá pelo final do século XIX um deles, Deodoro, decidiu com ela se casar, de modo oficial. Nem lhe perguntou se era seu desejo; tão somente desembainhou a espada e oficializou a união. Basília, amargurada, viu-se separada da coroa que Pedro lhe dera alguns anos antes, e pela qual se afeiçoara. Aliás, cumpre acrescentar: Pedro fora o primeiro, montado em seu cavalo, a sacar a espada e brandi-la para o alto, jurando amor eterno a Basília.
Eterna, porém, só Yacy. Seus homens passavam. Tinham-na como volúvel, apaixonava-se e desapaixonava-se rapidamente. A beleza ímpar nunca a deixava sozinha. Deodoro, doente, entregou-a a Floriano. Homem de maus bofes, maltratou a morena. Seguiam-se os namorados, noivos, maridos... Alguns bons, compreensivos, tudo faziam pela felicidade de Basília. Ela guardou no coração, dos trinta maridos, nomes como Hermes, Epitácio, Eurico e Juscelino. Prudente poderia integrar a lista, mas manchou a ficha com muita violência. Getúlio passou duas vezes em sua vida, fez bastante por ela, mas era um enigma ambulante. Matou-se, dizem uns, por ela; por nada, garantem outros. Basília nunca soube ao certo. Lá no íntimo, acha que Getúlio tirou a vida por ele mesmo.
Dos que a trataram mal, sente amargor ao se recordar do bom e confuso Jânio, cujo humor variava na proporção em que as garrafas se esvaziavam. As fardas voltaram à casa de Basília num dia da mentira em 1964, quando Humberto a desposou à força. Seguiram-se duas décadas ambíguas: prosperidade doméstica mas muita tirania com Arthur, Emílio, o bom Ernesto e o irascível João, mais preocupado com os estábulos onde aconchegava seus cavalos (a espada, contudo, era agora nada mais que um adorno da farda).
O coração de Basília alegrou-se quando, saindo pelos fundos, João deixou o caminho livre para Tancredo. Enfim, alguém para amar e ser correspondida. Mas, oh infortúnio... Nem chegaram a trocar um beijinho, eis que Tancredo sucumbe a uma doença. No enterro, as lágrimas de Basília encharcam o lenço emprestado por José, que se aboleta em sua casa. Imprevidente, José abala a estrutura familiar, provocando a ruína financeira. Chega a sugerir que Basília se prostitua!
- Volúvel sim, devassa nunca! – protesta a morena, que se endivida ainda mais buscando recursos até junto a agiotas internacionais. A prole, a essa altura imensa, vive em dificuldade, mal conseguindo o suficiente para levar comida à mesa.
Ao anunciar iminente partida, José abre a porta para uma quantidade nunca vista antes de pretendentes. Ali estão o ponderado Ulysses, o esperto Paulo, o botinudo Ronaldo, o rico Guilherme e até o sintético Enéas, médico consagrado mas com jeito de tirano. De todos, restam dois: o trabalhador Luiz e o jovem Fernando. Cortejam Basília com promessas mirabolantes. No final, Fernando joga sujo e ilude os filhos de Basília, vencendo a disputa pela mão da morena. Mas qual... Assim que toma posse dos bens da bela, começa a dilapidá-los. Pior: sob fortíssima suspeita de desviar parte das economias para si e seus apaniguados. Basília já havia passado por agruras antes, mas nunca com algum companheiro suspeito de roubá-la. Se bem que... Será que José de fato perdeu dinheiro em aplicações desastrosas? Ambas as orelhas de Basília passaram a dar coceira, repassando os relacionamentos de tantos anos.
Enfim, de qualquer forma os filhos da índia tomaram uma atitude drástica e expulsaram o vil Fernando. Convidaram o estranho Itamar para assumir a casa. Com fama de honesto, ainda que meio destrambelhado, Itamar de fato cumpriu a missão. Ciente de suas limitações, convidou amigos competentes para ajudar na tarefa. Entre eles estava outro Fernando, muito bom com finanças. Acabou ficando, pois Itamar deixara claro que sua passagem pela casa era temporária.
Basília viveu oito felizes anos com Fernando, recuperou as finanças da casa, os filhos voltaram a sorrir. Ela apenas tinha dificuldade em acompanhar o raciocínio do companheiro, às vezes intelectual demais.
Porém, desde aquela primeira grande contenda na sucessão de José, um dos rivais não saía do pensamento de Basília e de seus filhos: Luiz, o trabalhador. Ele, por seu turno, também ansiava em dividir a cama com a morena índia. Conseguiu, enfim, quando Fernando decidiu sair – não nos esqueçamos de que os homens envelhecem normalmente, enquanto Basília mantém a jovialidade.
Com Luiz a prosperidade continuou, até porque Fernando deixara a casa em ordem. Luiz acrescentou algumas melhorias, e os filhos de Basília gostaram. Mas havia alguma coisa errada. Comerciantes começaram a bater à porta, cobrando dívidas desconhecidas da contabilidade doméstica. O que estava acontecendo? – perguntavam-se os filhos. Investigaram, descobriram algumas falcatruas do padrasto, mas ele sempre escapava por falta de provas.
Passados oito anos, Luiz saiu. Mas não permitiu que pretendentes assumissem seu lugar. Havia outro José, havia Geraldo, havia mais uma penca de candidatos. Luiz, porém, foi esperto, e colocou dentro da casa uma governanta, dona Vana. Seu plano era simples: manter o lugar até que ele mesmo decidisse voltar. Aos poucos, os filhos foram percebendo que mais uma vez as finanças da casa se arruinavam. O poço nos fundos do terreno, que fornecia uma água puríssima, secava rapidamente. Denúncias se avolumavam, mais e mais mercadores faziam fila no portão, cobrando.
Os filhos enxotaram dona Vana. Chamaram um “marido estepe”, Miguel Elias, para dar um jeito. O problema é que, pelos dias atuais, Miguel Elias mal tem tempo de dar atenção ao saneamento doméstico, pois também ele se vê às voltas com dedos acusadores.
Lá na rua começa nova fila de pretendentes. E nela está novamente Luiz, o trabalhador. Está um certo Jair, com promessas mirabolantes. Os filhos tremem de receio. Basília, coitada, sofre, por enquanto em silêncio.

E ainda a chamam de volúvel...

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Da voz gutural à sintética

No princípio era a desinformação. E fez-se a comunicação.
Traço esse paralelo com o Gênesis para falar de um tema básico em minha vida – e também, por que não? de todo mundo –: a Imprensa. A voz gutural citada no título dessa crônica é a do nosso ancestral Homo Sapiens chegando quase sem fôlego à aldeia, onde anuncia aos berros:
- Mug ng uga tut!
Tradução:
- Abatemos um mamute!
Dada a notícia, forma-se a expedição de resgate. Em vista da dificuldade de transportar a enorme caça até a aldeia – a roda será inventada mais tarde –, a operação de descarne e limpeza é feita no local do abate. Imagino um mutirão semelhante ao que minha família fazia quando abatíamos um porco, separando as partes. O que eu mais gostava era ir com minha Babka até a beira do rio, para a limpeza das vísceras; a peixarada fazia uma festa!
O grito do mensageiro pode ser considerado como a alvorada da Imprensa. Ele era como um repórter. O berro inicial “...mug ng uga tut!” seria o título da matéria. No caminho até o ponto de abate, o “texto” era composto na forma do relato oral, detalhando a caçada (o leitor que já assistiu ao filme “10 000 aC” sabe como era). As “fotos” da reportagem eram ao vivo, a cena do mamute abatido e dos caçadores iniciando o desmonte do bicho.
A comunicação oral prosseguiu por muitos séculos, até que os chineses criaram as primeiras formas de reprodução. Está na enciclopédia: o mais antigo livro conhecido é uma xilogravura (gravura em madeira) chinesa, o Sutra Diamante, datada de 868 dC. Além da madeira, utilizaram-se o papiro, a seda e o pergaminho. Só que a distribuição, nos primórdios, continuava no grito: o arauto postava-se num local de grande frequência de público e lia as notícias. Imagine a manchete:
- Horda de bárbaros está a dez milhas da cidade!
Nem o arauto ficaria pra ler o resto da matéria...
A invenção da tipografia, em 1438, pelo alemão Johan Gutenberg, foi o primeiro grande salto tecnológico para a comunicação. Aliás, aqui destaco um deslize dos livros de História do meu tempo de escola, onde se lia que “...Gutenberg inventou a imprensa”. Ele, na verdade, desenvolveu um sistema de “prensa”, depois utilizado pela Imprensa. Tendo à mão uma forma facilitada de reprodução, cabia aos empresários do ramo aperfeiçoar a distribuição. “Ah, capitalistas de bosta! Desempregaram os arautos...” xingará o proletário leitor. Mas não, ao contrário: arautos viraram jornaleiros, levando a informação o mais longe possível.
Vejam só quanto tempo durou essa fase da Imprensa tipográfica. Quando iniciei minha carreira no jornalismo, no já distante abril de 1979, o sistema de impressão ainda era aquele criado por Gutenberg, com as devidas adaptações. Na salinha da Revisão do jornal A Notícia, ainda na velha sede da rua Abdon Batista, ficávamos ao lado da oficina onde o chumbo era derretido. Mansur, Pardal, Zé, Laus... Velhos e bons companheiros de labuta. No fim do expediente, meio da tarde ou início da madrugada, dependendo da escala, saíamos impregnados de chumbo até nas cuecas. Eu gostava muito, na época, de ficar na grande oficina esperando as provas pra revisar. Aprendi muito ali, vendo aqueles profissionais copiando os textos nas linotipos, montando as páginas nas ramas e rezando para que a impressora não estivesse com TPM.
Participei, no caso de AN, da transição do chumbo para o offset. Meu! Que diferença! Saía o ar carregado de chumbo e entrava a assepsia das moderninhas máquinas de fotocomposição. E a impressora... Em vez de duas passadas de quatro páginas, um caderno de oito já saía encartado. Aquele avanço nos possibilitou entregar o jornal em São Miguel do Oeste “vormittags”, ou antes do meio-dia.
Quando veio a evolução seguinte, para a Redação informatizada, já estava eu no segmento da comunicação empresarial ou corporativa. Ao encerrarmos, em 1991, as atividades da Matriz de Comunicação, ainda batíamos os dedos no teclado das fiéis Olivetti Letera 32 (a melhor máquina de escrever que já usei). No alvorecer da EDM Logos, em janeiro de 1992, toda a Redação utilizava moderníssimos computadores 186, de onde os textos iam, em disquetes Verbatim, para os 286 do estúdio (a diagramação precisava de equipamento mais potente). Não me lembro do ano em que A Notícia se informatizou, mas foi por ali também.

Surgiu o termo “Tecnologia da Informação”, e a evolução tornou-se rápida. Até demais para o gosto de alguns – entre os quais me incluo, pois ainda sou aficionado pela leitura do jornal impresso, manuseando as páginas e sujando os dedos de tinta. Hoje a Imprensa é instantânea. No tempo gasto pelo nosso ancestral, correndo do local da caça até a aldeia, um jornal digital é entregue na caixa de entrada do seu smartphone. O grito gutural do peludo caçador de mamutes é substituído pela voz sintética do minúsculo computador, dando a manchete: “Lula conta tudo!”.